Licium/liciatia

LICIUM

P. Ouidius Naso, Fasti, II, 571-575:

Ecce anus in mediis residens annosa puellis
Sacra facit Tacitae: uix tamen ipsa tacet;
Et digitis tria tura tribus sub limine ponit
Qua breuis occultum mus sibi fecit iter.
Tum cantata ligat cum fusco licia plumbo.

Eis que uma mulher velha sentada entre as moças executa os ritos
de Tacita, a Silenciosa (embora ela mesma não seja silenciosa);
com três dedos, ela lança três grãos de incenso
sob o peitoril, onde o pequeno rato faz seu caminho secreto.
Ela então prende fios encantados juntamente com o chumbo escuro.

Licium, -i, significa fio em latim. Cantata licia (plural de cantatum licium), fios encantados, são fios sobre os quais encantamentos foram pronunciados. Os licia eram de lã retirada da extremidade da fio, sendo usados para ligar o tear à trama do tecido. Vergilius menciona-os na Pharmaceutria:

Primeiramente, estes três fios em união mística reunidos,
de três cores, em volta desta imagem amarro
E com essa imagem circulo três vezes o santuário
(Números ímpares são agradáveis aos poderes divinos!)
Que ele, assim, ao meus potentes chamados atenda:
Trazei da cidade, trazei, ó encantos, Daphnis para minha casa.

Num nó triplo agora, Amaryllis, amarra
Os três fios: e, ao amarrá-los, grita ainda:
Com estes [fios], ó nós do amor, eu o ato para que jamais vagueie.
Trazei da cidade, trazei, ó encantos, Daphnis para minha casa.

Na Naturalis Historia (XXVIII, 12, 1), Plinius menciona novamente nós e números ímpares: “Alguns, para curar tumores na virilha, amarram ali um fio retirado da trama do tecido, onde fazem sete ou nove nós, a cada nó nomeando uma viúva qualquer; amarra-se ainda com um fio um prego ou qualquer outra coisa sobre a qual alguém tenha caminhado e levam-na rapidamente ao doente para que a ferida não doa.”

Na inscrição de Larzac (galo-romana, tablete de chumbo descoberto em 1983 em Larzac), aparecem as palavram liciatim/liciatia, respectivamente acusativo singular e instrumental singular de um nominativo *liciati/liciatia. P.-Y. Lambert (La Langue Gauloise, Errance, Paris, 2003, p. 162) interpreta *liciatia como o nome gaulês da feiticeira que usa como instrumento o licium, ou seja, a magia com nós tão conhecida dos povos célticos [leia aqui].

Bellouesus /|\

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