Reflexões sobre um tropeço

O jovem Dannotalos corre pela floresta. De repente, dá uma topada numa pedra e cai no chão. Levanta-se rapidamente e, apoiado numa árvore, segura uma das pernas e berra a plenos pulmões muitos nomes que sua mãe não lhe ensinou.

Um bardo, uma vate e um druida que vinham pela mesma trilha, porém em direção contrária, veem a cena e aproximam-se.

– O que te aconteceu? – pergunta o bardo.
– Tropecei nesta pedra – diz o menino apontando a culpada – e caí de cara no chão, maldita seja. Quase se-me quebra o nariz. A filha do peixeiro Liscos nunca mais olharia meu rosto se eu por isso ficasse com o nariz torto, que Maponos me proteja!
– Oh! – exclama o bardo deliciado – O jovem galante sofre um acidente na floresta e teme perder os olhares de sua amada. Que maravilhosa história! Conta-me tudo.
– Um momento, um momento – intervém o vate. – Pode haver coisas maiores em jogo. Dize, menino, que estavas fazendo ao tropeçares?
– Estava perseguindo uma lebre, mestre vate, quando dei uma topada nesta pedra….
– Uma lebre?!? Por Belenos, a lebre é sagrada para Andrasta, deidade dos britanos. Como tropeçaste?
– Bem, eu estava correndo e meu pé chocou-se contra a pedra…
– Qual dedo bateste?
– O dedão, mestre vidente.
– Ah, o hálux. Mas dize, de qual pé?
– Do esquerdo, meu senhor.
– Então esse é um presságio terribilíssimo! Perseguias uma lebre, tropeçaste numa pedra, machucando o hálux do pé esquerdo. Certamente é Andrasta que nos avisa de alguma iminente catástrofe! Toda a tribo precisa realizar sacrifícios expiatórios urgentemente e deves purificar-te com…
– Na minha opinião – declara o druida erguendo o indicador direito e a sobrancelha esquerda para discorrer com mais equilíbrio – , tal evento, qual seja, a topada na pedra, leva-nos a perquirir todas as suas implicações morais. Tua corrida pela floresta, rapaz, é perfeita imagem da tua juventude, período em que pensamentos desordenados arrastam nossa mente e atos como cavalos selvagens que um cocheiro inexperto não tem habilidade para controlar a contento. Outrossim, a circunstância de teres estouvadamente tropeçado neste ser mineral e imóvel revela-nos com meridiana clareza os perigos da desatenção. Com efeito, é sabido que a eternidade nada mais é que a perene renovação do momento presente, posto que o passado já não existe e o futuro não é senão um anelo, como ensinou de modo magistral meu nobre irmão Moricamulos, há anos cavalgando no séquito da Grande Rainha. Dessa forma, devemos estar sempre imersos no agora ou poderemos tropeçar em qualquer pedra que nos apareça pela frente enquanto perseguimos uma lebre ou uma jovem na floresta ou pelo campo e seria realmente pior caíres ao correr atrás de uma mulher pois, se ela vier a tonar-se tua esposa – considerando que seja imprudente o bastante para casar-se com um mancebo capaz de enroscar-se na próprias bragas ao correr atrás dela – isso poderia vir a ser usado contra ti em caso de um divórcio. A lebre, por outro lado, jamais mancharia tua reputação ou te levaria a um tribunal, razão pela qual, em certos casos, lebres podem ser preferíveis a mulheres. Recordo-me de uma fábula contada por meu mestre quando eu tinha aproximadamente a tua idade e nessa fábula narrava-se, usando, como de costume, o comportamento de nossos irmãos animais para ilustrar com mais clareza as ações humanas…  Mas o que foi mesmo que te aconteceu?

Tire cada um suas próprias conclusões.

Bellouesus /|\

Anúncios

2 ideias sobre “Reflexões sobre um tropeço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s