Arquivo mensal: março 2013

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Oidheadh Chloinne Lir (“A Morte Trágica dos Filhos de Lir”)

children-of-lirAconteceu que os cinco reis de Ériu encontraram-se para decidir quem possuiria a suprema realeza sobre eles e o rei Lir de Síd Fionnachaidh [Monte Encantado da Colina do Campo Branco] esperava que certamente fosse ele o escolhido. Quando os nobres reuniram-se para deliberar, escolheram como rei supremo a Bodhbh Dearg, filho do Dagda, pois seu pai fora um grande druida e era ele o mais velho dos filhos de seu pai. Lir, porém, deixou a assembleia dos reis e foi para casa em Fionnachaidh. Os outros reis tê-lo-iam perseguido para feri-lo com lanças e com espadas por não prestar obediência ao homem a quem haviam atribuído suprema autoridade. Mas Bodhbh Dearg, o rei, não quis saber disso e disse: “Ao contrário, pelos laços do parentesco liguemo-lo a nós para que assim haja paz em toda a terra. Digam-lhe que escolha para esposa uma das três donzelas de mais belas formas e melhor reputação em Ériu, as três filhas de Oilell de Aran, minhas próprias três filhas adotivas.”

Desse modo, mensageiros comunicaram a Lir que Bodhbh Dearg dar-lhe-ia uma filha adotiva dentre seus filhos adotivos. Lir agradou-se da ideia e no dia seguinte partiu da Colina do Campo Branco com cinquenta carruagens. E chegou a Loch Deirgeirt [Lago do Olho Vermelho], perto de Cill Dálua [Killaloe, Igreja de Lua] . E, quando Lir viu as três filhas de Oilell sentadas junto à rainha, Bodhbh Dearg, o rei, disse-lhe: “Escolhe uma das donzelas, Lir.” “Não sei”, disse Lir, “qual a mais excelente entre todas elas, contudo a mais velha é a mais majestosa, é a ela que escolherei.” “Se assim é”, disse Dearg, o rei, “Aoibh é a mais velha e ser-te-á dada, se desejares.” Assim, Lir e Aoibh casaram-se e voltaram para Síd Fionnachaidh.

E depois disso nasceram-lhes gêmeos, um filho e uma filha, e chamaram-nos Fionnuala e Aodh. E nasceram-lhes outros dois filhos, Fiachra e Conn. Aoibh morreu quando estes nasceram e Lir lamentou-a amargamente e, a não ser pelo grande amor por seus filhos, teria morrido de tristeza. E Bodhbh Dearg, o rei, entristeceu-se por Lir e disse-lhe: “Por tua causa lamentamo-nos por Aoibh, mas nossa amizade não pode ser quebrada, dar-te-ei a irmã dela, Aoifa, como esposa.” Lir concordou com isso e eles foram unidos e ele levou-a consigo para sua própria casa. No começo, Aoifa sentiu afeição e respeito pelos filhos de Lir e de sua irmã e, sem dúvida, qualquer um que visse as quatro crianças não poderia senão amá-las de todo coração. Lir cuidava amorosamente de seus filhos e estes sempre dormiam em camas diante de seu pai, que costumava levantar cedo cada manhã e deitar-se entre as crianças. Mas então por esse motivo o aguilhão do ciúme atravessou o coração de Aoifa e ela passou a olhar para as crianças com ódio e inimizade. Certo dia, sua carruagem foi-lhe preparada e ela levou consigo nela os quatro filhos de Lir. Fionnuala não estava disposta a ir com ela nesse passeio, pois havia sonhado à noite um sonho avisando contra Aoifa, mas ela não poderia evitar seu destino. E, quando a carruagem chegou a Loch Dairbhreach [Lago dos Carvalhos], Aoifa disse às pessoas: “Matai os quatro filhos de Lir e dar-vos-ei recompensas de todas as que há no mundo.” Eles, porém, recusaram-se e disseram-lhe que seu pensamento era maligno. Ela própria teria então erguido uma espada para destruir as crianças, mas sua própria feminilidade e fraqueza impediram-na. Assim, ela conduziu a carruagem de Lir ao lago para banharem-se e as crianças fizeram como Aoifa lhes dissera. Assim que elas entraram no lago, ela golpeou-as com um bastão druídico de encantamentos e magia e transformou-as em quatro belos cisnes perfeitamente brancos e sobre eles cantou esta canção:

“Fora, filhos do rei, para as ondas bravias!
Que doravante vossos gritos estejam com os
bandos dos pássaros.”

E Fionnuala respondeu:

“És uma bruxa! Conhecemos-te pelo que és!
Podes expulsar-nos de onda para onda,
Mas vez ou outra nos promontórios repousaremos,
Obteremos alívio, tu, porém, punição.
Embora nossos corpos estejam no lago,
Rumo ao lar nossos espíritos voarão por fim.”

E outra vez ela falou: “Designa um fim para a ruína e sofrimento que nos impuseste.” Aoifa riu e disse: “Jamais ficareis livres antes que uma mulher do sul seja unida a um homem do norte, até que Lairgnen de Connacht case-se com Deoca de Mumhan; tampouco terá qualquer um poder para tirar-vos dessas formas. Por novecentos anos vagareis pelos lagos e correntezas de Ériu. Isto apenas hei de conceder-vos: que conserveis vossa fala e não haverá no mundo música igual à vossa, a tristonha música que cantareis.” Isso ela disse porque a tocara o arrependimento pelo mal que havia feito. E ela disse então estes versos:

“Desaparecei de diante de mim, filhos de Lir,
A partir de agora joguetes de ventos sem freio!
Até que Lairgnen e Deoca encontrem-se,
Até que estejais no noroeste da Rubra Ériu.

“Uma espada de traição trespassa o coração de Lir,
De Lir, heroi poderoso.
Muito embora uma espada eu tenha empunhado
Minha vitória machuca-me até o coração.”

Ela então virou seus corceis e foi para o Salão de Bodhbh Dearg, o rei. Os nobres da corte perguntaram-lhe onde estavam os filhos de Lir e Aoifa disse: “Lir não os confiará a Bodhbh Dearg, o rei.” Bodhbh Dearg, contudo, pensou em sua própria mente que a mulher havia cometido alguma traição contra eles e, por essa razão, mandou mensageiros ao Salão de Fionnachaidh.

Lir perguntou aos mensageiros: “Porque viestes?” “Para buscar teus filhos”, disseram eles. “Não chegaram lá com Aoifa?” “Não chegaram”, disseram os mensageiros, “e Aoifa disse que tu não deixaste que as crianças fossem com ela.” Melancolia e tristeza então tomaram o coração de Lir ao ouvir tais notícias, pois ele soube que Aoifa fizera mal às crianças e ele foi para Loch Deirgeirt. E, quando os filhos de Lir viram-no chegar, Fionnuala cantou a canção:

“Bem-vinda a cavalgada dos corceis
Aproximando-se de Loch Deirgeirt.
Uma turma temerosa e feérica
Seguramente procura-nos.

