Arquivo mensal: fevereiro 2013

Cerridwen

clip2-116O nome da bem conhecida deusa galesa (também chamada Ceridwen e Caridwen, Kyrridven em galês medieval) que surge na Ystoria Taliesin tem várias possíveis etimologias:

 caru – amar

 cerdd – poema

caer – fortaleza

cerri – caldeirão

A terminação feminina -wen significa, literalmente, “branco”, porém, em nomes de divindades, o sentido é “sagrado”. Desse modo, e considerando a associação de Cerridwen com a inspiração (awen), uma possível tradução de seu nome é “Poema (ou Canto) Sagrado”.

Uma outra importante palavra vem de cerdd: é cerddor “cantor (ou músico)” que é cerddorion no plural.

Bellouesus /|\

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As Instruções de Cormac

Tecosca Cormaic
As Instruções de Cormac

do
Leabhar Bhaile an Mhóta
Livro de Ballymote
(RIA MS 23 P 12, 275 foll.)

Ethne deu a Cormac um filho, seu primogênito, Cairpre, que foi rei de Ériu depois de Cormac. Foi durante a vida de Cormac que Cairpre subiu ao trono, pois ocorreu que, antes de morrer, Cormac foi ferido por uma lança e perdeu um dos olhos e era proibido que qualquer homem com um defeito fosse rei em Ériu. Assim, Cormac entregou o reino nas mãos de Cairpre, mas, antes de fazê-lo, transmitiu a seu filho toda a sabedoria que possuía no governo dos homens e isso foi anotado em um livro chamado As Instruções de Cormac. Estas palavras encontram-se entre seus ensinamentos:

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais são os deveres de um chefe numa taverna?
– Não é difícil dizer – disse Cormac.
– Bom comportamento em volta de um bom chefe,
Luzes para as lamparinas,
Esforçar-se pelo grupo,
Distribuição adequada de assentos,
Generosidade dos distribuidores,
Mão ágil ao servir,
Atendimento solícito,
Música com moderação,
Narrativas curtas,
Semblante jovial,
Amável saudação aos convidados,
Durante récitas, quietude,
Cantorias harmoniosas.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais teus costumes quando eras um rapaz?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Eu escutava nas florestas,
Fitavas as estrelas,
Era cego a respeito de segredos,
Silencioso nos ermos,
Palrador no meio da multidão.
Moderado no salão de festas,
Duro no combate,
Cortês para com os aliados,
Um médico para o enfermo,
Fraco para com o débil,
Forte para com o poderoso,
Não era íntimo para não me tornar inconveniente,
Não era arrogante, embora fosse instruído,
Conquanto capaz, não era dado a prometer,
Não era temerário, embora fosse rápido,
Conquanto fosse jovem, não zombava dos velhos,
Não era jactancioso, embora fosse bom lutador,
Não falaria de alguém em sua ausência,
A vituperar eu preferia exaltar,
A pedir eu preferia dar,
Pois é com tais costumes que os jovens tornam-se maduros e nobres guerreiros.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a pior coisa que tens visto?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – as faces de inimigos no tumulto da batalha.
– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a mais doce coisa que tens ouvido?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – o grito de triunfo depois da vitória, louvor depois dos esforços, o convite de uma dama para seu leito.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, que é o pior para o corpo de um homem?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – sentar-se por muito tempo, ficar muito tempo deitado, esforçar-se além das próprias forças, correr demais, saltar demais, cair muitas vezes, dormir com a perna por cima da grade da cama, olhar brasas acesas fixamente, cera, colostro de vaca, cerveja nova, carne de touro, comida azeda, comida seca, água do brejo, levantar-se muito cedo, frio, sol, fome, beber demais, comer demais, dormir demais, pecar demais, tristeza, subir uma elevação correndo, gritar contra o vento, secar-se ao fogo, o orvalho do verão, o orvalho do inverno, remexer cinzas, nadar de barriga cheia, dormir de barriga para cima, fazer brincadeiras idiotas.

