Arquivo mensal: abril 2013

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Do Fallsigud Tána Bó Cuailnge (A Descoberta do “Táin Bó Cúailnge”)

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Concomgarthá trá filid Herend do Senchán Torpeist dús in ba mebor leo Táin Bó Cualngi inna ógi, ocus asbertatarnad fetar di ach bloga nammá. Asbert iarum Senchán ria daltu dús cia díb no ragad ara bennacht i tíre Letha do foglaim na Tana berta in suí sair dar éis in chulmeinn.

Assim, os poetas de Ériu foram convocados por Senchán Torpeist para descobrir-se se recordavam-se do Táin Bó Cúailnge em sua totalidade e disseram que dele não sabiam senão fragmentos. Senchán, então, disse a seus discípulos que escolhessem quem dentre eles partiria, tendo sua benção como recompensa, à terra de Letha [Letavia, isto é, a Bretanha Menor] para aprender o Táin que o sábio levara para o leste em troca pelos Cuilmenn [as Etymologiae de Isidorus Hispalensis]

Dolluid Emine hua Ninene & Murgen mac Sencháin do thec sair, iss ed dollotar do fertai Fergusa meic Róig ocus sech a liic Énloch la Connachta. Suidid Murgein a oenur oc liic Fergusa, oc luid cách úad do chungid taige oiged dóib colléic. Gabais Murgen tlaíd don lííc amal bid Fergus fessin adgladad, a n-asbert riss iarum.

Emine, neto de Ninene, e Murgen, filho de Senchán, partiram nessa jornada para o leste, durante a qual atingiram o túmulo de Fergus mac Róich e encontraram sua pedra sepulcral em Énloch entre os homens de Connacht. Murgen sentou-se sozinho junto à pedra de Fergus e, enquanto isso, cada um deles partiu em busca de uma casa para hospedar-se. Murgen, dessse modo, começou a cantar como se estivesse dirigindo-se ao próprio Fergus, quando então lhe disse:

Manib do liic luaich-thech malgel ma Róig rofessin fechtaib co n-éicsib imman immanachta laithiu bruidin bé Cuailngi in cech follus a Fergus.

“A não ser que tua pedra seja uma casa preciosa, ó famoso, nobre filho de Róech, terei encontrado aventuras com poetas, rebanhos sendo saqueados, dias de desafio, uma mulher de Cuailnge; tudo declara, ó Fergus.”

La sodain forrubai in ceó mór imbi connach fúair a muntir co cend tri laa ocus tri n-aidche, ocus dolluid a dochum iarum: intí Fergus, fo chongraimimm chain .i. brat uanide; léine chulpaitech co nderggintliud; claideb órduirn; maelassai chredumai; folt dond fair. Adfét Fergus dó iarum in Táin uili amal doringned othossuch co dead (asberat alaili im is do Senchan adchoas iar troscud fri noebu síl Fergusa, ocus nibo machthad cid samlaid no beth).  Tiagait uli co Senchan iarum ocus adfiadat a n-imthechta dó ocus ba buidechside díib iarum dano.

Com isso, uma grande névoa envolveu-o, de forma que seus companheiros não puderam vê-lo até se passarem três dias e três noites e então ele aproximou-se deles, o próprio Fergus, formosa sua aparência: uma camisa com capuz, ornada com bordados vermelhos; uma espada com punho de ouro; calçados com peças de bronze; uma farta cabeleira castanha. Fergus narrou-lhes o Táin inteiro, tal como acontecera, do começo ao fim. Outros dizem que o Táin foi contado a Senchán depois de jejuar contra santos da linhagem de Fergus e não seria nada surpreendente se assim tivesse acontecido. Todos vão até Senchán então e contam-lhe sobre suas andanças e ele ficou assim satisfeito ao escutá-los.

Is héseo turem remscéla Tána Bó Cualngi .i. a dó déc .i.

Estes são os contos introdutórios (remscelá) ao Táin Bó Cúailnge que são narrados, todos os doze:

De Gabáil in tsíd.
De Aslingi in Meic Óic.
De chophur na da Muccida.
De Tháin Bó Regamain.
De Echtra Nerai.
De Chompirt Chonchobuir.
De Thochmurc Ferbae
De Chompirt Con Culaind.
De Thain Bó Flidais.
De Thochmurc Emiri.

A Conquista do Monte Encantado
O Sonho do Mac Óc
A Querela dos Guardadores de Porcos
O Ataque às Vacas de Regamon
A Aventura de Nera
O Nascimento de Conchobur
A Corte a Ferb
O Nascimento de Cú Chulaind
O Ataque às Vacas de Flidais
A Corte a Emer

Atberat dano is di remscelaib de thecht Con Culainddo thaig Culaind cherdda, de gabail gascid do Choin Chulaind, ocus dia dul i carpat. dia luid Cú Chulaind do Emain Macha cosna maccu, acht is i curp na Tána adfiadtar na tri sceóil dedenchasa.