Vamos para a margem, ó Aodh,
Fiachra e Conn de bela figura.
Sob o céu nenhum outro grupo de cavaleiros pode este ser
Senão o rei Lir com os possantes companheiros de sua casa.”

Eis que, como ela dissera, este rei Lir chegou às margens do lago e escutou os cisnes a falar em vozes humanas. E ele falou aos cisnes e perguntou-lhes quem eram. Fionnuala respondeu e disse: “Somos teus próprios filhos, desgraçados por tua mulher, irmã de nossa própria mãe, por obra de sua mente perversa e seu ciúme.” “Quanto tempo durará esse encanto sobre vós?”, disse Lir. “Ninguém há que nos possa libertar antes que a mulher do sul e o homem do norte encontrem-se, antes que Lairgnen de Connacht case-se dom Deoca de Mumhan.”

De Lir e de seus homens subiram então gritos de tristeza, choro e lamentação e ficaram na margem do lago a escutar a enraivecida música dos cisnes até que estes voaram e o rei Lir foi para o Salão de Bodhbh Dearg, o rei. Disse a Bodhbh Dearg, o rei, o que Aoifa fizera a seus filhos. E Bodhbh Dearg lançou seu poder sobre Aoifa e obrigou-a a dizer qual dentre todas as formas da terra ela pensava fosse a pior. Disse ela que seria a forma de um demônio do ar. “É nessa forma que te colocarei”, falou Bodhbh Dearg, o rei, e golpeou-a com um bastão druídico de encantamentos e magia e colocou-a na forma de um demônio aéreo. E sem demora ela voou e ainda está na forma de um demônio do ar e para sempre assim ficará.

Os filhos de Lir, entretanto, continuaram a encantar as tribos dos mac Miledh [filhos de Mil] com a dulcíssima música mágica de suas canções, de modo que jamais foi ouvido em Ériu êxtase comparável a sua música até a chegada do momento designado para que deixassem Loch Deirgeirt. Fionnuala então cantou esta canção de despedida:

“Adeus a ti, Dearg, o rei,
Mestre de todo o saber dos druidas,
Adeus a ti, nossa pai amado,
Lir de Síd Fionnachaidh.

“O tempo assinalado iremos passar
Longe e distantes das habitações dos homens.
Na correnteza do rio Maoil
Amargas e salgadas serão nossas vestes.

“Até que Deoca una-se a Lairgnen.
Vinde, então, ó irmãos de rostos um dia róseos.
Partamos deste Loch Deirgeirt,
Em tristeza separemo-nos do povo que no passado nos amou.”

E depois começaram a voar, voando alto, suavemente, delicadamente, até atingir o Maoil, entre Ériu e Alba. Os homens de Ériu entristeceram-se com sua partida e proclamou-se em toda a Ériu que a partir de então cisne algum deveria ser morto. Eles ficaram então totalmente solitários, totalmente sozinhos, cheios de frio e de tristeza e pesar até uma pesada tempestade cair sobre eles, quando Fionnuala disse: “Irmãos, escolhamos um lugar para reencontrar-nos se a força dos ventos separar-nos.” E eles disseram: “Combinemos encontrar-nos, ó irmã, na Rocha das Focas.” As ondas levantaram-se então e o trovão rugiu, coruscou o relâmpago, a tempestade violenta passou por cima do mar e assim os filhos de Lir foram separados uns dos outros pelo oceano. Porém, eis que sobreveio uma plácida calma após a grande tempestade e Fionnuala viu-se só e cantou esta canção:

“Ai de mim por eu estar viva!
Geladas estão as asas em meus flancos.
Ó meus três amados, ó três amados,
Que se esconderam sob o abrigo de minhas asas,
Até que os mortos retornem aos vivos
Outra vez não nos encontraremos eu e os três!”

E ela voou para o Lago das Focas e logo viu Conn que vinha em sua direção com asas fatigadas e encharcadas e também Fiachra, frio e molhado e abatido e não conseguiam dizer uma só palavra, tão enregelados e fatigados estavam, porém aninharam-se sob as asas dela e disseram: “Se Aodh pudesse vir até nós, completa ficaria nossa felicidade.” Logo, entretanto, viram Aodh vindo em sua direção com sua cabeça enxuta e belas plumas: Fionnuala colocou-o sob as penas de seu peito e Fiachra sob sua asa direita e Conn sob a esquerda e entoaram esta canção:

“Maldosa foi conosco nossa madrasta,
Lançou sua magia contra nós,
Mandando-nos pelo mar para o norte
Na forma de cisnes mágicos.

“Nosso banho na beira da praia
É a espuma das ondas salgadas,
Nossa parte no festim da cerveja
É a salmoura do mar de picos azuis.”

erto dia, viram uma cavalgada de corceis puramente brancos que vinha em sua direção e, quando chegaram perto, eram os dois filhos de Bodhbh Dearg, o rei, que estivera a procurá-los para levar-lhes notícias do rei Dearg e de Lir, seu pai. “Eles estão bem”, disseram, “e vivem juntos com felicidade, exceto por não estardes com eles e por não saberem aonde fostes desde o dia em que deixastes Loch Deirgeirt.” “Não estamos felizes”, disse Fionnuala e
cantou esta canção:

“Nesta noite estão felizes os da casa de Lir,
Abundantes sua carne e vinho.
Porém os filhos de Lir – qual sua sorte?
Como lençois temos nossas penas
E como nossa comida e vinho
A alva areia e a salmoura amarga.
O leito de Fiachra e o abrigo de Conn
Sob a capa de minhas asas no Maoil,
Aodh possui o refúgio de meu peito
e lado a lado assim permanecemos.”

Assim, os filhos de Bodhbh Dearg, o rei, foram ao Salão de Lir e contaram ao rei o estado de seus filhos.

Chegou então o tempo de os filhos de Lir cumprirem seu fado e eles voarem seguindo a correnteza do Maoil até a Baía de Erris e lá permaneceram até o momento de seu destino e então voaram até Síd Fionnachaidh e encontraram-no desolado e vazio, com nada além de recintos sem teto tomados de vegetação e enormes moitas de urtigas – casa nenhuma, nenhuma fogueira, habitação alguma. Os quatro juntaram-se e elevaram três altos gritos de lamento e Fionnuala cantou esta canção:

“Oh, ai de mim! É amargura para meu coração
Ver abandonada a residência de meu pai –
Sem galgos, sem matilhas de cães,
Nenhuma mulher, tampouco reis valentes.

“Não há chifres para beber nem taças de madeira,
não há bebida nos salões radiantes.
Oh, ai de mim! Pelo estado desta casa percebo
Que seu senhor, nosso pai, já não vive.

“Muito sofremos nos anos de nosso vagar
Pelos ventos empurrados, enregelados pelo frio;
Ora chegou de nossas dores a maior:
Na casa em que nascemos já não vive homem algum que nos tenha conhecido.”

