Do Ritual

litus1

1. Generalidades
2. Centralidade/Liminalidade
3. Orientações para a Pesquisa da Liturgia
4. Parâmetros Básicos
4.1 Preparação
4.1.1 O indivíduo
4.1.2 Especificidade
4.2. Ambiente
4.3. Objetivo
4.4 Alinhamento
4.5. Técnicas de focalização
4.6. Energia
4.7. Percepção
5. Fazendo Oferendas

1. Generalidades

A palavra liturgia vem do grego leitourgía, formada de leit– < laós, “povo”, e –ourgós < érgon, “trabalho”. Assim, liturgia, etimologicamente, significa o trabalho realizado para/em nome do povo. Esse era o sentido da palavra para os gregos clássicos. A concepção atual, de conjunto de rituais determinados ou prescritos, de modo geral, por uma religião é uma modificação semântica introduzida pelo cristianismo.

Entre os antigos, a leitourgía era a oferta, em geral de custo muito elevado, de um serviço ao povo ou ao estado, sendo por isso feita pelos cidadãos mais ricos. A magnificência no desempenho da leitourgía, sempre um ato específico e, a um só tempo honorífico e obrigatório, firmava a posição do responsável por ela ante os demais membros da elite. A principal área onde se poderia encontrar a leitourgía era a religião cívica, materializada nos muitos festivais que marcavam o antigo ano grego.

Os romanos conheciam a figura da leitourgía, a que chamavam munera (plural de munus, substantivo neutro). Sendo a bolsa do patriciado romano muito mais sensível que a dos seus correspondentes helenos, os nobres da Cidade Eterna aprenderam muito cedo que os munera deveriam ser evitados sempre que possível, a não ser que se pudesse obter do povo alguma vantagem.

É comum falar-se em liturgia como algo muito complicado, com muito passos a ser realizados para que um rito seja adequadamente concluído. Honestamente, essa multiplicidade de fases e complexidades muitas vezes não é mais do que uma tentativa de envolver o rito de adoração em um ar de mistério, o que não deveria ser usado para confundir as pessoas.

A construção dos ritos pode ser aprendida partindo-se de ideias muito simples, de fácil entendimento. Sobre sua estrutura básica pode-se construir um rito que será tão singelo quanto as ideias básicas ou muito complexo, com uma pluralidade de etapas a executar. Pode-se elaborar uma grande variedade de rituais com diferentes objetivos e diferentes graus de complexidade, mas encontrar-se-á dentro de todos esses ritos um mesmo padrão simples, expressivo e harmonioso.

A divisão padrão do ritual abrange três partes: o centro, o começo e o final. Por que não o começo primeiro? Bem, há nisso uma lógica.

Na margem, fora do rito propriamente, ocorre a dedicação do espaço sagrado. Na margem, fora do rito propriamente, os participantes reúnem-se e fazem todas as coisas que são necessárias para unir-se em uma mesma identidade espiritual e para levar essa massa formada de partículas individuais a um ponto de contato direto com o sagrado. O cerne de tudo necessariamente será aquele momento para o qual todos estão ali, o ponto em que se oferece, reverencia-se, abençoa-se ou se consagra.

Novamente, é na margem, fora do rito propriamente, que encontraremos o final do qual estaremos retornando – passada a ação sagrada central do rito – para nossas vidas e consciências de costume.

Do centro para a margem o rito é planejado. Da margem para o centro o rito é conduzido.

Ultrapassando a margem, ingressamos no rito e avançamos rumo ao momento de clímax em busca do qual viemos. Prosseguimos então calmamente até uma vez mais retornarmos à margem.

No cento de todo ritual fica o momento culminante, o ato central de adoração, benção ou transformação, onde se encontra a razão do rito, o porquê do exercício espiritual que está sendo realizado. A construção de um rito começa aqui, ao planejarmos uma cerimônia e a finalidade para a qual ela se destina. Ao planejar um ritual, devemos responder certas perguntas:

– Que desejamos realizar?
– Qual a melhor forma para alcançar esse objetivo?

É no centro que localizamos o ato fundamental do rito.