Alguns dizem que os contos introdutórios incluem a ida de Cú Chulaind à casa de Culan, o ferreiro, a tomada de armas por Cú Chulaind e sua viagem num carro de guerra e quando Cú Chulaind foi aos garotos em  Emain Macha, porém é no corpo do Táin que essas histórias são contadas.

Fonte: Lebor Laignech (“Livro de Leinster”, c. 1160, texto datado do séc. IX)

Tradução: Bellouesus /|\

O Homem Universal???

homunBum yn lliaws rith
Kyn bum kisgyfrith.

Estive numa multiplicidade de formas
Antes de assumir um aspecto constante.

De: Kat Godeu (“A Batalha das Árvores”), Llyfr Taliesin, VIII (“Livro
de Taliesin”, 8)

Gvolychaf vyn tat.
Vyn duw vyn neirthat.
A dodes trwy vy iat
Eneit ym pwyllat.
Am goruc yn gwylat.
Vy seith llafanat.
O tan a dayar.
A dwfyr ac awyr.
A nywl a blodeu
A gwynt godeheu.
Eil synhwyr pwyllat
Ym pwyllwys vyn tat.
Vn yw a rynnyaf.
A deu a tynaf.
A thri a wedaf.
A phetwar a vlassaaf.
A phymp a welaf.
A chwech a glywaf.
A seith a arogleuaf.

Adorarei meu pai,
meu Deus, meu fortalecedor,
que introduziu por minha cabeça
uma alma para guiar-me,
que para mim fez no discernimento
minhas sete faculdades.
Do fogo e da terra,
da água e do ar,
de brumas e flores
e do vento meridional.
Outros sentidos da consciência
para mim teu pai criou.
Um é o instinto,
com o segundo eu toco,
com o terceiro chamo,
com o quarto saboreio,
com o quinto vejo,
com o sexto ouço,
com o sétimo cheiro.

De: Kanu y Byt Mawr (“A Canção do Macrocosmo”), Llyfr Taliesin, LV (“Livro de Taliesin”, 55)

Is fisigh cidh diandernadh adham .i. do viii rannaib: in céd rann do talmain: indara rann do muir: in tres rand do ghrein: in cethramha rann do nellaib: in cuigid rann do gaith: in séisedh rann do clochaibh: in sechtmadh rann don spirad naomh: intochmadh rann do soillsi in domuin.

Vale a pena saber que Adão foi feito de oito partes, isto é: a primeira parte, a terra; a segunda parte, o mar; a terceira parte, o sol; a quarta parte, as nuvens; a quinta parte, o vento; a sexta parte, as pedras; a sétima parte, o Espírito Santo; a oitava parte, a luz do mundo.

Rand na talman, as í sin in colann in duine : rann na mara, is í sin fuil in duine: rann na greine a ghne 7 a dreach: rann donéllaib [ilegível]; rann na gaoithe anal an duine: rann na cloch a chnamha: rann in spirada naoiin in anmain [leia-se: a anam]: an rann dorighnedh do soillsi in domuin as í sin a chráigheacht [leia-se: chráibhdheacht].

A parte da terra, essa é o corpo do homem; a parte do mar, essa é o sangue do homem; a parte do sol, seu rosto e sua compostura; a parte das nuvens, [ilegível]; a parte do vento, a respiração do homem; a parte das pedras, seus ossos; a parte do Espírito Santo, sua alma; a parte que foi feita da luz do mundo, essa é a sua devoção.

Madhi in talmaidhecht bhus fortail isin duine bud leasc. Madhi in muir budh enaidh. Madhí an grian bud alainn beódha. Madhiat na neoil bud etrom druth. Madhi in gaoth bud laidir fri gach. Madhiat na clocha bud cruaidh do traothafdh 7 bu gadaighe 7 bu sanntach. Madhí in spirad naomh bud béodha deghgnéach 7 bud lan do rath in scribtuir dhiadha. Madhi in tsoillsi bú duine sográdhachsotoghtha.

Se o elemento terrestre prevalecer no homem, ele será indolente. Se for o marinho, ele será inconstante. Se for o solar, será belo, vigoroso. Se forem as nuvens, será superficial, tolo. Se for o vento, será robusto contra todos. Se forem as pedras, será difícil de dominar, um ladrão e cobiçoso. Se for o Espírito Santo, será intenso, de boa aparência e cheio da graça da divina escritura. Se for a luz, será um homem merecedor de amor e sensato.

De: Códice Clarend, vol. XV, fol. 7., p. 1, col. a, manuscrito do Museu Britânico (catalogado como Additional, 4783)

Na Introdução do Senchus Mór (um texto jurídico composto na época de Lóegaire, o último rei pagão da Irlanda) está escrito:

Ina diaig sin Connla Cainbrethach, sui Connacht; do roiscridhe do feraib Erenn i ngais, os e co rath in Spiruta naoim; is é do-gne conflicht na Druidhe, asberddissidhe badur et do dena nem ocus talam ocus muir, 7rl (depois dela veio Connla Cainbrethach, grande sábio de Connacht; ele ultrapassava todos os homens de Ériu em sabedoria, pois era um “file” com a graça do Espírito Santo; ele costumava discutir com os Druidas, que diziam terem feito o céu e a terra e o mar etc.).