Assim, os filhos de Lir voaram para Inis na Gluaire [Ilha da Glória] de Brendan, o santo, e estabeleceram-se no Lago dos Pássaros até o santo Pátraic chegar a Ériu e o santo Maolmhaodhóg vir a Inis na Gluaire.

E, na primeira noite que ele chegou à ilha, os filhos de Lir ouviram o som de seu sino tocando para as matinas, de modo que se levantaram e pularam aterrorizados ao ouvi-lo e seus irmãos deixaram Fionnuala sozinha. “Que é isso, irmãos queridos?”, ela disse. “Não sabemos o que é essa voz lúgubre, terrível que ouvimos.” Então Fionnuala recitou estes versos:

“Escutai o sino do clérigo,
Movei vossas asas e elevai
Agradecimentos a Deus por sua chegada,
Sede gratos por escutá-lo.

“Ele vos libertará da dor,
E retirar-vos-á dos rochedos e pedras.
Vós, ó belos filhos de Lir,
Escutai o sino do clérigo.”

E Maolmhaodhóg desceu até a beira da costa e disse-lhes: “Sois os filhos de Lir?” “Certamente somos”, disseram eles. “Graças a Deus!”, disse o santo. “É por vossa causa que vim a esta ilha além de qualquer outra ilha de Ériu. Vinde a terra e confiai em mim.” Assim, eles foram para a terra e ele lhes fez correntes de alva prata brilhante e colocou uma corrente entre Aodh e Fionnuala e uma corrente entre Conn e Fiachra.

Ocorreu nessa época que Lairgnen era o príncipe de Connacht e estava para casar-se com Deoca, filha do rei de Mumhan. Ela ouvira o relato sobre os pássaros e encheu-se de amor e simpatia por eles e disse que não iria casar-se até que tivesse as aves prodigiosas de Inis na Gluaire. Lairgnen mandou buscá-las ao santo Maolmhaodhóg. Mas o santo recusou-se a dá-las e Lairgnen e Deoca foram ambos a Inis na Gluaire. E Lairgnen foi pegar os pássaros que estavam no altar. Porém, tão logo deitou as mãos sobre eles, seus revestimentos de penas caíram e os três filhos de Lir tornaram-se três velhos enrugados e ossudos e Fionnuala, uma velha magra e murcha sem sangue ou carne. Lairgnen assustou-se com isso e deixou o lugar apressadamente, mas Fionnuala cantou esta canção:

“Vem e batiza-nos, ó clérigo,
Limpa-nos de nossas manchas.
Neste dia vejo nossa cova:
Fiachra e Conn, um a cada lado,
E em meu regaço, entre meus dois braços,
Coloca Aodh, meu irmão formoso.”

Após essa canção, os filhos de Lir foram batizados. E morreram e foram enterrados tal como Fionnuala dissera, Fiachra e Conn um a cada lado e Aodh diante de seu rosto. Uma pilha de pedras foi erguida para eles e seus nomes foram escritos em ogham. E esse foi o destino dos filhos de Lir.

Fonte: Joyce, P. W. (1879). Old Celtic Romances; translated from the Gaelic. London: C. Kegan Paul & Co.

Tradução: Bellouesus /|\

Echtra Nerai (A Aventura de Nera)

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Echtra Nerai
A Aventura de Nera