É importante que, ao identificarmos o centro, não o confundamos com o centro temporal, cronológico. A identificação de um ato como centro da cerimônia baseia-se completamente na função desse ato no contexto do rito. Em rituais longos, a construção do ato central geralmente consome a maior parte do tempo, com os passos finais ocupando somente uma porcentagem diminuta do tempo total. Em uma cerimônia que dura cerca de uma hora, o ponto do clímax comumente será atingido somente depois de 40 ou 45 minutos. Em uma cerimônia de trinta minutos, o ato central comumente será encontrado após 20 minutos do início. Mas isso não é uma regra rígida, é apenas o que geralmente se vê.

Três elementos a lembrar sobre o centro de um ritual: a razão do ritual, o objetivo do ritual, o apogeu do ritual.

O modo mais eficiciente para conduzir ao clímax de um rito é a preocupação que ocupa nossas mentes ao delinearmos o começo de uma cerimônia. É no princípio do rito que ponderamos sobre a melhor forma para agregar a mente espiritual das pessoas presentes. É também durante esse estágio inicial que estabelecemos e identificamos o espaço sagrado e como se liga ou se demonstra a cosmologia de nossa realidade sagrada. A ligação ritual inicial com as divindades, ancestrais e outras forças espirituais é estabelecida durante o começo de qualquer cerimônia. O começo de um rito deve estabelecer o foco e a identidade espirituais dos participantes, identificar e estabelecer o tempo e espaço rituais, estabelecer a conexão com a cosmologia sagrada, as divindades e as forças espirituais.

Três elementos a lembrar sobre o começo de um ritual: como se reunir, como estabelecer o espaço sagrado, como ligar-se aos Deuses.

Não se passa de um momento de intensidade espiritual diretamente de volta para a vida quotidiana. Assim, deve existir também uma parte de encerramento da cerimônia. É no encerramento do ritual que se dá tempo para os participantes buscarem seus objetivos pessoais, afrouxar a tensão e retomar contato com a realidade comum depois de um ato de forte carga espiritual. É necessário oferecer um caminho pelo qual todos possam suavemente voltar ao mundo das percepções normais à realidade comum. Podemos novamente nos aproximar da margem e, serena e suavemente, deixar o mundo da realidade ritual e retornar a nossas vidas. No final da cerimônia, dedicamos algum tempo para agradecer aos Deuses e ancestrais por sua participação e relações espirituais conosco, acrescentando um momento de tranquilidade e quietude.

Três elementos a lembrar sobre o fim de um ritual: serenar, voltar, relaxar.

O ritualista iniciante deve evitar a tentação de prolongar desnecessariamente uma cerimônia incluindo etapas ou atividades adicionais. Embora esses passos ou atividades adicionais possam ter a intenção de intensificar ou aperfeiçoar a experiência do ritual, é mais a sua adequação do que a sua quantidade que deve fornecer a base para a escolha de quais atos incluir em qualquer cerimônia. Uma ação deve fluir, resultar na próxima ação, sempre com vistas ao ápice central do rito. Depois, as ações devem fluir do centro de volta para um ponto de calma e paz. Um fluxo espiritual adequado é a consideração primordial ao selecionar que etapas incluir e quais deixar de fora em uma cerimônia. Cada ação deve servir de apoio à formação do objetivo central do ritual. Desse modo, algumas ações podem encaixar-se bem no contexto de uma dada cerimônia e encontrar-se totalmente deslocadas no contexto de outra.

a) Três elementos a lembrar sobre ações rituais: sua adequação, seu fluxo, seu contexto.

b) Do centro para a margem o rito é planejado. Da margem para o centro o rito é conduzido.

c) Três elementos a lembrar sobre o centro de um ritual: a razão do ritual, o objetivo do ritual, o apogeu do ritual.

d) Três elementos a lembrar sobre o começo de um ritual: como se reunir, como estabelecer o espaço sagrado, como ligar-se aos Deuses.

e) Três elementos a lembrar sobre o fim de um ritual: serenar, voltar, relaxar.

f) Três elementos a lembrar sobre ações rituais: sua adequação, seu fluxo, seu contexto.

2. Centralidade/Liminalidade

Centralidade é o conceito do centro sagrado e buscaremos primeiramente as formas em que esse conceito funcionaCeltic20Fire no ritual. Enquanto o conceito de centralidade é aceito no Druidismo de modo geral, a forma de sua representação pode variar grandemente. Seja o centro simbolizado por uma árvore, poste, poço, altar de pedra ou lareira, o conceito ainda pode ser percebido. O conceito do centro sagrado sempre está presente em nossas cerimônias, embora seus símbolos possam mudar de rito para rito ou de grupo para grupo.

