Nemeton

nem1A tradução usual da velha palavra céltica nemeton é “bosque sagrado”. Isso é inexato, pois nemeton não é necessariamente um bosque, pode ser também um espaço artificialmente construído. Para descobrir isso, vamos analisar brevemente os significados de nemeto- e de outros termos correlatos.

*nemetonoble
*nemeto(n.) sacred place
*nemosheaven

*nemeto – [adj.] nobre
*nemeto – (subst.) local sagrado
*nemos – céu

De: Proto-Celtic English Dictionary (Prifysgol Cymru/University of Wales)

A Dedicatória de Segomaros, famosa inscrição galo-grega (gaulês em letras gregas)  do séc. III a. E. C., encontrada em Vaison-la-Romaine, Provença, em meados do séc. XIX E. C., diz:

nem2

Segomaros Ouilloneos tooutious Namausatis eiōrou Bēlēsami sosin nemēton

Segomaros [“grande em vitórias”], filho de Willo, toutius [líder tribal] de Namausos [Nîmes, na França] dedicou este santuário a Belisama

Assim, nemeton é algo dedicado, constituído, feito sagrado.

No final da Antiguidade, Venantius Honorius Clementianus Fortunatus (c. 530 – c. 600/609), poeta latino e bispo de Lemonum (Poitiers) escreveu (Carmina, I, ix, 9-10): nomine Vernemetis uoluit uocitare uetustas, quod quasi fanum ingens gallica lingua refert. Acredita-se que a língua gaulesa estivesse em vias de extinção no séc. VI E. C. , mas Venantius Fortunatus ainda sabia o suficiente para explicar que Vernemetis (atual Caumont-sur-Garonne) em gallica lingua (língua gaulesa) significava fanum ingens (enorme, descomunal – ingens em latim, prefixo ver– em gaulês – templo, santuário – fanum em latim, nemetis [forma modificada de nemeton] em gaulês).

É necessário observar aqui a palavra romana que Fortunatus usa para traduzir o gaulês nemetis: fanum. E porque não templum? Por um excelente motivo: templum em latim é o recinto consagrado à tomada de agouros, um amplo espaço descortinado (herança do rito etrusco, a divisão quádrupla do céu) ou até mesmo qualquer lugar de respeito e cerimônia, como a sala de sessões do Senado Romano, enquanto fanum é um pequeno recinto fechado, o que nós chamaríamos capela. Os romanos faziam clara distinção entre templa e fana (os plurais de templum e fanum) sobretudo pelo tamanho. Antes da conquista romana, já a Gália era cravejada de fana e continuou a sê-lo até a implantação do cristianismo, quando cristãos zelosos como Martinho de Tours adquiriram reputação de santidade pelo zelo na destruição desses antigos locais de culto.

De onde vem a ideia tão difundida de que nemeton é bosque sagrado apenas? É praticamente um presente irlandês. E porque traduzido pela metade, um presente grego.

Nemed: formas em gaélico antigonem3

neimed, nemthe nemid, nemhid, nemiud, nemthiu, neimthiu, neimed, senneimedh, Nemed, nemedh, Nimeth

Na Irlanda medieval, a terra ao redor de uma igreja – o terreno que formava sua gleba – era considerado um santuário e chamado nemed (diz-se néveh), significando literalmente celestial ou sagrado, ou então termann, termon, ou seja, limite, divisória, fronteira. O santuário era marcado em suas extremidades por cruzes ou pilares de pedra. Se um fugitivo, esquivando-se de seus perseguidores, tivesse êxito em adentrar os limites do nemed, estaria em segurança por algum tempo, pois era vedado molestá-lo enquanto no santuário. Porém, passada essa ocasião, seria entregue para ser julgado pelos tribunais comuns. Nos textos do Lebor na hUidre (“Livro da Vaca Castanha”, do começo do séc. XII E. C.), aparece frequentemente a espressão coa nemthe nert (“para a proteção do santuário”).

Era muito comum que os fundadores de igrejas plantassem árvores – comumente teixos, mas também carvalhos ou freixos – que oferecessem abrigo e ornamentação na área ao redor da igreja e do cemitério (para chegar a Deus é preciso passar pelo síd) e geralmente dentro do nemed. Esses pequenos bosques (artificiais) alcançaram posteriormente grande veneração e considerava-se terrível sacrilégio cortar qualquer das árvores, ainda que somente um ramo. Tais bosques eram chamados fidnemed (fínneveh), bosque que é sagrado ou bosque do nemed, de fid, madeira ou bosque (outro caso de parte pelo todo, como lareira para representar toda a casa). Fidnemed não é um santuário na floresta. É o contrário, uma floresta num santuário, um bosque plantado dentro dos limites do nemed.

A devoção irlandesa ao fidnemed é registrada numa tríade: trí mairb direnaiter beoaib: aball, coll, fidnemed (três mortos que se pagam com coisas vivas: uma macieira, uma aveleira, um bosque [fid] sagrado [nemed]).

Porque nemed não é igreja? Porque a palavra irlandesa mais comum para igreja era e ainda é cill (kill) do latim cella, o quarto, capela ou nicho num templo, onde se achava a imagem da divindade. Mas várias outras existem, como eclais, obviamente do latim ecclesia, origem igualmente de igreja.

O sentido de nemed em gaélico antigo aparece com clareza na literatura da época. Por exemplo, no poema Fo réir Choluimb, de Bécán mac Luigdech (séc. VII E. C.), que diz: cechaing noib nemed mbled (“ele atravessou em navios o santuário das baleias”), onde o comentarista explica que nemed mbled, “o santuário das baleias”, é o mar. Além disso, a palavra que traduz nemed nos textos latinos medievais é sacellum, “pequeno santuário, capelinha”, não nemus, “bosque, parque sagrado perto de um templo, mato com clareira”.

A confusão toda vem da semelhança do gaulês nemeton com o latim nemus e de uma sucessão de traduções equivocadas, um embaraço que teve começo logo que a Europa redescobriu os celtas e ficou maravilhada de que houvesse no mundo antigo algo além de Grécia e Roma.

Bellouesus /|\

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