Sobre livros na Irlanda pré-cristã e outras coisas

Aethicus Ister (ou Aethicus da Ístria, sendo esta a  maior península do Mar Adriático e Ister, um outro mapanome do rio Danúbio) foi um viajante que teria vivido no séc. V d. C. É pouco o que dele se sabe, mas escreveu uma obra muito obscura chamada Cosmographia, que é um livro sobre geografia cuja doutrina é muito semelhante à do bizantino Cosmas Indicopleustes e pesadamente influenciado por Isidorus Hispalensis e outros enciclopedistas da baixa latinidade.

Pois bem, no ano 417 esse Aethicus (o que não é um nome próprio, mas um título com o significado de “filósofo”) viajou da Hispania para a Hibernia (da Espanha para a Irlanda) e disse ter visto livros irlandeses, que ele descreveu com a palavra ideomokhoi, isto é, estranhos ou incomuns. Ora, Aethicus vinha do mundo mediterrâneo, da cultura clássica.

O mundo greco-romano conhecia então dois tipos de livros (libri): o uolumen, que era o rolo de papiro usado desde o Egito Antigo, e o codex, majoritariamente em pergaminho e de forma semelhante aos livros atuais – na verdade, o antepassado direto dos livros atuais. Aethicus era um literato, um homem de livros.

Assim, cabe perguntar: o que um literato consideraria um livro ideomokhos, um livro estranho? Ainda que escrito em outra língua e usando um alfabeto diferente, uma pessoa com alguma instrução sabe que um livo é um livro e não acha nada “estranho” em tal objeto. Mas esses livros irlandeses anteriores ao cristianismo existiam, ao contrário do que geralmente se diz, e foram considerados “incomuns” por um observador culto do mundo mediterrâneo. Qual era a forma desses peculiares livros hibérnicos pré-cristãos, sua língua, que caracteres os preenchiam para que fossem tidos como inusuais? Honestamente, penso que isso nunca se descobrirá.

O relato sobre a vida de São Patrício (aliás, Succat) por Fintan, no final do Leabhar Buidhe Lecain (“Livro Amarelo de Lecan”), conta que o britano (o santo não era irlandês, mas da ilha vizinha) queimou pessoalmente 180 livros dos druidas. “Mas como, se os druidas não podiam escrever seus ensinamentos?!?”, pode-se perguntar. Cautela quanto a esse ponto. A interdição à escrita que atingia os druidas da Gália não pesava sobre os da Irlanda. Uma entre várias diferenças.

Essa imagem de evangelizadores queimando livros pagãos me parece apenas um lugar comum copiado de Atos, XIX, 11-20, em que Paulo incinera um grande número de livros esotéricos por ocasião de seu apostolado na cidade grega de Éfeso. Mas isso também nunca vamos saber. E não há como  concluir nada. Estou somente registrando mais um dado.

Que as lendas irlandesas foram comumente redigidas em scriptoria monásticos é algo que não se discute. Muitas vezes se diz que “os mitos se impuseram”. Seria realmente? Ou seria uma avaliação superficial da psique monástica hibérnica da época?

Desde a época de São Jerônimo (c. 347-420), tradutor da Bíblia para o latim, ficou óbvia uma grande tensão entre a busca do conhecimento religioso e o deleite (subversivo?) em uma literatura que não fazia parte do programa cristão. É nesse contexto literário que se deve considerar o trabalho dos escribas cristãos responsáveis pelas versões hoje conhecidas das velhas lendas.

Beda Venerabilis, na Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum (“História Eclesiástica do Povo Inglês”), e Ealdhelm de Malmesbury, nas Litterae (“Cartas”), concordam em que as escolas monásticas irlandesas produziam igualmente conhecimento secular, apesar de sua prioridade ser o estudo religioso e a educação eclesiástica. Beda conta uma anedota, atribuída a um inglês, Willibrord, a respeito de “um acadêmico da raça irlandesa que era versado em literatura, mas profundamente desinteressado e descuidado quanto a sua salvação eterna.” Em outras palavras, o que Beda afirma é que o estudante de uma escola monástica irlandesa podia estar mais preocupado com a vida de sua mente que com a salvação de sua alma.

Essa dicotomia aguda (conhecimento secular x estudo religioso) conduz a uma reflexão sobre os elementos nativos na tradição irlandesa. Para a mentalidade medieval da Irlanda, havia uma literatura religiosa, estritamente cristã e escrita principalmente em latim, e uma literatura nativa, que era secular, logo, não cristã e, ipso facto, não religiosa para a maniqueísta percepção oficial, e veiculada em irlandês.

Exatamente porque a literatura nativa não era considerada religiosa foi-lhe possível continuar a ser engastada no quadro maior da cultura e a expressar grandes linhas do pensamento e práticas pré-cristãos com impunidade. Seguramente haveria uma certa condenação pelos religiosos, que a qualificariam como “mundana”, “vulgar” (do vulgo, do povo) e “leviana”, mas os religiosos ao menos não se preocupariam com ela como um sistema rival. O próprio desprezo que a atingia como “vulgar” protegia-a da acusação de heresia.

Dessa forma, foi o esvaziamento das lendas de todo seu valor religioso que lhes permitiu sobreviver, registrando o que era aceitável da cosmologia, moralidade e tradições de uma época sepultada. Mas somente o que, sem representar perigo à salvação da alma, podia ser contado em volta das lareiras dos camponeses ou abrigar-se nos livros dos ricos, todos bons cristãos.

Os monges irlandeses não registraram as lendas porque “os mitos se impuseram”. Foi exatamente o contrário. As lendas foram escritas por mãos que não as consideravam com seriedade para olhos que somente desejavam uma distração. Talvez os gauleses não tenham concordado com esse arranjo, de forma que deles nada restou.

Uma demonstração – o cólofon do Táin Bó Cúailnge:

Sed ego qui scripsi hanc historiam aut uerius fabulam, quibusdam fidem in hac historia aut fabula non accommodo. Quaedam enim ibi sunt praestrigia demonum, quaedam autem figmenta poetica, quaedam similia uero, quaedam non, quaedam ad delectationem stultorum.

“Porém, eu, que copiei esta história, ou, mais adequadamente, fábula, não dou crédito às várias circunstâncias nesta história ou lenda narradas. Pois algumas coisas aqui contidas são embustes de demônios, diversas outras são ficções poéticas, umas poucas são prováveis, outras improváveis, e muitas mais inventadas para o encanto de imbecis.”

O texto desse grande épico da Irlanda está todo no idioma nativo. Contudo, a nota final, onde o copista declara que todo o escrito é uma bobagem, está em latim, a língua da verdeira cultura da época: a da Igreja. O que não está em latim não chega ao status de adversário porque não faz parte do mundo da religião e de sua verdade. Assim os monges cristãos irlandeses eliminaram a contradição de escrever lendas pagãs. Esses textos não eram religiosos para eles. Da mesma forma, seguidores modernos do paganismo podem eliminar a contradição de participar de festividades cristãs que sofreram um processo de secularização, como o dia de São Patrício (para os irlandeses), o Natal, a Páscoa e tantas festas de santos que se tornaram, para muitos, apenas um estímulo para consumo imoderado e uma desculpa para reunir a família e os amigos.

Bellouesus /|\

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