Liminalidade é um conceito expresso em nossos ritos como margens, fronteiras ou limites. Se o centro é o eixo da roda do espaço sagrado, a fronteira externa é o limite onde o rito cessa. A liminalidade é um reflexo do espaço sagrado. Assim como o centro está de alguma forma presente durante o ritual, presente também está a fronteira, embora a forma como isso ocorre possa variar de uma a outra cerimônia.

Portais são pontos de contato entre o espaço ritual e outros mundos. Por essa razão, muitos ritos terão um símbolo indicando a presença dos portais. Algo simples como a entrada para um quarto, uma trilha para um bosque ou santuário ou uma abertura num círculo de pedras são todos portais físicos de entrada que podem ser vistos como símbolos de entrada para os reinos espirituais. Às vezes, um conjunto de portais espirituais são abertos durante um rito e tornam-se os portais para a entrada espiritual. Um poço de oferendas ou um vasilhame podem ser vistos como portais que levam oferendas para os outros mundos. Para alguns, o fogo é entendido como um portal de inspiração ou bençãos vindas de outros mundos e a fumaça que sobe ao céu transporta aos outros mundos orações e louvores. Todo rito pode ter vários portais para trazer bençãos de outros reinos em diversos momentos e locais, porém, o conceito de um ponto de passagem está presente em todos esses portais.

É comum nos ritos a presença do sistema multicosmológico dos celtas. Ocasionalmente, aparecem representações dos mundos múltiplos. Estátuas, postes com olhos arregalados e imagens das deidades podem ser incluídos no espaço ritual para representar o mundo superior divino geralmente mencionado como Céu. Objetos dos ancestrais ou dos espíritos do passado ou um símbolo dos mortos podem estar presentes na área do rito e representar a conexão com o além usualmente entendido como o Oeste. Representações dos espíritos e forças da vida neste mundo médio podem estar presentes para mostrar a plena participação na vida física e espiritual no plano em que habitamos.

Quer sejam invocados ou fisicamente representados, esses diversos mundos conectam-se ao ritual. Vistos, ouvidos ou sentidos, estão conosco como parte de nossas cerimônias.

Do centro para a margem, o espaço sagrado é organizado para refletir a ordem dos Deuses, Ancestrais e do Povo. Uma área ritual é, em miniatura,  um reflexo do mundo como um todo. Ao percebermos claramente a estrutura do microcosmo, obtemos a capacidade de compreender melhor a organização do macrocosmo. Cada rito reforça a ordem e nosso próprio papel no mundo ao permitir que participemos de sua organização e abarquemos sua ordem sagrada.

dtree3. Orientações para a Pesquisa da Liturgia

(Texto muito antigo, exumado de um disquete.)

A liturgia é a área da pesquisa religiosa em que menos sabemos sobre o que os antigos povos célticos realmente faziam. O fato é que há poucos exemplos históricos de ritos realmente sendo realizados e do conjunto de ações envolvidas nesses ritos. Essa escassez de exemplos escritos (ou registrados sob qualquer outra forma ) de rituais completos tem oferecido alguns problemas e causou uma grande confusão. Esse fato levou muitos celtistas a tirar conclusões equivocadas, como afirmar que não podemos saber nada sobre a religião céltica.

Tais estudiosos, embora bem instruídos em estudos célticos, arqueologia e antropologia em geral, usualmente carecem de qualquer formação no estudo formal da fenomenologia religiosa e por isso fazem o erro de igualar liturgia com religião e pensam que, se não se possui informação suficiente sobre a liturgia, não se poderá então dispor de informação suficiente sobre a religião. Encontram-se numa peculiar posição baseada em dois fatos: o primeiro, possuem um excelente conhecimento da evidência disponível graças a seus anos de estudo; o segundo é que são completamente ignorantes quanto à forma de avaliar essas evidências no contexto religioso.