também conhecido como

Táin Bó Aingen
O Ataque às Vacas de Aingen

Uma vez, em Samhain, Ailill e Medb estavam em Ráth Cruachan com todos os de sua casa.  Começaram a preparar a comida. Por sua ordem, dois prisioneiros haviam sido enforcados no dia anterior. Ailill então disse:
–  Aquele que prender uma varinha em volta do pé de qualquer um dos prisioneiros que estão nas forcas ganhará de mim o prêmio que escolher.
Profundos eram a escuridão e o pavor naquela noite, quando demônios sempre costumavam surgir. Os homens, cada um por sua  vez, saíam nessa noite para tentar cumprir o desafio e rapidamente voltavam para dentro da casa.
–  Vou sair agora e ganhar o prêmio que você ofereceu – disse Nera.
– Certamente – falou Ailill -, você vai ganhar esta espada com punho de ouro aqui.
Esse Nera então saiu e se dirigiu aos prisioneiros depois de vestir uma boa couraça. Enlaçou uma varinha flexível em volta do pé de um dos prisioneiros. Por três vezes a varinha saltou. O preso então lhe disse que, a não ser que Nera usasse um pino adequado, ainda que ficasse ali até a manhã do outro dia não conseguiria prender a varinha. Nera então pôs ali um pino adequado.
De sua forca, o prisioneiro falou a Nera:
– Isso é coisa de macho, Nera!
– De macho, com certeza – Nera respondeu.
– Pela verdade de sua coragem, me leve em sua garupa para eu beber  alguma coisa com você. Eu estava com muita sede quando fui enforcado.
– Então pule na minha garupa! – Nera disse. E o defunto subiu nas costas dele. – Para onde devo levar você?
– Para a casa que estiver mais perto de nós – respondeu o prisioneiro.
Assim, eles foram para essa casa. Então viram uma coisa. Um lago de fogo em volta da casa.
– Não tem bebida para nós nesta casa – o prisioneiro falou. – Nunca tem um fogo bom nela. Por isso, vamos para a outra casa, a que está mais perto de nós – acrescentou ele.
Foram então para essa casa e viram um lago de água em volta dela.
– Não entre naquela casa! – o prisioneiro falou. – Nunca tem um banho nem uma tina nem um balde para recolher a água aí à noite depois da hora de deitar. Vamos para a outra casa. Agora – ele disse – nesta casa está minha bebida.
Nera depositou-o no chão. O defunto entrou na casa. Nela havia tinas para se lavarem e se banharem e uma bebida para cada um deles. E também um grande balde para recolher a água no chão da casa. Ele então bebeu um trago de cada uma das bebidas e lançou o último gole de sua boca nos rostos de todas as pessoas que estavam na casa, por isso todas morreram. Disso veio a ideia de que não é bom ter uma tina para se lavar ou tomar banho ou um balde para recolher a água dentro de uma casa depois da hora de dormir.
Logo depois, Nera carregou-o de volta ao lugar de sua execução e voltou a Cruachan. Então ele viu algo. A fortaleza estava queimada diante dele e Nera contemplou uma pilha de cabeças do seu povo, decepadas pelos guerreiros da fortaleza.  Ele então seguiu a multidão para dentro da caverna de Cruachan.
– Tem um homem aqui atrás de nós – disse a Nera o último homem.
– É impossível não ver o rastro – disse a este seu companheiro e cada homem falou essas palavras a seu colega, do último até o primeiro homem.
Eles então alcançaram o síd de Cruachan e nele entraram.  Nesse momento, as cabeças foram exibidas ao rei no síd.
– Que vamos fazer com o homem que veio com vocês? – disse um deles.
– Que ele venha até aqui para que eu possa falar com ele – disse o rei.
Nera aproximou-se deles e o rei lhe disse:
– Por quê você veio com os guerreiros para dentro do síd? – o rei lhe perguntou.
– Apenas segui os seus soldados – Nera respondeu.
– Vá agora para aquela casa – o rei disse. – Ali há uma mulher solteira que vai lhe receber. Diga a ela que fui eu quem lhe mandou e venha todos os dias a esta casa com uma carga de lenha para o fogo.
Nera então fez como lhe tinha sido dito. A mulher o recebeu bem e disse:
– Boas-vindas a você, se foi o rei quem lhe mandou aqui.
– Realmente, foi ele – Nera disse.
Todos os dias, ele costumava ir à fortaleza com uma carga de lenha pra o fogo. Nera sempre via um homem cego a carregar um manco no pescoço saindo da fortaleza diante dele.  Eles andavam até chegarem à beira de um poço na frente da fortaleza.
– Está ali? – perguntava o cego.
– Com certeza está. Vamos embora – respondia o manco.
Nera então perguntou à mulher a esse respeito.
– Por que o cego e o manco vão até o poço?
– Eles vão ver a coroa que está no poço – disse a mulher -, ou seja, o diadema de ouro que o rei usa em sua cabeça. É ali que fica guardado.
– Por que aqueles dois vão lá? – Nera disse.
– Não é difícil dizer – ela falou. – É porque o rei os encarregou de vigiar a coroa.  Um deles foi cegado e o outro, aleijado.
– Venha aqui um pouquinho – disse Nera a sua mulher – para que eu possa lhe contar o que aconteceu comigo.
– O que se passou com você? – perguntou a mulher.
– Fácil de dizer – Nera respondeu. – Quando eu estava vindo para o síd, me pareceu que a fortaleza de Cruachan tinha sido destruída e Ailill e Medb haviam perecido ali com todos os de sua casa.
– Isso certamente não é verdade – falou a mulher -, mas vai acontecer mesmo se você não contar tudo a seus amigos.
– Como posso avisar meu povo? – ele disse.
– Sem dúvida que isso não aconteceu, mas vai acontecer, foi um exército do síd que atacou você – ela contou. – Mas, a não ser que você revele tudo aos seus amigos, isso vai se realizar. – Como posso avisar meu povo? – Nera quis saber.
– Levante-se e vá até eles, todos ainda estão em volta do mesmo caldeirão e o cozido não foi nem tirado do fogo ainda.
A Nera parecia que três dias e três noites haviam se passado desde sua chegada ao síd.
–  Diga-lhes que fiquem atentos na chegada do Samhain, a menos que venham destruir o síd. Pois eu lhes prometo isto: o síd será destruído por Ailill e Medb e a coroa de Briun será por eles levada.
Estas são as três coisas que nele foram encontradas: o manto de  Loegaire em Ard Mhacha, a coroa de Briun em  Connachta e a camisa de Dunlaing em  Laighean, em Cill Dara.
– E como lhes provarei que estive no síd?- disse Nera.
– Leve frutos do verão com você – disse a mulher.
Ele então  levou consigo alho silvestre [Alium ursinum], prímula [Primula vulgaris] e ranúnculo [Ranunculus repens].
– E engravidarei de você – ela disse – e lhe darei um filho.  Envie uma mensagem sua ao síd quando o seu povo vier para destruí-lo, para que você possa levar daqui sua família e suas vacas.
Logo em seguida, Nera partiu para seu povo e encontrou-os em volta do mesmo caldeirão e contou-lhes tudo quanto lhe acontecera. Então lhe  foi dada sua espada e ele ficou com seu povo até o fim do ano. Esse foi o mesmo ano em que  Fergus mac Róich chegou a Aillil e Medb como exilado da terra de  Ulaidh a Cruachan.
– O dia do seu compromisso chegou, Nera – disse-lhe Ailill. – Vá e traga do síd sua família e seu gado para que possamos ir destruí-lo.
Nera então foi a sua mulher no síd e esta lhe deu as boas-vindas.
– Vá à fortaleza agora – ela lhe disse – e leve consigo uma carga de madeira para o fogo. Durante um ano inteiro carreguei esse peso em seu lugar e disse que você estava doente. E também ali está o seu filho.
Assim, ele se dirigiu à fortaleza levando uma carga de madeira em seu pescoço.
– Bem-vindo seja você, recuperado da enfermidade que atravessou! – disse o rei. – Não me agrada que a mulher que se deitou com você o fizesse sem consentimento.
– Sua vontade se cumprirá a esse respeito – disse Nera.
Nera retornou a sua casa.
– Vá agora levar suas vacas! – a mulher lhe disse. – Dei uma das vacas a seu filho imediatamente depois que ele nasceu.
Então Nera partiu com suas vacas naquele dia.
Porém, enquanto ele estava adormecido, a Morrígan tomou a vaca de seu filho e o Castanho [Donn] de Cúailnge cobriu-a no leste de Cúailnge. Ela [a Morrígan]  retornou ao oeste com sua vaca. Cú Chulaind surpreendeu-as ao atravessarem a planície de Muirthemne, pois era uma das gessa de  Cú Chulaind que quaisquer pássaros não pudessem alimentar-se em sua terra a não ser que lhe deixassem algo em troca. Era uma de suas gessa que quaisquer peixes não pudessem estar na baía, a não ser que tivessem sido capturados por ele. Era uma de suas gessa que guerreiros de nenhuma outra tribo pudessem estar em sua terra sem que ele os desafiasse antes do amanhecer, caso tivessem chegado de noite, ou antes do anoitecer, se tivessem chegado de dia.  Toda virgem e toda mulher solteira que houvesse em Ulaidh estavam sob sua guarda até que destinadas a um marido.  Essas eram as gessa de Cú Chulaind.  Cú Chulaind surpreendeu a Morrígan com sua vaca e lhe disse:
– Esta vaca não será levada.
Nera voltou a sua casa com as vacas ao noitecer.
– Está faltando a vaca do meu filho – ele disse.
– Não mereço que você vá e cuide das vacas desse jeito! – respondeu-lhe a mulher.
Então a vaca apareceu.
– Mas é um milagre! De onde saiu essa vaca?
– Com certeza veio de Cúailnge depois de ser servida pelo Castanho de Cúailnge. Mexa-se agora – ela disse – para que o seus soldados não apareçam. Esse exército não pode chegar antes de um ano, no próximo Samhain. Eles devem vir no próximo Samhain, pois é por volta dessa época que os montes encantados de Éire sempre ficam abertos.
Nera retornou a seu povo.
– De onde você está vindo? – Ailill e Medb disseram a Nera. – E onde você esteve desde que nos deixou?
– Estive nas terras encantadas – Nera disse – com grandes tesouros e coisas preciosas, com fartura de comida e vestimentas e de tesouros maravilhosos. Eles virão para massacrar vocês no próximo Samhain, o que aconteceria se eu não lhes avisasse.
– Não há dúvida de que iremos combatê-los – disse Aillil. – Se você tiver qualquer coisa no síd, vá buscar agora.
Assim, Nera partiu no terceiro dia antes do Samhain e trouxe seu gado do síd.  E eis que, ao sair do síd, o bezerro, isto é, o filhote da vaca de Aingene (Aingene era o nome do seu filho), mugiu três vezes. Nesse mesmo momento, Ailill e Fergus estavam jogando fidceall e ouviram um som: o mugido do bezerro na planície. Fergus então disse:
Desagrada-me o bezerro
A mugir na planície de  Cruachan.
O filho do negro touro de  Cúailnge, que se aproxima,
O jovem filho do negro touro de Loch Laig.
Bezerros haverá sem vacas
em Bairche de Cúailnge.
Irá o rei (???)
Em razão deste bezerro de Aingene.
Aingene era o nome do homem e Be Aingeni o nome da mulher e a aparência que este Nera neles observou foi a mesma que Cú Chulaind viu no Táin Bó Regamna.
Então o bezerro e o Chifre Branco [Finnbhennach] encontraram-se na planície de Cruachan. Lutaram durante uma noite e um dia, até que, por fim, o bezerro foi vencido. Então, ao ser vencido o bezerro mugiu.
– Que significa o mugido do bezerro? – Medb perguntou a seu vaqueiro, cujo nome era Buaigle.
– Isso eu sei, paizinho Fergus – Bricriu disse – é a mesma canção que você cantou hoje de manhã.
Ao ouví-lo, Fergus olhou-o de lado e acertou o punho na cabeça de Bricriu , de modo que  as cinco peças do jogo de fidceall que estavam em sua mão encravaram-se na cabeça de Bricriu, o que foi para ele a a causa de um mal duradouro.
– Diga-me, Buaigle, que significa o que o bezerro disse? – inquiriu Medb.
– Não há dúvida – respondeu ele – o bezerro disse que, se o seu pai, isto é, o Castanho de Cúailgne, vier combatê-lo, este não será visto em Ai, mas ele [o bezerro]  será derrotado na planície de Ai e despedaçado por todo lado.
Medb então disse como juramento:
– Juro pelos deuses pelos quais jura minha tribo que não me deitarei nem dormirei em leito forrado com plumas ou grossa lã nem beberei leite gordo nem tratarei meu rosto, não consumirei cerveja rubra ou branca, tampouco provarei alimento antes de ver esses dois batalhando diante de minha face.
Logo depois, os homens de Connachta e o escuro bando dos desterrados entraram no síd e destruíram-no e carregaram o que nele havia. E trouxeram o coroa de Briun. É esse o terceiro dom miraculoso em Éire e o manto de Loegaire em Ard Mhacha e a camisa de Dunlaing em Laighean, em Cill Dara [são os outros dois]. Nera foi deixado com sua família no síd e até agora não saiu, tampouco sairá até o dia do Juízo Final.