– Ó Cormac, filho de Conn – disse Cairpre – quais são o pior pedido e a pior argumentação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Combater contra o conhecimento,
Argumentar sem provas,
Escudar-se em linguagem imprópria,
Uma elocução tensa,
Falar resmungando,
Excesso de minúcias,
Provas duvidosas,
Desprezo aos livros,
Voltar-se contra os costumes,
Mudar o pedido,
Instigar a ralé,
Soprar a própria corneta,
Berrar a todo pulmão.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairpre -, quem são os piores com quem podes fazer uma comparação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Um homem com o descaramento de um satirista,
Com a belicosidade de uma escrava,
Com a negligência de um cão,
Com a consciência de um patife,
Com a mão de um ladrão,
Com a força de um touro,
Com a respeitabilidade de um juiz,
Com saber engenhoso e perspicaz,
Com o discurso de um homem majestoso,
Com a memória de um historiador,
Com o comportamento de um abade,
Com o juramento de um ladrão de cavalos,
E sendo inteligente, mentiroso, grisalho, violento, blasfemo, falastrão, quando diz: “a questão está decidida, eu juro, jurarás também.”

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre – desejo saber como devo comportar-me entre os sábios e tolos, em meio aos amigos e estranhos, entre os jovens e os velhos, em meio aos inocentes e perversos.
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Não sejas muito douto, não sejas muito néscio,
Não sejas muito presunçoso, não sejas muito acanhado,
Não sejas muito orgulhoso, não sejas muito humilde,
Não sejas muito falador, não sejas muito silencioso,
Não sejas muito rígido, não sejas muito débil.
Se fores muito douto, esperar-se-á muito de ti.
Se fores muito néscio, serás enganado.
Se fores muito orgulhoso, acreditar-te-ão molesto.
Se fores muito humilde, serás sem honra.
Se fores muito falador, não te darão atenção.
Se fores muito silencioso, não serás estimado.
Se fores muito rígido, serás quebrado.
Se fores muito débil, serás esmagado.

[Aqui terminam as Instruções de Cormac Ulfada, filho de Art, filho de Conn Cétchathach, filho de Óenlám Gaba, filho de Tuathal Techtmar, filho de Feradach Findfechtnach, filho de Crimthann Nia Nár, filho de Lugaid Riab nDerg, filho de Bres, Nár and Lothar, filhos de Eochaid Feidlech, filho de Find, Grande Rei de Ériu, que o filho de Art deu a seu primogênito, Cairpre Lifechair.]

Tradução: Bellouesus /|\

 

O Testamento de Morann

Audacht Morainn
O Testamento de Morann

do
Lebhar Laighneach (Livro de Leinster)
antigamente conhecido como
Lebar na Núachongbála (Livro de Nuachongbáil)

Aqui começa o testamento de Morann mac Máin a Feradach Find Fechtnach mac Crimthan Nia Náir. Ele era o filho da filha de Loth mac Derelath dos pictos [Baine]. Sua mãe levou-o em seu ventre depois que as tribos vassalas haviam destruído os nobres de Ériu, exceto Feradach no ventre de sua mãe. Depois disso, ele retornou com exércitos e Morann enviou-lhe este testamento.

Ergue-te, avança,
Ó meu Neire habituado a apregoar:
A virtude da obediência te faz conhecido.
Zelosa a jornada que empreendes:
Proclama, aumenta a verdade.
Justas e duradouras,
Minhas palavras antes de minha morte
Trazem-lhe a virtude da retidão
Que cada soberano deve ter.
Se passares por qualquer outro rei,
Peso-as para a proteção de minha família.

Se fores a um rei,
Corre para Feradach
Find Fechtnach.
Bom, vigoroso,
Governará por longo tempo
No assento da plena soberania.
Expulsará muitas tribos
De ladrões para o mar.
Ampliará sua herança,
Cheio de bravura.
Que ele guarde meu conselho que se segue.
Dize-lhe antes de qualquer outra palavra,
Apresenta-lhe com cada fala esta perene justiça.