Tão singular posição leva-os a afirmações falsas quanto à prática religiosa, que são comumente aceitas  como interpretações oficiais por força de sua formação acadêmica em qualquer das áreas necessárias a essa pesquisa. Uma solução para esse problema seria combinar a pesquisa em estudos célticos ao estudo das religiões, permitindo que o conhecimento do fenômeno religioso em geral oriente a busca pela evidência específica aos povos célticos. Outra solução seria aplicar estrito rigor acadêmico na análise de declarações, propostas e conclusões, nunca aceitando qualquer coisa como verdade, simplesmente com base na autoridade da pessoa que faz a afirmação e julgar o valor da afirmação com base apenas nas evidências utilizadas para apoiá-la.

Quase a totalidade das descrições que atualmente possuímos (e, na verdade, não são em tão grande número) não apresentam um rito do início ao fim. São antes vislumbres de ações individuais ou etapas dento de um ritual. Partindo desses indícios do que foi feito há muito tempo podemos perceber alguma coisa sobre as várias ações e os princípios a ela subjacentes. E, embora não tenhamos nenhum roteiro das liturgias realizadas em séculos passados, torna-se possível identificar os conceitos e etapas compreendidos nesses ritos. Exemplos do que sabemos sobre os princípios litúrgicos que podiam ser encontrados entre os vários grupos célticos incluem:

a) a presença do fogo como catalisador ontológico;
b) a definição do espaço sagrado;
c) a presença do centro sagrado;
d) a realização de oferendas rituais baseadas no princípio da reciprocidade;
e) o ato divinatório;
f) a realização dos ritos para o benefício de grupos corporativos ou outras formas de coletividade dentro de uma comunidade ou ainda de indivíduos;
g) a existência de especialistas encarregados da realização desses ritos.

Certamente não é possível afirmar que cada rito executado pelos vários povos célticos incluísse algum ou até mesmo a maioria desses elementos, mas não seria equivocado afirmar que estivessem comumente presentes no ritual.

Apesar de hoje existir uma tendência a imaginar os celtas antigos como uma só cultura, estes eram na verdade povos extremamente tribais que viviam em unidades sócio-políticas autocontidas e de tamanho variável, algumas maiores, outras menores. Havia vários traços sociais e culturais comuns entre essas tribos, que falavam línguas semelhantes, inexistindo, contudo, o conceito mais amplo de corpo político, grupo racial ou nacionalidade céltica.

Isso se torna muito importante para a pesquisa na área litúrgica. É preciso não esquecer que uma espécie de liturgia céltica padrão nunca teria existido; os celtas antigos não possuíam nenhum Breviário ou Missal que lhes fornecesse um conjunto consistente de padrões litúrgicos intertribais. O que um visitante estrangeiro veria em cada uma das tribos/nações seria a identidade local de cada uma, com seus ritos específicos para as divindades adoradas em cada uma.

Ainda que os vários povos célticos pudessem compartilhar princípios de crenças, cosmovisões comuns e até mesmo certas divindades, os detalhes exatos de quando e como os vários ritos de adoração eram realizados teriam apresentado algum grau de variação de um povo a outro no tocante às palavras e procedimentos das cerimônias – uma manifestação tribal do individualismo que os celtas demonstravam em todos os outros aspectos da vida. É de grande importância para a pesquisa litúrgica que se mantenha uma visão clara da natureza da cultura céltica a fim de evitarmos avaliações equivocadas que poderiam nos levar a buscar uma liturgia pancéltica que provavelmente jamais existiu.

Assim, podemos considerar que praticamos uma religião que é, em muitos aspectos, consistente com as práticas religiosas antigas. Dividimos com estas uma teologia, cosmologia e ontologia semelhantes e adoramos os mesmos deuses com, basicamente, o mesmo sistema de crenças fundamentais. Contudo, não podemos dizer que realizamos exatamente os mesmos rituais, exatamente da mesma forma que qualquer das antigas tribos célticas fez. Devemos reconhecer esse fato e então realizar a prática religiosa como nos for necessário, com ritos que atendam a nossas necessidades e alimentem nossos espíritos com aquilo de que necessitam, ao mesmo tempo que mantêm e fortalecem a interrelação entre o humano e a esfera do sagrado.

