O “sacrificium” não-sangrento nos “Commentarii in Virgilii Aeneidos” de Maurus Seruius Honoratus

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Sacrificium é qualquer dádiva oferecida voluntariamente a uma deidade e o oferente, por meio dessa dádiva, reconhece sua dependência e espera tornar propício o deus. Nos Commentarii in Virgilii Aeneidos, Seruius define sacrificare como ueniam petere (solicitar um favor, obséquio, graça). “Alcançar o propósito relacionado à oferenda” diz-se litare em latim: litare é sacrificiis deos placare (apaziguar os deuses com sacrifícios) ou propitiare et uotum impetrare (propiciar e fazer uma promessa solene) (IV, 50; II, 19).

Seruius (cognominado Grammaticus) não é muito loquaz a respeito de sacrifícios não-sangrentos, porém traz informações sem dúvida interessantes. Assim, por exemplo, o autor menciona que bolos de farinha (adolea liba, bolos de espelta ou trigo-vermelho), mel e óleo são oferendas sacrificiais adequadas (VII, 109), acrescentando que as divindades, quando fosse difícil obter o animal adequado para o sacrifício, ficariam satisfeitas com uma imitação feita de pão ou de cera (simulata pro ueris accipiuntur; II, 116). Seruius também informa – invocando a autoridade de Varro – que na ilha de Delos havia altares de Apollo onde vítimas jamais eram imoladas, sendo o deus adorado somente por meio de orações. Tampouco a deusa do Amor e da Beleza exigia sacrifícios sangrentos. De acordo com I, 335, os sacrifícios a Venus Paphia, adorada em Chipre, consistiam em franquincenso e flores (Paphiae Veneri quae Cypri colitur, ture tantum sacrificatur et floribus).

Quanto às libationes (libações, o ato ritual de verter água, vinho, leite, sangue ou outro líquido apropriado como oferenda a um deus, espírito ou em memória dos mortos, chamadas loibaí ou spondaí em grego), Seruius conta que os romanos de épocas mais antigas adornavam as taças com coroas de flores (I, 724) e costumavam deixar esses recipentes em mesas especiais, geralmente redondas, chamadas mensae paniceae (I, 736; VII, 111; III, 257). As libationes podiam, isoladamente, ser consideradas como sacrifícios não sangrentos e eram realizadas em várias ocasiões, como nas refeições diárias, nos sacrifícios de purificação ou nos sacrifícios expiatórios, feitos por ocasião do repasto funeral entre os familiares do morto.

Bellouesus /|\

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