O Sacrifício da Fundação

odhrannA voz sobrenatural varou a noite, clara e inconfundível na escuridão do pequeno quarto onde Columba repousava.

– Não será completada – dizia o emissário do Outro Mundo -, não será terminada enquanto a alma de um homem vivo não consagrar a terra.

“Então é isso o que essa raça imunda agora quer”, o irlandês pensou. O tataraneto de Niall Noígíallach possuía a têmpera de sua raça, o gênio belicoso engastado nas palavras contidas e calculadas de um abade.

A Columba parecia inaceitável que as paredes da nova igreja não conseguissem ficar em pé por melhor e mais cuidadoso que fosse o trabalho dos pedreiros. Era um acinte ao poder do Deus Vivo que o trabalho de um dia inteiro virasse um montão de escombros na manhã seguinte, dia após dia. “Se esse for o preço”, o monge refletiu, “a ovelha sacrificada multiplicar-se-á em muitas, incontáveis outras”.

De manhã, logo após as matinas, Columba dirigiu-se à congregação. Sua voz forte enchia a paisagem e dominava a atenção de todos com a habilidade de um cocheiro experiente que conhece os cavalos de sua carruagem.

– Irmão amados, nesta noite um anjo do Senhor veio ter comigo – e fez uma longa pausa, deliciando-se com os olhares que acompanhavam seus menores gestos e com o silêncio do próprio vento. – Caríssimos, uma prova de nossa fé e devoção nos é exigida. Assim como Abrão foi solicitado a oferecer seu filho Isac em holocausto, também nós devemos oferecer ao Eterno uma prova de nossa devoção para que Ele, cujo poder e sabedoria são incomensuráveis e inquestionáveis, permita-nos erigir nesta terra um templo para louvá-Lo e adorá-Lo e, assim fazendo, possamos aproximar-nos d’Ele e alcançar o perdão de nossos pecados e um lugar no Paraíso, onde o mal não tem poder e onde estaremos a salvo dos horrores e do fogo da eterna danação reservada àqueles que são desobedientes e sem fé. Quem dentre vós, filhos de minha alma, aceitará essa missão bendita e trilhará de olhos abertos o caminho da bem-aventurança sem fim rumo à glória junto ao Pai, levando nossas próprias raízes para dentro da terra?

O silêncio ficou mais pesado. Apenas o estrondo dos pensamentos, que cortavam os cérebros como raios em uma noite de tempestade, denunciava que aquelas figuras de cabeças subitamente baixas não eram uma coleção de estátuas. A respiração voltou a encher de ar os pulmões quando um homem por fim elevou sua voz:

– Pai Venerável, sou o menor entre meus irmãos e indigno de tamanha benção, mas, se for a vontade do Senhor Deus, estou pronto a enfrentar essa prova.

Columba respirou fundo e cerrou os dentes. Apertou os punhos até cravar as unhas nas palmas de suas mãos. O homem era Odhran, um de seus monges, o filho de sua juventude. Não havia como voltar atrás. Um descendente de reis não poderia voltar atrás.

– Assim seja. Com a graça do Senhor receberás a coroa de tua fé e teu nome será sempre abençoado por teus irmãos.

A preparação de Odhran começou imediatamente. Ele jejuou durante nove dias e orou sem cessar. Salmos e hinos foram cantados para ele e seu corpo foi purificado com mortificações e raro incenso. No nono dia, ele foi vestido com uma túnica alva, suas mãos e pés foram amarrados antes que ele fosse emparedado vivo em uma cavidade nas fundações da igreja.

O sono de Columba, entretanto, não foi tranquilo depois disso. Os horrores subterrâneos que invadiram seus sonhos lançavam uma sombra insuportável sobre seus dias. O som abafado da respiração do monge enterrado vivo na cripta ecoava dentro de sua cabeça, a escuridão exalava daquela tumba como tentáculos de névoa viscosa.

Surdo e cego para o mundo a sua volta, o abade sabia que Odhran não era uma oferenda para o deus estrangeiro nem estava percorrendo os caminhos para o Seu reino. Era sobre trilhas desconhecidas que seus pés pisariam, uma criança lançada a espaços inimagináveis dominados por criaturas que ele próprio, Columba, lutava para lançar no esquecimento.

A culpa alcançou-o em três dias, açoitando-o sem compaixão pelo orgulho de sua alma e por ter entregado o próprio filho como suborno pela cooperação do Povo da Terra, que riria da fraqueza de sua vontade e inteligência. Por sua ordem, os pedreiros quebraram a parede e Columba avançou sozinho até o corpo de Odhran, retirando a mortalha que o cobria.

As marcas das lacerações em seus pulsos revelavam que ele havia tentado libertar-se das amarras. A boca escancarada em um grito silencioso denunciava que o rapaz não tinha encontrado a paz e a glória prometidas. Columba perguntou-se quais teriam sido suas últimas palavras, seus últimos pensamentos. Tentou adivinhá-los perscrutando os olhos fixos, arregalados, de onde escorriam filetes de sangue seco. Ajoelhou-se então e começou a rezar em silêncio.

Antes de teminar o primeiro “Pater Noster”, Columba escutou a voz rouca de alguém que tinha contemplado paisagens que olhos deste mundo não devem ver e voltado de onde não deveria haver retorno. Para o abade, as palavras traziam um horror maior do qualquer ameaça que a mente mais demoníaca pudesse imaginar:

– Não há, velho, não há Inferno, não existe Céu. Não há Deus nem julgamento nem vida futura – declarou o corpo que havia acreditado ter um lugar certo à direita do Criador. – As coisas podem não ser do jeito que tu acreditas que são.

Columba levantou de um salto. Não, seguramente ninguém mais poderia ouvir aquilo. Deu as costas ao homem que ria com sarcasmo demente. Saiu da pequena câmara e ordenou que fosse novamente fechada. Para sempre dessa vez.

Bellouesus /|\

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