A fim de atingirmos esses objetivos, devemos estudar os princípios gerais da liturgia e do ritual cuja presença possa ser percebida em todo ritual eficiente e então, dentro da moldura de uma boa estrutura litúrgica, seremos capazes de construir ritos que sejam coerentes com nossas crenças e visões de mundo, incluindo, no processo de seu desenvolvimento,  muitos dos detalhes que sabemos estar presentes em alguns rituais célticos antigos e que irão atender a nossas relações e necessidades espirituais modernas.

4. Parâmetros Básicos

4.1 Preparação
4.1.1 O indivíduo
4.1.2 Especificidade
4.2. Ambiente
4.3. Objetivo
4.4 Alinhamento
4.5. Técnicas de focalização
4.6. Energia
4.7. Percepção

Insisto em afirmar que há princípios subjacentes a todo bom ritual que podem ser encontrados em todas as cerimônias religiosas e espirituais. Compreendê-los é o ponto inicial para entender, realizar e construir exercícios litúrgicos. Em diversos atos, que de ordinário não seriam considerados de natureza ritual, encontrar-se-á a aplicação de tais princípios. Um discurso político eficiente, por exemplo, aplicará a maioria dessas características.

Discutirei neste texto o ritual em geral como disciplina autônoma enraizada em nenhum sistema de crenças específico a fim de proporcionar um alicerce básico e conhecimento sobre as generalidades de um bom ritual. Espero que, com sua leitura, o estudante seja capaz de aproximar-se com uma compreensão clara de qualquer ritual, não importando a etnia em que está inserido, seu contexto religioso ou simbologia espiritual.

1 Preparação

1.1 O indivíduo

O primeiro parâmetro do ritual é a própria pessoa ou grupo que o executa. A preparação do indivíduo pode dar-se de várias maneiras. O primeiro nível da preparação é a formação e a obtenção de experiência com o ritual em geral. É preciso que a pessoa ou grupo compreenda-o como tema geral e que esse entendimento esteja solidamente estabelecido na personalidade do indivíduo ou na mente grupal da organização.  Eventuais falhas no conhecimento do ritual geral devem ser detectadas e corrigidas por meio de educação e prática.

1.2 Especificidade

Em segundo lugar, a preparação deve ser avaliada relativamente a um ritual específico. O indivíduo ou o grupo deve possuir suficiente conhecimento das peculiaridades do rito em questão. Todos os envolvidos devem compreender, de forma geral, o propósito para o qual o rito está sendo realizado. Todos os envolvidos devem estar adequadamente preparados para executar e compreender suas próprias funções dentro do ritual. Se houver convidados presentes, também estes devem ser ajudados a compreender o que se está passando.

Se o ritual for realizado por um grupo, certas considerações especiais impõem-se. Há relacionamentos pessoais capazes de afetar o ritual? Em caso afirmativo, de que modo? Determinadas pessoas realmente são um problema no ritual, chegando a  perturbá-lo seriamente. É preciso encontrar formas para desenvolver uma mente grupal (egrégora) e identidade consistentes dentro da organização. Quais seriam essa formas?

Ao realizar rituais que não integram uma programação usual e podem requerer certas habilidades ou treinamentos peculiares, há outros pontos que devem ser considerados. Por exemplo, todos concordam e apóiam o objetivo do ritual? Não sendo esse o caso, seria prudente analisar a possibilidade de essas pessoas não participarem. Haveria alguém cuja preparação não fosse adequada ou que poderia causar perturbação? Novamente, seria prudente analisar a possibilidade de essas pessoas não participarem.

Um ritual é uma atividade dirigida à obtenção de um objetivo. Não é um evento social comum. A participação não deve subordinar-se a simpatias, relações de amizade ou simples interação entre os membros do grupo quando isso puder comprometer a eficiência de todo o procedimento.

2. Ambienteloch-lomond-2

O segundo parâmetro de um ritual é seu ambiente, ou seja, o espaço e o tempo reservados para sua realização. É necessário certificar-se de que haja local adequado e tempo suficiente para o ritual.

A primeira questão é decidir onde se fará o ritual e se o local poderá oferecer tudo o que é necessário à cerimônia. Trata-se de área segura, limpa e desimpedida de obstáculos? Que esforços estão sendo feitos para aprontar o local a fim de ajudar os participantes a percebê-lo como sagado?  Que sensações o local pretendido transmite às mentes dos participantes?