O Satapatha Brahmana, texto indiano que descreve detalhes dos ritos védicos, dá as instruções para o Purushamedha (Parte V, 13:6:1 a 13:6:11). Purushamedha significa literalmente “sacrifício humano”. Purusha é o ser humano primordial, um gigante cósmico sacrificado pelos próprios deuses para dar início à criação do universo.

Se os celtas possuíam uma versão do Purusha védico (comparável ao Adam Kadmon, Homem da Terra, da Cabala, ao Ánthropos da Gnose e ao gigante Ymir ou Aurgelmir da mitologia nórdica), isso seria uma explicação possível para o sacrifício humano entre os celtas e para a afirmação dos druidas irlandeses que o Senchus Mór registra: o sacrifício humano reconstitui o ato de criação do universo pelo sacrifício do homem arquetípico, com os sacerdotes desempenhando o papel dos deuses e reencenando periodicamente (ou sazonalmente) a criação do mundo pela morte de uma vítima que representa o gigante do começo dos tempos.

Na concepção indiana do Vedanta, janmādy asya yatah, a verdade absoluta de que tudo emana, tem sua personificação em Purusha, que é pura consciência e contrasta com Prakrti, o mundo material.

Contudo, o Purushamedha védico era originalmente um ato simbólico.

Bellouesus /|\

Pa gur yv y porthaur (“Quem é o porteiro?”)

arthur

Pa gur yv y porthaur (“Quem é o porteiro?”) ou simplesmente Pa gur é um diálogo entre Arthur e Gleylwyd Gafaelfawr (Gleylwyd Aperto-Forte). Em um dos contos nativos do Mabinogi (Culhwch ac Olwen), Gleylwyd é o porteiro da corte de Arthur, enquanto neste poema o próprio Arthr parece estar tentando entrar em outro lugar, mas, antes que possa fazê-lo, Gleylwyd deseja saber quem é Arthur e quem o acompanha.

Curiosa é resposta de Arthur e é possível aprender bastante sobre aqueles que podem ser considerados os “cavaleiros originais da Távola Redonda” por meio de uma comparação com outros relatos e poemas galeses aproximadamente contemporâneos, em particular o já citado Culhwch ac Olwen e Preiddeu Annwfn, pois vários dos nomes aqui citados aparecem também neles.

Llyfr Du Caerfyrddin, XXXI (texto editado por William Forbes Skene, Four Ancient Books of Wales, Edinburgh, 1868)

Pa gur yv y porthaur.
Gleuliud gauaeluaur.
Pa gur ae gouin.
Arthur. a chei guin.
Pa imda genhid.
Guir gorev im bid.
Ym ty ny doi.
Onysguaredi.
Mi ae guardi.
Athi ae gueli.
Vythneint elei.
Assivyon ell tri.
Mabon am mydron.
Guas uthir pen dragon.
Kysceint. mab banon.
A guin godybrion.
Oet rin vy gueisson
In amuin ev detvon.
manawidan ab llyr.
Oet tuis y cusil.
Neustuc manauid.
Eis tull o trywrid.
A mabon am melld.
Maglei guaed ar guelld.
Ac anguas edeinauc.
A lluch. llauynnauc.
Oetin diffreidauc.
Ar eidin cyminauc.
Argluit ae llochi
My nei ymtiwygei.
Kei ae heiriolei.
Trae llathei pop tri.
Pan colled kelli.
caffad cuelli. aseirolei.
Kei hid trae kymynhei.
Arthur ced huarhei.
Y guaed gouerei.
In neuat awarnach
In imlat ew agurach.
Ew a guant pen palach.
In atodev. dissethach.
Ym minit eidin.
Amuc. a. chinbin.
Pop cant id cuitin.
I d cvitin. pop cantt.
Rac beduir bedrydant.
Ar traethevtrywrid.
In amrvin a garv luid.
Oet guychir y annuyd.
O detyw ac yscuid.
Oet guaget bragad
Vrth. kei ig kad.
Oet cletyw ighad.
Oe lav diguistlad.
Oet hyneiw guastad
Ar lleg ar lles gulad.
Beduir. a bridlav.
Nau cant guarandau.
chuechant y eirthau.
A talei y ortinav.
Gueisson am buyint.
Oet guell banuitint.
Rac riev emreis.
Gueleise. kei ar uris.
Preitev gorthowis.
Oet gur hir in ewnis.
Oet trum y dial.
Oet tost y cynial.
Pan yuei o wual
Y uie urth peduar.
Yg kad pendelhei.
Vrth cant idlathei.
Ny bei duv ae digonhei.
Oet diheit aghev kei.
Kei guin allachev.
Digonint we kadev
Kin gloes glas verev.
Y guarthaw ystaw in gun.
Kei a guant nav guiton.
Kei win aaeth von
Y dilein lleuon.
Y iscuid oet mynud
Erbin cath paluc.
Pan gogiuerch tud.
Puy guant cath paluc.
Nau ugein kinlluc.
A cuytei in y buyd.
Nau ugein kinran. a […]*