Fonte: Egerton MSS, 1782, fo. 71b-73b (British Museum)

Texto original irlandês e versão inglesa aqui.

Tradução portuguesa: Bellouesus /|\

Então você acha que os deuses não mudam?

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Aos 19 anos eu tinha muitas certezas. Acreditava que qualquer descontrole era desprezível, que não sorrir e não chorar eram sinais de força interior. Que todas as coisas eram totalmente brancas ou unicamente pretas, sem nenhum matiz possível. Se Amy Winehouse tivesse morrido quando eu estava com 19 anos, sem dúvida nenhuma isto passaria pela minha cabeça: “Bêbada e viciada, esse fim foi o que ela buscou… e encontrou”.

Aos 19 anos eu acreditava em coisas imutáveis. O supra-sumo da imutabilidade, claro, eram os deuses. Impassíveis, inalteráveis, imunes a qualquer inquietação, desconhecedores de toda ansiedade ou preocupação, a existência dos deuses, pensava eu, era paralela à transitoriedade humana, paralela e sem possibilidade de convergência. Isso eu disse durante anos para mim mesmo e para quem mais quisesse ouvir.

Pois bem, descobri que as coisas não se passam desse modo. Os deuses não são imutáveis. Como cheguei a esse conhecimento? As duas senhoras que estão ali em cima deram-se ao trabalho de me informar. Sem grandes explicações, porém de forma a não deixar dúvidas quanto à essência da mensagem: os deuses não são imutáveis. Elas vieram num sonho do qual me lembro em detalhes, embora quase duas décadas tenham se passado desde então.

Nesse sonho, entrei em uma loja. Era um lugar altamente tecnológico e automatizado, com atendentes robôs em forma de pequenas esferas com braços. Havia uma multidão de fregueses ensandecidos, todos falando ao mesmo tempo – talvez fosse dia de liquidação – e era muito óbvio que os robozinhos não estavam conseguindo suprir a demanda. A confusão era uma coisa lamentável. Naquele momento, pensei algo como: “Que lástima, tanto tecnologia e os velhos problemas de sempre”.

Atravessei a loja até o fundo e encontrei ali, meio escondida entre prateleiras e mostradores, uma porta de madeira que abri. Era totalmente outro mundo o que essa passagem escondia. Em muitos sentidos, um mundo bem mais familiar.

Uma cidade meio arruinada, com ruas calçadas de pedra, colunas quebradas, deserta exceto pelas sombras do próprio passado. Andei durante algum tempo, reconheci dos livros a paisagem e, com a lógica própria dos sonhos, somente achei um pouco estranho que Pompeia, a cidade sepultada pelo Vesúvio no ano 79 E. C., estivesse no quintal de um shopping center.

Havia um banco de pedra junto a uma parede com um larário bem conservado e uma fonte. Pela posição do sol, já era o meio da tarde de um dia bastante quente. Sentei para descansar e pensei em procurar uma taberna. “Será que eles têm uma Coca bem gelada? Claro que sim. Isso tem em toda parte. Como se pede Coca-Cola em latim? Cocam habesne?” A lógica dos sonhos.

Enquanto devaneava sobre a possibilidade de encontrar o máximo símbolo do capitalismo em uma cidade romana de 2.000 anos, escutei o som de pessoas se aproximando. Vinham pela rua duas mulheres fazendo cooper. Uma delas, a mais velha, loira e robusta, com uma coroa de espigas de trigo na cabeça, uma camiseta branca com uma serpente estampada, calça de moleton e tênis. A outra, uma moça de cabelo escuro, bonita mas de rosto fino e pálido, a cabeça enfeitada com papoulas, uma romã aberta na camiseta preta e uma bermuda de lycra da mesma cor. Reconheci ambas intuitivamente: Deméter e Perséfone. Decepcionado com a situação e com o figurino (acho que mais com o figurino), virei o rosto para o lado e afetei não ter visto nada. Um jornal apareceu nas minhas mãos e fingi que estava lendo.