Passemos a algumas considerações sobre o tempo. Houve tempo suficiente para planejar, preparar e realizar o ritual e, não menos importante, limpar o espaço sem que os participantes se sentissem apressados ou efetivamente o fossem? Que medidas foram tomadas para evitar interrupções? Telefones, relógios, aparelhos e outros acesórios da vida mundana foram desligados ou postos de lado a fim de não perturbar o ritual?

É sempre mais vantajoso possuir um local sagrado especial para propósitos rituais. Templos, igrejas ou até mesmo lugares especiais na mata ou na praia são alguns exemplos. Se for usado um local que possua de ordinário finalidade mundana, devem-se fazer esforços para alterá-lo de forma que possa ser mais  prontamente percebido como sagrado. Se você precisar fazer seu ritual em sua sala de estar, afaste ou retire os móveis, decore o ambiente com uma tapeçaria, use velas, etc. Tome todas as medidas possíveis e razoáveis para que aquele momento e espaço sejam percebidos como sagrados pelos participantes e por você mesmo.

Dun-Aengus-13. Objetivo

O terceiro parâmetro é o objetivo, o porquê de fazermos o ritual e o que esperamos alcançar com esse exercício litúrgico específico. Um ritual deve ter uma razão ou jamais poderá ser um sucesso. Devemos estabelecer um propósito para o ritual, uma razão que pode ser algo tão simples quanto uma comemoração ou tão intenso quanto um encantamento de guerra. Isso dá ao rito e a seus participantes um sentido de propósito.

Assim, perguntamo-nos: qual a razão para estarmos naquele lugar, realizando aquela atividade? Quão clara está a definição e a representação desse propósito? Este se encontra em consonância com as intenções mais amplas do indivíduo ou do grupo envolvidos? Que medidas foram tomadas para permitir que os presentes melhor compreendessem essa finalidade?

4.4 Alinhamento

Alinhamento é o quarto parâmetro do ritual. Ao chegarmos a esse ponto, decidiremos a quais deidades, forças espirituais, culturas, etc., alinhar-se-á nosso ritual. Os maiores esforços devem ser empreendidos para manter as combinações tão consistentes e equilibradas quanto possível. Por razões óbvias, rituais monoteístas alinham-se mais facilmente, em razão de seu foco estrito e falta de opções.

Consideremos primeiramente o alinhamento cultural, a consistência com a cultura selecionada. Se o ritual for inspirado em uma cultura específica, deverá ser projetado tão coerentemente com essa cultura quanto possível. A simbologia nele utilizada deve refletir a simbologia dessa cultura tanto quanto o permita a informação disponível. Empréstimos de outros sistemas devem ser minimizados. A linguagem ritual, as forças e personificações espirituais e as deidades honradas devem igualmente ser selecionadas com essa consistência em mente. Em geral, quanto menor o número de símbolos culturais e forças de outros sistemas presentes no ritual, tanto melhor. Com uma exceção: quando o efeito desejado puder ser obtido com uma estrutura ritual inter ou pan-cultural.

Uma derivação desse parâmetro é a consistência entre as deidades honradas em uma dada cerimônia. Honrar deidades de um mesmo panteão resultará em uma estrutura litúrgica mais coerente. A exceção é, outra vez, que o objetivo buscado surja de uma combinação de diferentes culturas.

Também se devem levar em consideração as personalidades das deidades ou forças espirituais. Duas ou mais deidades individuais interagem bem na estrutura mítica ou há tensão entre elas por qualquer motivo? Esus e Taranus podem não ser uma boa dupla para o mesmo ritual, pois, aparentemente, havia conflito entre eles. O mesmo pode ser dito a respeito de Brigit e Goibniu. Uma regra geral é que as deidades em foco devem harmonizar-se dentro da estrutura mítica, a fim de propiciar um ritual que flua suavemente e não apresente perturbações. Com uma exceção: que a tensão entre deidades adversárias seja o efeito desejado.