Livro Negro de Carmarthen (um dos mais antigos manuscritos totalmente em galês, de c. 1250 d. C.), poema 31

Que homem é o porteiro?
Glewlwyd Gafaelfawr.
Quem é o homem que o pergunta?
Arthur e o louro Cai.
Como estão as coisas contigo?
Na verdade, do melhor  jeito possível.
Em minha casa não entrarás
A menos que venças.
Proíbo-o.
Ve-lo-ás.
Se Wythnaint estivesse por partir
Desafortunados seriam os três:
Mabon, filho de Modron,
O servo de Uthyr Pendragon;
Cysgaint, filho de Banon,
E Gwyn Godybrion.
Medonhos eram meus servos
Na defesa de seus direitos.
Manawyddan, filho de Llyr,
Seu conselho era profundo.
Não trouxe porventura Manawyd
Escudos perfurados de Trywruid?
E Mabon, filho de Mellt,
Com sangue não maculou a grama?
E Anwas Adeiniog
E Llwch Llawynnog
Guardiães eles eram
de Eiddyn Cymminog,
Um príncipe que os apadrinhava.
Ele realizaria sua vontade e daria uma compensação.
Cai suplicou-lhe
Enquanto ele matava todos os demais.
Quando Celli foi perdido,
Cuelli foi encontrado; e rejubilou-se
Cai enquanto ele golpeava com o machado.
Dádivas Arthur dispensava,
O sangue escorria.
No salão de Awarnach
Com uma bruxa pelejando
Rachou a cabeça de Palach.
Nas fortalezas de Dissethach,
Em Mynyd Eiddyn,
Ele combateu Cynfyn;
Às centenas ali caíram,
Ali caíram às centenas,
Ante Bedwyr experto.
Nas margens de Trywruid
Combatendo contra Garwlwyd,
Valente era seu ânimo
Com espada e escudo;
Uma futilidade eram os melhores guerreiros
Comparados a Cai na refrega.
A espada no combate
Era infalível em sua mão.
Eles eram capitães firmes
De uma legião para o bem do país:
Bedwyr e Bridlaw,
Por novecentos seriam ouvidos;
Seiscentos implorando por alento
Seriam o preço por atacá-los.
Servos tive,
Era melhor quando aqui estavam.
Ante os príncipes de Emrais
Vi Cai apressar-se.
Butim para os nobres
Era Gwrhir entre inimigos;
Rigorosa era sua vingança,
Rígido seu avançar.
Ao beber do chifre
Era por quatro que beberia.
Ao chegar para o combate
Era às centenas que ele mataria;
Dia algum havia em que pudesse satisfazer-se.
Injusta foi a morte de Cai.
Cai, o louro, e Llachau.
Batalhas travaram
Ante as pontadas de hastes azuis.
Nas alturas de Ystafingon
Cai trespassou nove bruxas.
Cai, o louro, foi a Mona
Para devestar Llewon.
Seu escudo estava preparado
Contra o Gato de Paluc
Quando o povo recebeu-o.
Quem perfurou o Gato de Paluc?
Nove vintenas antes da aurora
Cairiam para alimentá-lo.
Nove vintenas de chefes […]*

* O texto do manuscrito está interrompido aqui.

Tradução: Bellouesus /|\

A Religião Céltica 3: Mitologia (Parte 3: Gales)

clip2_118eO título Mabinogion foi usado pela primeira vez por Lady Charlotte Guest em sua tradução de doze contos medievais galeses publicada entre 1838 e 1849.

A forma Mabinogion surge no fim do conto “Pwyll, Príncipe de Dyfed” (Ac yuelly y teruyna y geing hon yma o’r Mabynnogyon, “Aqui termina este ramo do Mabinogion”, frase que também encerra os demais Ramos), mas comumente se admite que o sentido do termo mabinogi, na origem significando apenas “infância”, tenha depois sido ampliado para abranger um conto sobre a infância de um herói em geral. Mabinogion seria o plural de mabinogi.

Antes das traduções de Lady Guest, somente os quatro primeiros dentre os doze contos eram conhecidos como Pedeir Ceinc y Mabinogi, “Os Quatro Ramos do Mabinogi”. Desde então, a palavra Mabinogion tem sido usada como um termo conveniente para designar todos os contos, com exceção de Hanes Taliesin, “A História de Taliesin”.

Os textos anônimos foram preservados no Llyfr Gwyn Rhydderch (“Livro Branco de Rhyderch”), escrito entre 1300 e 1325, e no Llyfr Coch Hergest (“Livro Vermelho de Hergest”), escrito entre 1375 e 1425, embora fragmentos desses contos já tenham sido encontrados em manuscritos do séc. XIII e acredite-se que tenham existido muito antes sob a forma  oral. A questão da data de composição do Mabinogion é importante, pois pode demonstrar que é anterior à Historia Regum Britanniae (“História dos Reis da Grã-Bretanha”) de Geoffrey de Monmouth, sendo a evidência de que o folclore e a cultura galeses seriam muito mais antigos e resistentes.