Quem já passou por um terremoto sabe o quanto é surpreendente a sensação do tremor. Estamos acostumados a ter a terra sob nossos pés, sempre quieta e estável. Quando a terra se mexe e se abre, é como se a ordem da natureza se rompesse da forma mais absurda. A voz das deusas era assim, como um terremoto. Um tremor desde a primeira sílaba, um cataclisma no meio da frase, a conflagração total dos elementos no ponto final. “Ge:s paî kaì ouránou aste:roentos” (“ó filho da terra e do céu estrelado”), ela chamou. No final da primeira palavra, eu já estava encolhido no chão com o jornal na cabeça. Tive a ousadia de olhar e vi que as duas fundiam-se em uma só, dando razão aos antigos que afirmavam serem Deméter e Perséfone a mesma divindade. Dizer como era esse rosto está além da minha capacidade.

“Então você acha que os deuses não mudam?”, ela me perguntou diretamente. Tomado de pavor e quase engolindo minha língua, eu não conseguia fazer nada além de tentar enterrar a cabeça no chão. “VOCÊ ACHA?”, ela insistiu. “Não, senhora”, eu disse, já imaginando qual seria meu lugar no Hades. Ela riu um riso de tsunami, uma risada de vento e onda, pegou a serpente da camiseta e lançou contra mim.

Apenas duas vezes em minha vida acordei gritando. Essa foi a primeira. Deméter/Perséfone não me deu nenhuma grande explicação teórica, nenhum arrazoado que possa ser colocado em palavras e transformado em tese. Ela me proporcionou uma epifania e deu a entender que os deuses mudam e por algum motivo é importante não pensar o contrário.

É um erro fazer afirmações categóricas sobre os deuses e pretender que se encaixem em nossas teorias. É um erro colocar a vida dentro de um modelo pré-concebido. Se a vida for maior do que o modelo, o que você vai fazer? Cortar partes dela para que o resto caiba na caixa?

Quando Amy Winehouse morreu, eu pensei: “Que pena. Era talentosa, mesmo com tantos problemas. Vai ficar pra outra vez.”

Bellouesus /|\

Ervas da Medicina Gaulesa

ervasO que resta da medicina praticada pelos gauleses? Esparsos em obras de escritores da Antiguidade, surgem registros discretos da originalidade da ciência médica praticada na Gália e, em alguns raros casos, até mesmo os nomes dos médicos. Os gauleses assimilaram a medicina greco-romana e tornaram-se notáveis nas artes da cura nas partes ocidentais do Império, tendo A. Cornelius Celsus louvado, por exemplo, sua engenhosidade no tratamento de moléstias oculares (De Re Medica, VII, 15).

Muito interessantes são também as lembranças da medicina popular dos celtas em autores romanos do séc. I até as portas da Idade Média, que conservaram os nomes de diversas ervas, sem dúvida de uso tradicional, bem como suas indicações terapêuticas. É desses escritores, dentre os quais selecionei Plínio, Dioscórides, o pseudo-Apuleio e Marcelo de Bordeaux, que provém a lista abaixo.

Os nomes gauleses das plantas aparecem na forma como foram registrados pelos autores clássicos. Essas não são as únicas ervas, porém aquelas cuja identificação é mais provável.

Obras consultadas:

1 Gaius Plinius Secundus, Historia Naturalis
2 Pedanius Dioscorides, De Materia Medica
3 Pseudo-Apuleius, De Herbarum Virtutibus
4 Marcellus Empiricus (Marcellus Burdigalensis), De Medicamentis

Korna, a agrimônia (Agrimonia eupatoria), Dioscorides, II, 77. Indicada para: antiinflamatória.

Bricumum, o absinto (Artemisia absinthium L.); artemisia herba est quam Gallice bricumum appellant (Marcellus, XXVI, 41). Indicada para: emenagoga (induz o aborto).

Betilolen, a bardana (Arctium lappa L.); a Graecis dicitur prosopis […] Itali personacia, Galli betilolen, Daci riborasta (Pseudo-Apuleius, 36). Indicada para: para o tratamento de doenças de pele.

Oualoida, a camomila (Matricaria recutita); a Graecis dichtur caméléon […] Itali beneolentem, alii superbam… Galli oualoida, Campani amolocia, Tusci abiana, Daci amolusta (Pseudo-Apuleius, 23). Indicada para: utilizada em colírios.

Exacum, centáurea pequena (Centaurium erythraea Rafn); hoc centaurium nostri fel terrae vocant propter amaritudinem summam, Galli exacum, quoniam omnia mala medicamenta potum e corpore exigat per alvum (Plinius, XXV, 26). Indicada para: contra congestão hepática (tônico amargo).

Thona, a celidônia grande (Chelidonium majus), mencionada por Dioscorides, IV, 99. Indicada para: o suco trata feridas e dores de dente.

Berula, o agrião (Nasturtium officinale), mencionado por Marcellus, XXXVI, 51. Indicada para: em cataplasmas contra a inflamação da gota (tipo de artrite causado por hiperuricemia, a elevação dos níveis de ácido úrico no sangue e no líquido sinovial).

Belenion (o nome tem outras variantes), o meimendro negro (Hyoscyamus niger L.); Dioscorides, IV, 68, fornece também o nome dácio. Indicada para: sua toxicidade pode explicar os efeitos psicotrópicos.

Souiuitis, a hera (Hedera helix L.), Dioscorides, II, 179. Indicada para: remédio para todos os males.

Beliokandos, cuja identificação é pouco segura, é citado por Dioscorides, IV, 114; talvez seja a aquileia ou milefólio (Achillea millefolium). Indicada para: antiinflamatória.

Mulicandos, talvez a  mesma planta que beliokandos; a Graecis dicitur miriofillon, Galli mulicandos, alii uigentia, Daci diodela, Itali millefolium (Pseudo-Apuleius, 89). Indicada para: antiinflamatória.

Baditis, o nenúfar branco (Nymphaea alba); graece nymphaea, Latine claua Herculis, Gallice baditis (Marcellus, XXXIII, 63). Indicada para: garantidora da castidade, analgésica e emenagoga.

Rodarum, que talvez seja a ulmeira (Filipendula ulmaria); herba quam Galli rodarum uocant (Plinius, XXIV, 147). Indicada para: aplicada externamente sobre as úlceras e tumores.

Visumarus, o trevo (Trifolium repens L., o trevo branco, que é o mais comum); trifolium herbam, quae Gallice dicitur uisumarus (Marcellus, III, 9). Indicada para: o suco, usado como cicatrizante; a planta inteira, contra tonturas.

Calliomarcus (em gaulês, callion, “testículo”, markos, “cavalo”), a tussilagem (Tussilago farfara); herba quam Gallice calliomarcus, Latine equi ungula (Marcellus, XVI, 101). Indicada para: em fumigações para acalmar irritações da garganta.