O equilíbrio entre o que os participantes do ritual percebem a respeito das divindades também deve ser considerado. A questão não é saber qual dos deuses é mais poderoso, mas qual é melhor compreendido e percebido pelos participantes. Se um dos deuses for melhor compreendido ou mais familiar ao grupo,  haverá uma tendência a dirigir o foco do ritual em direção a essa familiaridade, o que é simplesmente a forma como a mente humana funciona. É necessário haver harmonia entre ambiguidade e definição. Todas as forças ou deidades convidadas ou honradas no curso do ritual devem ser igualmente definidas ou ambíguas. Temos uma tendência automática para nos voltarmos àquilo que melhor conhecemos ou entendemos.

Há alguns modos de impedir que esse desequilíbrio ocorra.  O primeiro e mais importante é formar as pessoas envolvidas no ritual. Se uma nova deidade estiver sendo apresentada ao grupo, os mitos e contos a seu respeito devem ser cuidadosamente estudados, a fim de que cada um possua um conhecimento mais preciso e uma imagem mental mais clara quanto a sua natureza. Outro expediente é o uso de símbolos dessa deidade, com ênfase menor na identificação de seu nome. A intenção de qualquer método deve ser facilitar o reconhecimento claro e fácil acesso a cada força espiritual envolvida no ritual, permitindo que a atividade permaneça concentrada no equilíbrio estrutural apropriado.

Este parâmetro ressalta a fundamental importância do conhecimento do corpo mitológico de cada cultura para a criação e realização de exercícios litúrgicos coerentes com suas premissas espirituais e estruturas simbólicas.

5. Técnicas de focalizaçãoboulderwall3

O quinto parâmetro são as técnicas de focalização, isto é, os métodos que simbolizam e permitem a realização do objetivo, os detalhes de como fazemos o ritual e de que forma começamos a entender a finalização exitosa do trabalho pretendido. A primeira área a ser visada é a cosmovisão ou paradigma cosmológico em que irá fundar-se a execução do ritual. Todo esforço deve ser feito para manter a simbologia e os sistemas estruturais empregados tão consistentes com a cosmovisão quanto possível. A consistência interna do sistema simbólico também deve ser mantida.

Depois consideramos como as forças espirituais e as divindades estão simbolizadas no ritual, o que deve ser avaliado conforme o método e a eficácia. As identidades e os personagens a quem nos dirigimos estão sendo definidos e caracterizados com clareza? Quê podemos fazer para tornar os convites e representações mais intensos e eficazes?

6. Energia

Energia é o sexto parâmetro do ritual. A energia é o aspecto emocional/intelectual do rito. devemos tentar concentrar as mentes e emoções dos participantes no tipo de sensações e pensamentos que melhor conduzam ao objetivo do ritual. A dança, o canto, a percussão, a oratória, o controle respiratório estão entre os métodos para elevar a energia emocional a um nível mais alto e alcançar um patamar de concentração extática no objetivo, sendo função do ato escolhido elevar e dirigir a energia emocional e espiritual mais em sintonia com o propósito do ritual.

As partes faladas do rito devem usar uma linguagem ritual ou terminologia intensamente descritiva com o fito de inspirar e estimular os presentes a enviar sua energia para a realização do ritual e a obtenção do objetivo. De que modo melhor podemos dirigir as mentes dos presentes à finalidade em questão? De que modo podemos obter o máximo possível de envolvimento emocional e espiritual pelos participantes?

37307. Percepção

O sétimo parâmetro do ritual é a percepção, que é onde julgamos o êxito ou fracasso do ritual. Devemos estudar o ritual antes, durante e depois para avaliar a efetividade do exercício. Por meio do estudo claro e objetivo do projeto litúrgico poderemos julgar seu poder. Para nossos objetivos, “poder” será definido como “efeito mensurado do exercício espiritual”. Não se iguala poder a energia, pois um ritual pode produzir um alto nível de energia e mesmo assim não ter poder. Alguns rituais, ao contrário, manifestam uma grande quantia de poder pelo uso eficiente de uma pequena quantidade de energia. O que se sente durante o ritual é a energia, não o poder.

O primeiro dos métodos básicos para obtermos percepção da efetividade ou poder de um ritual é a divinação. Durante o ritual, realizamos algum tipo de leitura ou estudo de um presságio. Um ritual pode terminar apresentando vários presságios durante sua realização. Cada um deles será estudado independentemente dos outros e depois todos serão estudados como um grupo.