O Mabinogi, desconhecido fora de Cymru (Gales) até a época de Lady Charlotte Guest, é uma parte da longa, consistente e gloriosa tradição da poesia que é um dos maiores orgulhos da nação galesa.

O Mabinogi propriamente dito consiste de quatro lendas, também chamadas “Os Quatro Ramos do Mabinogi”. Essas lendas são:

1) Pwyll, Pendeuic Dyuet (“Pwyll, Príncipe de Dyfed”, Primeiro Ramo): durante uma caçada, Pwyll encontra Arawn (“Língua Prateada”), Senhor de Annwn (o Outro Mundo da tradição céltica) e, como compensação por um insulto não intencional, oferece-se para trocar de lugar com Arawn e lutar contra seu inimigo, Hafgan (“Verão Branco”). Pwyll passa um ano sob a forma de Arawn e ganha sua amizade graças a suas boas maneiras e pelo sucesso em sobrepujar Hafgan, assim obtendo o título de Penannwn (“Senhor de Annwn”). Ele se casa com Rhiannon, mas somente depois de derrotar Gwawl, o antigo pretendente. O casal vive feliz até o nascimento de Pryderi;
2) Branwen uerch Lyr (“Branwen, Filha de Llyr”, Segundo Ramo): Branwen casou-se com Matholwch, rei de Ériu, e deu à luz Gwern, mas os irlandeses, que tinham sofrido um grave insulto feito por Efnyssien, meio-irmão de Branwen, quando a comitiva de Matholwch estava na Grã-Bretanha, vingaram-se obrigando Branwen a servir na cozinha do castelo, onde era agredida pelo cozinheiro. Ela criou um pássaro e enviou uma mensagem a Bran, seu irmão, rei da Grã-Bretanha, que veio com uma frota para resgatá-la. Efnyssien lançou Gwern numa fogueira e seguiu-se uma batalha entre britanos e irlandeses; ela morreu de tristeza e foi supultada num “túmulo de quatro lados” nas margens do rio Alaw, em Anglesey. Seu mito, que tem uma forte semelhança com o de Cordélia, filha de Lear, é um tipo de Soberania, como fica óbvio quando sua história é investigada com profundidade. Quanto a Ériu, ficaram vivas na ilha somente cinco mulheres grávidas, cujos filhos foram os fundadores dos Cinco Reinos;
3) Manawydan uab Llyr (“Manawyddan, Filho de Llyr”, Terceiro Ramo): Manawyddan ap Llyr é mencionado no conto Culhwch e Olwen como um seguidor de Arthur, mas, originalmente, é um deus marinho que corresponde (ao menos linguisticamente) ao irlandês Mánannan mac Lir. No Mabinogion, é irmão de Bendigeid Fran (“Bran, o Abençoado”), ficando sem terras depois da morte deste e tornando-se marido de Rhiannon. Ajudou a quebrar os encantamentos lançados por Llwyd sobre Dyfed como vingança pelo tratamento violento dado a Gwawl por Pwyll, primeiro marido de Rhiannon. Manawyddan é um homem engenhoso e um mestre artesão, capaz de ganhar seu sustento enquanto a terra está enfeitiçada. Como instrutor e homem de poder, ele fica no lugar do pai de Pryderi e herda as qualidades de Pwyll;
4) Math uab Mathonwy (“Math, Filho de Mathonwy”, Quarto Ramo): o filho de Mathonwy é tio de Gwydion, Gilfaethwy e Arianrhod e irmão de Penardun. Ele era onisciente, possuindo, entre outras habilidades, o estranho dom de ouvir tudo que era dito em seus domínios tão logo as palavras fossem transportadas pelos ventos. Era muito sábio, um grande rei. Neste conto, ele somente pode viver enquanto seus pés estiverem no colo de uma virgem, Goewin, a não ser em tempo de guerra. Como Gwydion provoca uma guerra entre Math e Pryderi, Math deixa-a temporariamente, sendo Goewin violada por Gilfaethwy, que nutria por ela uma paixão secreta. Para aliviar a vergonha da jovem, Math casa-se com ela e pune seus sobrinhos, Gilfaethwy e Gwydion, transformando-os em vários animais. É com a ajuda de Gwydion que Math cria Blodeuwedd com flores como noiva para Llew Llaw Gyffes, seu sobrinho-neto.

Sete outros contos foram associados aos Quatro Ramos:

a) O Sonho de Macsen Wledig: um imperador romano, Magnus Maximus (383-388 d. C.), conhecido na tradição galesa como Macsen Wledig. Geoffrey de Monmouth, que o chama Maximianus, diz que ele fez de Conan Meriadoc o governante da Bretanha Menor, na atual França. Neste conto,  o imperador sonha com uma mulher desconhecida por quem fica apaixonado. Por fim, mensageiros finalmente informam que esta realmente existe em Cymru, de forma que Macsen deixa Roma para casar-se com ela. Seu nome é Elen. O Maximus histórico, subjacente à lenda, realmente serviu na Grã-Bretanha, mas levou muitas tropas da ilha em sua luta contra Gratianus, imperador do Ocidente, assim deixando a Grã-Bretanha sem proteção. Traços dos fatos permanecem nas lendas: os galeses retiveram seu nome, que aparece em várias genealogias de famílias nobres como uma conexão imperial. Os soldados romanos que partiam tomaram esposas estrangeiras, mas, conta a lenda, cortaram suas línguas para que não pudessem corromper o idioma britânico de seus filhos. Vemos assim como é antiga e poderosa a devoção dos Cymry (galeses) a sua linguagem;
b) Lludd e Llefelys: Lludd é filho de Beli e irmão de Llefelys. Foi o rei da Grã-Bretanha que reconstruiu a cidade de Londres, cujo nome vem do rei: Caer Lludd, Caer London. Três pragas caíram sobre a ilha: uma raça chamada Coranianos (genedyl y Coraneit, “a raça dos Coranianos”), que podia saber tudo que era dito; um grito que era ouvido a cada Véspera de Maio e que fazia murcharem as lavouras, matava os animais e crianças e deixava as mulheres estéreis e o desaparecimento dos mantimentos do rei. Lludd procurou conselhos junto a seu irmão, Llefelys, que lhe disse que os Coranianos seriam vencidos depois de beberem uma infusão de insetos esmagados em água; que o grito era provocado por dragões que seriam vencidos depois de se embebedarem com hidromel forte, sendo necessário enterrá-los exatamente no centro da Grã-Bretanha, e que o ladrão das provisões era um homem de poder capaz de lançar um feitiço de sono sobre a corte e, então, roubar toda a comida. Lludd venceu as três pragas e a paz da ilha foi restabelecida;
c) Culhwch e Olwen: Culhwch é o filho de Celyddon Wledig e sobrinho de Arthur. Sua mãe, Goleuddydd (“Dia Brilhante”), deu-o à luz depois de ficar apavorada com a visão de uma vara de porcos, de modo que ele foi chamado Culhwch, ou “Chiqueiro”. Seu pai casou-se outra vez depois da morte de Goleuddydd. A madrasta de Culhwch lançou um feitiço sobre ele para que não pudesse casar-se senão com Olwen (“A dos Rastros Brancos”), filha de Yspaddaden Pencawr (“Espinheiro, Chefe dos Gigantes”), o gigante. Na corte de Yspaddaden, Culhwch recebeu trinta e nove anoethu ou tarefas impossíveis, que deveriam ser cumpridas antes de casar-se com Olwen, todas as quais foram realizadas com a ajuda dos cavaleiros de Arthur. A principal tarefa era caçar o Twrch Trwyth, um javali gigante, para o que seria necessário o auxílio de vários cavalos específicos, cães de caça e homens, incluindo Mabon, um jovem miraculoso, cujo encontro é narrado nesse conto. Outras missões incluem a viagem de Arthur ao Outro Mundo para obter alguns dos Objetos Sagrados, ou Treze Tesouros da Grã-Bretanha – um feito que é também relatado num poema galês do séc. IX, o Preiddeu Annwn, “Espólios de Annwn”, atribuído ao bardo Taliesin. O poder de Yspaddaden é vencido e Culhwch casa-se com Olwen;
d) O Sonho de Rhonabwy: Rhonabwy adormece a sonha que Arthur e Owain estão jogando gwyddbwyll (um jogo de tabuleiro céltico) ante um campo de batalha. Durante o jogo, os cavaleiros de Arthur lutam com os corvos de Owain, mas os jogadores apenas continuam com seu passatempo, até que Arthur, impaciente por começar a perder, esmaga as peças. O jogo talvez simbolizasse uma batalha pela soberania.

Os contos “Culhwch e Olwen” e “O Sonho de Rhonabwy” despertaram o interesse dos estudiosos por preservarem tradições mais antigas do que o material arturiano. A narração de “O Sonho de Macsen Wledig” é uma história romântica sobre o imperador romano Magnus Maximus.

Três dos contos são versões galesas de romances arturianos que também aparecem no trabalho de Chrétien (ou Chréstien) de Troyes. Os críticos do séc. XIX acreditavam que os contos baseavam-se nos próprios poemas de Chrétien, mas as opiniões mais recentes inclinam-se a afirmar que as duas coleções são independentes, mas têm um ancestral comum:

e) A Dama da Fonte: Owain, inspirado pelo conto de Cynon (na tradição galesa, o filho de Clydno – um dos guerreiros de Arthur – e  amante de Morfudd, irmã gêmea de Owain), sai em busca do Castelo da Fonte, que era guardado pelo Cavaleiro Negro. Ele atravessou o mais belo vale e viu um brilhante castelo numa colina. Depois de entrar nesse lugar sobrenatural, Owain derrota o Cavaleiro Negro e casa com sua viúva. Após um começo difícil, ele vence  ressentimento desta e guarda o reino até que sua sede por aventuras o faz partir, deixando para trás a esposa. Dama da Fonte é também o título da condessa misteriosa no Yvain, de Chrétien de Troyes.
f) Peredur, Filho de Efrawg: na mitologia galesa, Peredur era o sétimo filho de Efrawg e o único do sexo masculino a sobreviver. Seu pai e irmãos morreram antes que ele atingisse a maioridade. Isso não impediu Peredur de tornar-se um dos cavaleiros de Arthur e suas muitas aventuras formaram a base para o Sir Percival posterior. Talvez por causa de sua posição como sétimo filho, Peredur era particularmente adepto de matar bruxas, que, em Cymru, compareciam ao campo de batalha trajando armaduras completas. No fim de seu conto no Mabinogion, Peredur enfrenta a “líder das bruxas” e, com sua espada, rompe elmo e armadura em duas partes, enquanto as demais feiticeiras fogem;
g) Gereint, Filho de Erbin: Gereint é o rei de Dumnonia (reino que, no, período pós-romano, abrangia Devon, a Cornualha e outras áreas do sudoeste da Inglaterra) cujas aventuras são contadas nesta narrativa. No romance francês, o herói deste conto é Erec, mas, como este não é comumente conhecido em Cymru, substituíram-no por Gereint. Este pode ser uma figura histórica, um primo de Arthur. Embora seja listado como contemporâneo desse rei, pode ter pertencido a uma geração anterior, pois o conto “O Sonho de Rhonabwy” diz que Cadwy, seu filho, era um contemporâneo de Arthur. O nome do pai de Gereint é citado como Erbin, mas, na Vida de São Cyby, Erbin é chamado seu filho. Em “Culhwch e Olwen”, encontramos os nomes de dois de seus irmãos, Ermid e Dywel.  Gereint, suspeitando que sua esposa é infiel, força-a a acompanhá-lo numa exaustiva jornada de aventuras para testar seu amor e obediência a cada passo do caminho. Como outras fortes heroínas célticas, ela suporta calmamente sua provação, permanecendo leal e amorosa durante todo o tempo. Gereint finalmente sentiu “duas tristezas”, do remorso por ter desconfiado de sua esposa  e por tratá-la tão mal.

Lady Guest também incluiu em sua tradução um oitavo conto (removido das traduções inglesas posteriores, que, no entanto, continuam a usar o termo Mabinogion), não encontrado nem no “Livro Branco de Rhyderch”, nem no “Livro Vermelho de Hergest”, mas em um manuscrito do séc. XVII. Esse texto é o Hanes Taliesin (“A História de Taliesin”). O nome Taliesin significa “Testa Brilhante”. Ele foi um bardo galês  e, de acordo com o mito, a primeira pessoa a adquirir a habilidade da profecia.

Em uma versão da história era ele o servo da feiticeira Cerridwen, uma deusa da fertilidade, mãe de Afagddu, o homem mais feio do mundo, e chamava-se Gwion Bach. Cerridwen preparava uma beberagem mágica que, depois de um ano fervendo, produziria três gotas que dariam a quem as bebesse toda a sabedoria do mundo. Essa pessoa conheceria todos os segredos do passado, do presente e do futuro. Ela queria dá-las a Afagddu como compensação por sua feiúra.

Enquanto Gwion Bach cuidava do fogo sob o caldeirão, uma parte do líquido quente caiu em seu dedo e ele a sorveu ao sentir a dor. Eram as três gotas da sabedoria.  Todo o líquido restante era veneno. A furiosa Cerridwen empregou todos os seus poderes mágicos para perseguir o menino. Durante a caçada, ele se transformou numa lebre, num peixe e num grão de trigo, que Cerridwen, metamorfoseada em galinha, engoliu, descobrindo-se então grávida. Mais tarde, Gwion, renascido de Cerridwen, foi jogado ao mar e apanhado numa armadilha para peixes, quando passou a chamar-se Taliesin por causa de sua testa brilhante.

Os “Quatro Ramos” são, essencialmente, histórias medievais e seus personagens comportam-se, falam e vivem de modo muito semelhante a sua audiência do séc. XIV. Suas maneiras são (em geral) corteses e refinadas, invocam frequentemente o deus cristão e suas roupas incluem brocados, sedas, toucados e outros itens medievais. Contudo, ainda que sejam produto de uma sociedade cristã da Idade Média, os Quatro Ramos baseiam-se também numa visão de mundo profundamente pagã, proveniente de tradições e crenças das culturas neolíticas e da Idade do Bronze, bem como da Idade do Ferro céltica e da era romano-britânica.

Bellouvesus /|\

A Religião Céltica 3: Mitologia (Parte 2: Irlanda)

clip2_118dOs textos irlandeses mais ricos são:

a) o  Lebor Gabála Érenn (“Livro das Invasões de Ériu”);
b) as duas versões e as três redações do conto intitulado Cath Maighe Tuireadh (“A Batalha da Planície dos Pilares”);
c) o grupo de textos chamados Tochmarc Etaine (“A Corte a Étain”), Altrom Tighe Da Medar (“Nutrição da Casa do Dois Cálices”), Aislinge Óengusso (“O Sonho de Oengus”);
d) todos os textos do ciclo épico de Ulster, dos quais o principal é o Táin Bó Cúailnge (“Ataque às Vacas de Cuailnge”), juntamente com uma dúzia de remscéla (“contos preliminares” ou “prelúdios”);
e) por fim, embora de menor importância, os textos do mais tardio ciclo de Find mac Cumail (Fiannaidheacht), algumas vezes chamado “Ciclo Ossiânico” (de Oisin ou Ossian, filho do herói Find), que narra as aventuras do Fianna, grupo de cavaleiros seguidores de Find que viviam à margem da sociedade.

