O Nascimento de Cúchulainn

Segunda versão. Fonte: Manuscrito Egerton 1782 (c. 1517), texto do séc. XV editado pela Irish Texts Society

Dechtire, a irmã do Rei Conchobur de Ulaid, juntamente com cinquenta outras donzelas, deu uma escapada sem o conhecimentos dos Ultu e de Conchobur. Nenhum rastro ou traço foi deixado e os Ultu estiveram procurando-as pelo espaço de três anos.

Dechtire e suas donzelas de companhia foram, na forma de um bando de pássaros, à planície perto de Emain Macha e destruíram a vegetação, de forma que no chão não deixaram nem mesmo a raiz da grama. Isso foi causa de grande exasperação para os Ultu. Eles, por esse motivo, equiparam nove carruagens para caçar os pássaros, pois a caça às aves era um costume seu. Entre os caçadores estavam Conchobur e Fergus mac Roig e Amergin e Blai Briuga e Bricriu.

Os pássaros iam à frente deles para o sul, atravessando Sliab Fuait, sobre o vau do Lethan e o vau do Garach e sobre a planície de Gossa, entre os homens de Ross e os homens de Arda. Então a noite caiu sobre eles e o bando de pássaros escapou, de modo que eles tiraram os arreios de suas carruagens. Fergus foi procurar um alojamento e chegou a uma casinha nova, onde ele encontrou um casal. Este lhe deu as boas-vindas e ofereceu-lhe comida, mas ele não lhe aceitaria a hospitalidade porque seus companheiros ainda estavam ao relento, sem abrigo.

“Vem tu com teus companheiros para a casa e boas-vindas a todos vós”, disseram eles. Em seguida, Fergus foi a seus companheiros e trouxe-os a todos para dentro, homens e cavalos, de forma que estavam todos eles dentro da casa (que subitamente se havia tornado grande e esplêndida).

Então Bricriu saiu e ouviu o Cnú Deroíl. Ele ouviu o som da melancólica música encantada, mas não sabia o que isso significava. Ele prosseguiu em direção ao som até chegar a uma grande e bela casa enfeitada. Aproximou-se da porta e, ao olhar para dentro, viu o senhor da casa.

“Entra, ó Bricriu”, disse ele, “porque ficas aí fora?”

“Bem-vindo com certeza”, disse uma mulher que estava em pé ao lado do senhor da casa.

Bricriu contemplou o belo guerreiro de aparência nobre e perguntou: “Porque a mulher também nos dá as boas-vindas?”

“É por causa dela que te dou as boas-vindas”, disse o homem. “Falta- te alguém em Emain?”

“Falta-me, sem dúvida”, respondeu Bricriu. “Cinquenta donzelas perderam-se para nós pelo espaço de três anos.”

“Tu as reconhecerias se as visses?”, perguntou o homem.

“Poderia não as reconhecer”, disse Bricriu. “O lapso de três anos ou a enfermidade por três anos poderiam talvez provocar ignorância ou falta de reconhecimento da minha parte.”

“Mesmo assim, tenta reconhecê-las”, disse o homem. “Estão aqui na casa as cinquenta donzelas que procuras e a principal dentre elas é esta que está ao meu lado. Dechtire é seu nome e foram elas que, na forma de um bando de pássaros, foram a Emain Macha com o fito de induzir os homens do Ulaid a virem até aqui.”

A mulher deu um manto púrpura bordado a Bricriu e, depois disso, ele voltou a seus companheiros. Enquanto fazia o caminho de volta, Bricriu pensava consigo mesmo o seguinte: “Essas cinquenta donzelas que estão faltando a Conchobur, encontrá-las seria como lisonjeá-lo. Dele ocultarei, por isso, que encontrei sua irmã com as acompanhantes. Direi apenas que encontrei uma casa e dentro um grupo de adoráveis mulheres.”

Quando Bricriu chegou, Conchobur perguntou-lhe quais eram as novidades.

“Que há para ti?”, perguntou Bricriu. “Cheguei a uma casa magnífica. Lá dentro, vi uma rainha nobre e radiante, gentil e adorável, um grupo de belas e puras mulheres, uma família generosa e brilhante.”

“Volta a essa casa”, ordenou Conchobur. “O mestre dessa casa é um súdito meu, pois é na minha terra que ele mora. Que a sua mulher venha e durma comigo esta noite.”

“Não se encontrou ninguém para ir nessa missão, senão Fergus. Ele foi e falou sua mensagem e recebeu as boas-vindas e a mulher veio com ele. Ela se queixou a Fergus que estava sentindo as dores do parto. Então Fergus disse a Conchobur que um adiamento lhe deveria ser concedido. Em seguida os companheiros deitaram-se um ao lado do outro e dormiram. Pela manhã, quando se levantaram, viram um menininho nas dobras do manto de Conchobur.

“Pega a criança para ti”, disse Conchobur a Finnchoem, sua irmã. Quando Finnchoem olhou o menininho ao lado de Conchobar, ela disse: “Meu coração ama tanto esse menino que é como se ele fosse o meu próprio filho, Conall.”

“Sem dúvida, há pouca diferença entre eles”, disse Bricriu. “Essa criança é o filho de tua própria irmã, Dechtire. Foi ela que, com suas cinqüenta acompanhantes, esteve ausente de Emain por três anos e agora está aqui.”

O misterioso estranho que estava com Dechtire era Lugh Lamhfhada, das Túatha Dé Dánann. A criancinha foi chamada Setanta até matar o galgo de Culann, o ferreiro, depois do que ficou conhecido como Cúchulainn.

Tradução: Bellouesus /|\

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