Vela, o erísimo (Sisymbrium officinale); irionem inter fruges sesamae similem esse diximus et a Graecis erysimon uocari. Galli uelam appellant (Plinius, XXII, 158). Indicada para: contra a afonia e perda da voz, cicatrizante.

Odocos, o sabugueiro-anão (Sambucus ebulus); herba quae Graece acte, Latine ebulum, Gallice odocos dicitur (Marcellus, VII, 13, e Pseudo-Apuleius, 92). Indicada para: contra mordidas de animais venenosos.

Gigarus, a bistorta (Bistorta officinalis); polypum emendat herba Proserpinalis, quae Graece draconteum, Gallice gigarus appellatur (Marcellus, XI, 10). Indicada para: contra mordidas de animais venenosos.

Usuben, o trovisco (Daphne laureola L.) ou a gilbarbeira (Ruscus aculeatus L.); Dioscorides, IV, 147. A forma é  usubem em Pseudo-Apsuleius, 28: a graecis dicitur dafnitis, […] Itali mustelago, […] Galli usuben. Indicada para: diurética e emenagoga.

Titumen, talvez um tipo de artemísia; a Graecis dicitur toxotis, […] alii toxobulus, Galli titumen, […] Daci zired, […] Romani artemisia (Pseudo-Apuleius, 18). Indicada para: contra dores intestinais e dos pés.

Bellouesus /|\

Kat Godeu (“A Batalha das Árvores”)

Taliesin (“Livro de Taliesin”, 8)kat

Estas são as estrofes que foram cantadas na “Batalha das Árvores”, ou, como outros a chamam, a “Batalha de Achren”, que foi por causa de uma corça branca e de um cachorro; e eles vieram do Inferno e Amaethon ap Don os trouxe. E, portanto, Amaethon ap Don e Arawn, Rei de Annwn, lutaram. E havia um homem nessa batalha: a menos que seu nome fosse conhecido, ele não poderia ser vencido. E e havia uma mulher chamada Achren no outro lado e, a menos que seu nome fosse descoberto, seu exército não poderia ser vencido. E Gwydion adivinhou o nome do homem e cantou as duas estrofes seguintes:

De cascos firmes é meu corcel impelido pelas esporas;
Os altos galhos do amieiro estão em teu escudo;
Bran és chamado, dos ramos brilhantes.

E assim:

De cascos firmes é meu corcel no dia da batalha:
os altos ramos do amieiro estão em tua mão:
Bran, pelo ramo que carregas,
Amaethon, o bom, prevaleceu.

Numa multiplicidade de formas estive
Antes de assumir aspecto consistente.
Uma espada fui, estreita, matizada:
Acreditarei quando for manifesto.
Uma lágrima fui no ar,
Fui a mais sombria das estrelas.
Uma palavra fui entre letras,
Fui um livro na origem.
Dos faróis fui a luz
Um ano e meio.
Fui uma ponte que se prolonga
Sobre três vintenas de fozes.
Fui um percurso, uma águia fui.
Um barco fui nos mares.
Fui um complacente no banquete.
Uma gota fui num aguaceiro.
Fui uma espada no aperto da mão,
Um escudo fui em batalha.
Fui uma corda numa harpa,
Disfarçado por nove anos
Na água, na espuma.
Fui uma esponja no fogo,
Fui madeira na moita.
Não sou aquele que não cantará
Um combate, embora pequeno.
O conflito na batalha das árvores dos ramos.
Contra o Guledig de Prydein
Passaram ali cavalos principais,
Esquadras cheias de riquezas.
Ali passou um animal com grandes mandíbulas,
Nele havia uma centena de cabeças.
E uma batalha foi lutada
Sob a raiz de sua língua
E há uma outra batalha
No orifício de seu olho.
Um negro sapo desajeitado
Com uma centena de garras.
Uma cobra salpicada com crista.
Por causa do pecado, uma centena de almas
Atormentada será em sua carne.
Estive em Caer Fefenir,
De lá se apressaram pastos e árvores.
Menestréis cantavam,
Bandos de guerreiros perambulavam
Na exaltação dos britanos
Que Gwydyon realizara.
Havia um apelo ao Criador,
A Cristo por interesses,
Até o momento em que o Eterno
Libertasse aqueles a quem fizera.
O Senhor respondeu-lhes
Pela linguagem e elementos:
Tomai a forma das árvores principais,
Arranjai-vos em ordem de batalha
E refreai o público
Inexperiente na batalha mão a mão.
Quando as árvores foram encantadas,
Na expectativa de não serem árvores,
As árvores sussurraram suas vozes
De cordas de harmonia,
As disputas cessaram.
Interrompamos dias tristes,
Uma mulher refreou a grande desordem.
Ela chegou totalmente encantadora.
O cabeça da fileira, o cabeça era uma mulher.
A vantagem de uma vaca insone
Não nos faria ceder o caminho.
O sangue dos homens até nossas coxas,
Os maiores dos esforços mentais importunos
Realizados no mundo.
E acabou-se
Por refletir sobre o dilúvio
E sobre o Cristo crucificado
E sobre o dia do julgamento iminente
Os Amieiros, cabeça da fileira,
Formaram a vanguarda.
Os Salgueiros e Sorveiras
Chegaram tarde para o exército.
Ameixeiras, que são raras,
Indesejadas pelos homens,
As esmeradas Nespereiras,
Verdadeiros objetos de disputas.
Os espinhentos arbustos de Rosas
Contra uma multidão de gigantes.
A Framboesa refreou,
O que é melhor falhou
Para a segurança da vida.
A Alfena e a Madressilva
E a Hera na sua frente.
Como o Tojo, para o combate
A Cerejeira foi provocada.
A Bétula, apesar de sua mente elevada,
Atrasou-se antes que ele fosse enfileirado.
Não por causa de sua covardia,
Mas por causa de sua grandeza.
O Liburno tinha em mente
Que tua natureza selvagem era estranha.
Pinheiros no pórtico,
A sede da controvérsia,
Por mim grandemente exaltados
Na presença dos reis,
Os Olmos, com seu cortejo,
Não se afastavam um pé.
Ele lutaria com o centro
E com os flancos e a retaguarda.
Aveleiras, julgou-se
Que amplo era vosso empenho mental.
A Alfena, feliz a sua parte,
O touro da batalha, o senhor do mundo,
Morawg e Morydd
Tornaram-se prósperos em Pinheiros.
Azevinho, ele estava matizado de verde,
Ele era o herói.
O Espinheiro, cercado de ferrões,
Com a dor em sua mão.
O Álamo foi coberto,
Ele foi coberto na batalha.
A Samambaia, que foi saqueada,
A Giesta, na vanguarda do exército, nas trincheiras foi ela ferida.
O Tojo não se saiu bem,
Porém o deixou estendido.
A Urze foi vitoriosa, afastando em todos os lados.
O povo comum ficou encantado
Durante o tempo originando-se dos homens.
O Carvalho, movendo-se rapidamente,
Diante dele estremecem céu e terra.
Um valente porteiro contra um inimigo
Seu nome é considerado.
As Campânulas Azuis combinaram-se
E provocaram uma consternação.
Ao rejeitar, foram rejeitadas
Outras, que foram perfuradas.
As Pereiras, as melhores invasoras
Em tempo de conflito na planície.
Uma lenha muito colérica,
O Castanheiro é acanhado,
O opositor da felicidade.
O jato tornou-se negro,
A montanha tornou-se curvada,
As florestas tornaram-se um forno
Existente outrora nos grandes mares
Desde que foi ouvido o grito:
Os cimos da Bétula cobriram-nos com folhas
E transformaram-nos e mudaram nosso estado enfraquecido.
Os ramos do carvalho apanharam-nos numa armadilha
Do Gwarchan de Maelderw.
Rindo no lado do rochedo,
O senhor não é de uma natureza ardente.
Não de mãe, nem de pai,
Quando eu fui feito
Criou-me o meu Criador
De poderes nove vezes formados,
Do fruto dos frutos,
Do fruto do deus primordial,
De prímulas e florações da colina,
Das flores de árvores e arbustos.
Da terra, de uma trajetória terrena,
Quando eu fui formado
Da giesta e da urtiga,
Da água da nona onda.
Fui encantado por Math
Antes de me tornar imortal,
Fui encantado por Gwydion,
O grande purificador dos britanos,
De Eurwys, de Euron,
De Euron, de Modron,
De cinco vezes cinqüenta homens de ciência,
Mestres, filhos de Math.
Quando a remoção ocorreu,
Eu fui encantado pelo Guledig.
Quando ele estava meio queimado,
Fui encantado pelo sábio
Dos sábios, no mundo primitivo.
Quando tive um ser,
Quando a multidão do mundo estava em dignidade,
O bardo ficou acostumado aos benefícios.
À canção de louvor estou inclinado, que a língua recita.
Eu toquei no poente,
Dormi em púrpura.
Verdadeiramente estava no encantamento
Com Dylan, o filho da onda.
Na circunferência, no meio,
Entre os joelhos de reis,
Dispersando lanças não afiadas
Do firmamento quando vieram
À grande profundeza, dilúvios.
Na batalha haverá
Quatro vintenas de centenas
Que dividirão de acordo com sua vontade.
Eles não são mais velhos nem mais jovens
Do que eu mesmo em suas divisões.
Um milagre, Canhwr nasceu, cada um de novecentos.
Ele estava comigo também,
Com minha espada manchada de sangue.
Foi-me atribuída honra
Pelo Senhor e a proteção estava onde ele estava.
Se eu for aonde o javali foi morto,
Ele comporá, ele se decomporá,
Ele formará linguagens.
O radiante de mão forte, seu nome,
Com um raio ele governa seus números.
Eles se espalhariam numa chama
Quando eu tivesse de ascender.
Fui uma cobra malhada na colina,
Fui uma víbora no Llyn.
Fui um bico encurvado cortante,
Fui uma lança furiosa.
Com minha casula e tigela,
Profetizarei não erroneamente
Quatro vintenas de fumigações
Sobre cada um o que trarão.
Cinco batalhões de braços
Serão apanhados por minha faca.
Seis corcéis de matiz amarelado,
Uma centena de vezes melhor é
Meu corcel amarelo claro,
Rápido como a gaivota marinha,
A qual não passará
Entre o mar e a margem.
Não sou eu proeminente no campo do sangue?
Sobre ele está uma centena de capitães.
Carmim a pedra do meu cinto,
De ouro é a borda do meu escudo.
Não houve ninguém nascido na brecha
Que tenha estado a visitar-me,
Exceto Goronwy
Dos vales de Edrywy.
Compridos e brancos os meus dedos,
Faz muito tempo que fui um pastor.
Viajei na terra
Antes que eu fosse versado no conhecimento.
Viajei, fiz um circuito,
Dormi numa centena de ilhas,
Numa centena de fortalezas habitei.
Vós, inteligentes Druidas,
Declarai a Arthur
O que há mais antigo
Do que eu para eles cantarem.
E um veio
Da reflexão sobre o dilúvio
E do Cristo crucificado
E do dia do julgamento futuro.
Uma gema dourada numa jóia dourada.
Sou esplêndido
E ficarei livre
Da opressão dos ferreiros.

