Bardos, Vates e Druidas na Geōgraphikā de Strábōn

bardosStrábōn de Amáseia, historiador, geógrafo e filósofo grego (64/63 a. C. – c. 24 A. D.), escreveu (Geōgraphikā, Livro  IV, Capítulo 4, §4) que entre todos os povos da Gália havia, de modo geral, três classes de homens que recebiam especial reverência (tría phula tōn timōménōn diapheróntōs estí): os Bardos (Bardoi), Vates (Ouáteis) e Druidas (Druídai). Strábōn imediatamente acrescenta que os bardos são cantores e poetas, os vates, adivinhos e filósofos naturais, enquanto os druidas ocupam-se, além da filosofia natural, também com o estudo da filosofia moral. Afirma então que os druidas eram considerados os mais justos de todos os homens, sendo-lhes confiado, por essa razão, o arbítrio de todas as contendas, quer privadas, quer públicas.

Essa é uma passagem muito interessante. Uma boa parte de seu conteúdo perde-se na tradução para o português e para outras línguas modernas (consultei uma tradução em português, outra em inglês e mais uma em francês), ao passo que os termos gregos originais mostram que o autor tinha uma visão um pouco melhor das “especializações” dessas três classes tidas em especial honra pela tribos gaulesas.

No dizer de Strábōn, os bardos (bardoi) são humnētaí kaì poiētaí, compositores de hinos e poetas. Hinos (húmnoi), para o autor grego, são canções geralmente de cunho religioso, escritas com o fim de louvar, adorar ou orar, dirigidas em regra a uma ou mais  deidades, ou a uma figura histórica/mitológica de grande importância. Ao escrever que os bardoi são humnētaí kaì poiētaí, Strábōn quer dizer que, além de produtores de poesia para entreter e informar, os bardoi eram também os criadores da poesia sacra (e aqui me ocorre lembrar que o termo scél < *sketlo- designa em irlandês medieval todos os gêneros literários, sem distinção).

Quanto aos vates (ouáteis), estes são hieropoioí kaì phusiológoi. “Filósofos naturais” é uma tradução passável para phusiológoi, mas “adivinhos” não corresponde a hieropoioí.

Os hieropoioí eram em Atenas, assim como nas outras póleis helênicas, os supervisores dos templos, seus tesouros e demais propriedades, responsáveis pela demonstração anual de suas receitas e despesas, e encarregados das funções menores dos ritos sagrados, como a realização física dos sacrifícios sob a supervisão dos sacerdotes (hiereis). Hieropoios não significa “adivinho”.

“Filosofia natural” é uma tradução do latim philosophia naturalis, que por sua vez traduz o grego phusiología < phusis (natureza, origem) + lógos (palavra, ciência), “estudo das origens, ciência da natureza”. “Filosofia natural”, expressão atualmente obsoleta, era o estudo objetivo da natureza e do universo físico, designando a reunião de astronomia, física, química e biologia e estreitamente ligada à “teologia natural”, que sustenta o conhecimento do Divino por meio da razão e da experiência ordinária  do mundo e opõe-se à “teologia revelada” (fundada em uma escritura).

Assim, quando Strábōn escreve que os ouáteis eram hieropoioí kaì phusiológoi, é possível compreender com mais clareza a que espécie de conhecimento refere-se o autor grego. Coincidentemente, o romano Marcus Tullius Cicero registrou (De Diuinatione, I, 90) que o éduo Diuiciacus afirmava possuir o conhecimento da natureza chamado “phusiología” entre os gregos, tendo assim a possibilidade de fazer previsões por meio de augúrios e conjeturas.

Por fim, os druidas, que, conforme Strábōn, além de phusiológoi (fisiólogos, isto é, filósofos naturais, como recém visto) estudavam também a ēthiká philosophía (filosofia ética ou filosofia moral), dirigida às questões da moralidade: o exame dos conceitos de bom e mau, certo e errado, nobre e desprezível, justo e injusto, virtude e vício. Enquanto a phusiología, philosophia naturalis, pesquisava o significado do mundo externo, objetivo, a ēthiká philosophía dos druidas versava sobre o plano interno, o conhecimento  de alguma forma relacionado à vida humana, que socraticamente interpreto como auto-conhecimento.

Em um único parágrafo, Strábo:n nomeia os grandes blocos que compunham o conjunto de conhecimentos cuja posse era o privilégio da elite céltica:

I Humnōidia (poesia sacra): bardoi
II Poíēsis (outros gêneros literários): bardoi
III  Hieropoia (administração/supervisão dos elementos do culto): ouáteis
IIII Phusiología (estudo amplo da natureza): ouáteis kaì druídai
V Philosophiá ēthiká (filosofia moral*): druídai

Através da poesia, os bardos registravam e descreviam a realidade objetiva ou manifestavam seu universo interior para que outros pudessem dele partilhar. Esse era seu domínio, comunicar, conservar, transmitir.

Mas por que havia uma sobreposição entre vates e druidas quando se tratava de filosofia natural (phusiología)? Porque vates e druidas precisavam conhecer objetivamente os fenômenos naturais. Os primeiros, para interpretar ao próprio mundo os sinais que os Deuses enviam por meio da natureza. Os segundos, para refletir e interpretar o que esses sinais e prodígios significam e podem ensinar a cada um.

* Abrangendo, além da moral e da ética, a teoria do conhecimento, a psicologia, a sociologia, a política, a estética, etc.

Bellouesus /|\

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s