A mitologia irlandesa fundamenta-se nas cinco “invasões” míticas da ilha, que os fili transformaram em história. Cinco raças ocupam e tomam Ériu, cada uma delas cedendo lugar à seguinte depois de um cataclismo, epidemia ou grande batalha. Desse modo, sucederam-se (1) a raça da Partholon, (2) a de Nemed (“sagrado”), (3) a dos Fir Bolg (“homens de Bolg/Builg/Bolga/Bulga” [relâmpago?]), (4) as Tuatha Dé Danann e, por fim, (5) os Goidil (ancestrais dos atuais irlandeses).  Derrotadas em batalha pelos Goidil, as Tuatha Dé Danann refugiam-se nos montes funerários megalíticos, nas colinas e sob os lagos de Ériu.

O relato fundamental da mitologia céltica irlandesa é o Cath Maighe Tuireadh (“A Batalha da Planície dos Pilares”), que narra a luta dos deuses hibérnicos, ou Tuatha Dé Danann,  contra os gênios opressores e destruidores que são os Fomoiri.

Depois de uma primeira batalha contra os Fir Bolg, que lhes concedeu a soberania, as Tuatha Dé Danann são obrigadas a aceitar um rei meio-fomor, Bres, pois seu próprio rei, Nuada, teve seu braço direito decepado na batalha. Bres, porém, é um mau soberano, sofre a sátira de um file (Cairpre) e é obrigado a devolver a soberania. Esta é entregue a Nuada, que traz agora um braço de prata. Bres chama em sua ajuda os Fomoiri que, provenientes da Escandinávia, invadem Ériu. As Tuatha Dé Danann se salvam graças à intervenção de Lug (também meio-fomor), que organiza o combate, convocando todos  os “sábios” de Ériu: druidas, guerreiros, copeiros, poetas, videntes, artesãos, entre outros. Depois de uma enorme batalha, os Fomoiri são derrotados e Bres, para salvar sua vida, devolve a prosperidade a Ériu.

Esse relato, o correspondente céltico da guerra germânica entre Æsir e Vanir ou do conflito grego entre Deuses e Titãs, pode ser considerado um mito sobre a origem do mundo e, ao mesmo tempo, traz uma profecia sobre os últimos tempos. Seu cerne, em essência, é o tema da soberania legitimada por uma conquista violenta e guerreira.

O mesmo tema também inspira o ciclo de Étain (ou Eithne), rainha de Ériu e do Outro Mundo, dividida entre a soberania divina e a soberania humana, depois entre o paganismo e o cristianismo. A guerra, apesar da frequência e da ferocidade das batalhas, não é senão um elemento acessório. Não obstante a pulverização dos motivos mitológicos e a multiplicidade dos nomes divinos, a mitologia irlandesa cristaliza-se fortemente em torno de concepções que se ligam à primazia da autoridade espiritual e da soberania da classe sacerdotal.

Os temas especificamente guerreiros (e também míticos) concentram-se no ciclo épico, cuja principal narrativa, o Táin Bó Cúailnge (“Ataque às Vacas de Cuailnge”), conta a guerra empreendida por Medb, rainha de Connacht, aliada às outras províncias de Ériu, contra Ulaid, pela posse de um touro divino, o Castanho de Cualgne, que lhe fora recusado. O campeão de Ulaid, Cú Chulaind, defende sozinho a fronteira de sua província e impõe à rainha Medb um acordo pelo qual um guerreiro será enviado a cada manhã ao vau que separa as duas províncias. Na maior parte, essa Ilíada irlandesa narra os combates de Cú Chulaind contra um só adversário (combates singulares) e suas vitórias. Assim como Hêraklês é filho de Zeus, Cú Chulaind é filho de Lug e, embora seja rei dos guerreiros, não é um soberano.

Os escribas cristãos que redigiram os relatos mitológicos alteraram-nos em alguns pontos. Suprimiram quase sempre tudo que dizia respeito ao ritual, aos sacrifícios e às doutrinas contrárias aos ensinamentos bíblicos. Mesmo assim, o episódio que se segue, inserido no conto Siarburcharpat Conculaind (“A Carruagem-Fantasma de Cú Chulaind”) revela o que sentiam os irlandeses cristianizados: quando Pádraig tentou converter Lóegaire, rei de Temhair, este demonstrou um má-vontade obstinada. Exigiu, para acreditar em Cristo, que o santo lhe fizesse ver Cú Chulaind.  E o portento aconteceu: Cú Chulaind aparece, totalmente armado, com sua carruagem, cavalos e cocheiro. O teimoso rei é forçado à conversão pelo herói, que lhe descreve as delícias do Paraíso e os sofrimentos do Inferno.

Bellouesus /|\