Tradução: Bellouesus /|\

O “sacrificium” não-sangrento nos “Commentarii in Virgilii Aeneidos” de Maurus Seruius Honoratus

com

Sacrificium é qualquer dádiva oferecida voluntariamente a uma deidade e o oferente, por meio dessa dádiva, reconhece sua dependência e espera tornar propício o deus. Nos Commentarii in Virgilii Aeneidos, Seruius define sacrificare como ueniam petere (solicitar um favor, obséquio, graça). “Alcançar o propósito relacionado à oferenda” diz-se litare em latim: litare é sacrificiis deos placare (apaziguar os deuses com sacrifícios) ou propitiare et uotum impetrare (propiciar e fazer uma promessa solene) (IV, 50; II, 19).

Seruius (cognominado Grammaticus) não é muito loquaz a respeito de sacrifícios não-sangrentos, porém traz informações sem dúvida interessantes. Assim, por exemplo, o autor menciona que bolos de farinha (adolea liba, bolos de espelta ou trigo-vermelho), mel e óleo são oferendas sacrificiais adequadas (VII, 109), acrescentando que as divindades, quando fosse difícil obter o animal adequado para o sacrifício, ficariam satisfeitas com uma imitação feita de pão ou de cera (simulata pro ueris accipiuntur; II, 116). Seruius também informa – invocando a autoridade de Varro – que na ilha de Delos havia altares de Apollo onde vítimas jamais eram imoladas, sendo o deus adorado somente por meio de orações. Tampouco a deusa do Amor e da Beleza exigia sacrifícios sangrentos. De acordo com I, 335, os sacrifícios a Venus Paphia, adorada em Chipre, consistiam em franquincenso e flores (Paphiae Veneri quae Cypri colitur, ture tantum sacrificatur et floribus).

Quanto às libationes (libações, o ato ritual de verter água, vinho, leite, sangue ou outro líquido apropriado como oferenda a um deus, espírito ou em memória dos mortos, chamadas loibaí ou spondaí em grego), Seruius conta que os romanos de épocas mais antigas adornavam as taças com coroas de flores (I, 724) e costumavam deixar esses recipentes em mesas especiais, geralmente redondas, chamadas mensae paniceae (I, 736; VII, 111; III, 257). As libationes podiam, isoladamente, ser consideradas como sacrifícios não sangrentos e eram realizadas em várias ocasiões, como nas refeições diárias, nos sacrifícios de purificação ou nos sacrifícios expiatórios, feitos por ocasião do repasto funeral entre os familiares do morto.

Bellouesus /|\