Chegamos então à área de averiguação, em que discutiremos e registraremos nossas impressões sobre o ritual. Essas impressões e percepções são registradas em um diário, que poderemos usar para referências futuras. Por esse motivo, os registros do diário devem conter tantas informações quantas sejam possíveis sobre o exercício.

A revisão periódica é a área final que será discutida relativamente à percepção. É por meio da revisão periódica de nossos diários que seremos capazes de finalmente avaliar o poder de um dado ato. Por algum tempo, é comum que não saibamos se nosso objetivo foi atingido. Apenas pelo registro de nossas ações e de seus resultados, quer tenham sucesso ou não, poderemos avaliar nosso ritual pelo poder que ele manifestar. Além disso, somente esses diários nos permitem comparar muitos de nossos rituais uns com os outros a fim de apreciarmos a completa efetividade na área geral do exercício litúrgico.

Em resumo, percebemos que há diversas áreas específicas do ritual que são comuns à matéria sem levar-se em conta o contexto de sua aplicação. Assim como o estudo matemático é um requisito básico para todas as formas de engenharia ou a fisiologia é indispensável em todas as especialidades médicas, a compreensão desses parâmetros básicos para o ritual em geral melhorará as habilidades litúrgicas, não importando as áreas de sua aplicação.

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5. Fazendo Oferendas

O tipo da oferenda e o modo de oferecer dependem da deidade e da ocasião.

Oferendas podem ser expostas, enterradas, queimadas, lançadas na água ou “entregues” de outros modos.

Uma oferenda de alimentos (carne, leite e derivados, bebidas alcoólicas, grãos e derivados) e/ou ervas e flores (frescas ou secas) pode ser exposta/enterrada, mas também é agradável aos Imortais que pessoas com fome sejam alimentadas em seu nome. As lendas mostram que as Tuatha Dé Danann valorizam anfitriões generosos e amaldiçoam terrivelmente aqueles que se mostram mesquinhos. Eles regulam a abundância do solo, a fertilidade do corpo e do espírito. Portanto, não convém ser mesquinho com eles. Você nunca sabe quando um Imortal disfarçado vai cruzar o seu caminho.

Os Deuses gostam de celebrações, portanto é agradável reunir e divertir pessoas em seu nome, oferecendo a energia dos participantes, sua vitalidade e felicidade por estarem reunidos, como sacrifício.

Objetos significativos podem ser enterrados, depositados diretamente no ventre escuro da Mãe.

Cartas, pedidos, tecidos, alimentos, bebidas alcoólicas podem ser lançados no fogo ritual. O fogo é uma das portas para o Outro Mundo e ele próprio é um Deus, Aedus, o Fogo Sacrificial de apetite inesgotável, que pode também ser o Dagda.

Objetos podem ser amarrados a árvores, lançados na água (fontes, rios, lagoas, o mar) como oferendas a deidades relacionadas a esse elemento ou para que sua energia passe diretamente ao Outro Mundo, pois massas de água são também um portal. Mas nada de sujar os rios ou deixar que as praias fiquem imundas, isso é abominação, não importa o motivo.

Todas as oferendas, antes de ser entregues, devem morrer para este mundo. Cartas e tecidos devem rasgados, objetos de metal (armas, joias e outros) devem ser quebrados e/ou entortados, de modo a tornarem-se inúteis para nós. Isso permite que se desprenda o espírito do objeto.

Mas não importa o que você dê ou como. Você não é aquilo que você possui para dar e você não pode enganar os Deuses dando o que não é seu. A única oferenda verdadeira (as outras não são falsas, mas são apenas simbólicas) é você mesmo, sua própria força de vida.

Sempre que preparamos um ritual, este não vai começar com a reunião dos participantes ou com o estabelecimento do círculo (para os que o fazem). Começa muito antes, quando ele é decidido, quando os elementos são reunidos, quando são realizadas as atividades tendentes à sua execução. Preparar o ato de oferecer já é uma parte da oferenda e deve ser feito com reverência.

O bardo Taliesin disse: “Sou a reverência, que é um receptáculo aberto”. O que é isso? Não é difícil: a reverência é a disposição espiritual que permite a abertura para a awen.

E não existe uma flor sagrada: todas o são. E as abelhas também. E até mesmo o esterco que o jardineiro espalhou como adubo. E o próprio jardineiro. Todas as coisas são inerentemente puras.

Bellouesus /|\

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