Que ele preserva a verdade, ela o preservará.
Que ele engrandeça a verdade, ela o engrandecerá.
Que ele exalte a clemência, ela o exaltará.
Que ele cuide de suas tribos, elas cuidarão dele.
Que ele ajude suas tribos, elas o ajudarão.
Que ele conforte suas tribos, elas o confortarão.

Dize-lhe: é por meio da verdade do soberano que pragas e terríveis raios são afastados do povo.
É por meio da verdade do soberano que este avalia grandes tribos e grandes riquezas.
É por meio da verdade do soberano que este assegura a paz, a tranquilidade, a alegria, o bem-estar, o conforto.
É por meio da verdade do soberano que este rapidamente envia grandes exércitos às fronteirras de vizinhos hostis.
É por meio da verdade do soberano que cada herdeiro crava o pilar de sua casa em sua justa herança.
É por meio da verdade do soberano que se provam as farturas das grandes árvores frutíferas de extensas florestas.
É por meio da verdade do soberano que é mantida a produção de leite do numeroso gado.
É por meio da verdade do soberano que há abundância de todo grão alto e farto.
É por meio da verdade do soberano que uma profusão de peixes nada nos rios.
É por meio da verdade do soberano que belas crianças são geradas.

Dize-lhe: uma vez que ele é jovem, seu governo é jovem.
Que ele observe o cocheiro de uma velha carruagem. Pois aquele que dirige uma roda antiga não dorme. Olha para frente, olha para trás e para a direita e para a esquerda.
Ele observa, defende, protege, de forma a não romper por descuido ou ímpeto os aros das rodas que sob ele correm.

Dize-lhe: que ele não enalteça juiz algum, a menos que conheça os verdadeiros precedentes legais.

É por meio da verdade do soberano que todo homem de arte obtém a coroa do conhecimento. Depois disso, ele se sentará para ensinar a boa lei à qual se tem sujeitado.
É por meio da verdade do soberano que as fronteiras de cada verdadeiro senhor expandem-se de modo a cada vaca alcançar o fim de seu pasto.
É por meio da verdade do soberano que cada peça de roupa é obtida para ser admirada pelos olhos.
É por meio da verdade do soberano que cercados de proteção para o gado e para todos os demais bens ampliam-se.

É por meio da verdade do soberano que três imunidades contra o abuso em cada asssembleia protegem todo senhor contra os conflitos da discórdia durante seu magnânimo governo. A primeira imunidade são as corridas de cavalos nas assembleias. Sua segunda imunidade é abrigar uma foça militar. A terceira imunidade é a regalia da taverna com amigos e a grande fartura de rodadas de hidromel, onde o tolo e o sábio, conhecidos e estranhos embriagam-se.

Dize-lhe: que ele não tinja de vermelho muitos vestíbulos, pois o derramamento de sangue é uma destruição inútil de todo preceito e da proteção de qualquer família para o governante.

Dize-lhe: que ele não ofereça nenhum mútuo préstimo que lhe seja obrigatório, que ele reforce qualquer vínculo a que tenha de comprometer-se, que ele livre sua face da vergonha por meio das armas em batalha contra outros territórios, contra os juramentos deles, contra suas defesas.

Dize-lhe: que ricos presentes ou grandes tesouros e lucros não o ceguem ao fraco em seus sofrimentos.

Dize-lhe: que ele avalie as criações do criador que as fez tal como foram feitas, pois nada que ele não julgar consoante seus benefícios não lhes dará completo aumento.
Que ele avalie a terra por seus frutos.
Que ele avalie o teixo por seus artigos bem feitos.
Que ele avalie o gado por seu renome nas feiras de inverno.
Que ele avalie a produção e laticínios por seu crescimento.
Que ele avalie as plantações de cereais por sua altura.
Que ele avalie os rios pela pureza de suas águas.
Que ele avalie o ferro por suas qualidades nas disputas das tribos.
Que ele avalie o cobre por sua firmeza e força e espessos artefatos.
Que ele avalie a prata por sua durabilidade e valor e alvos produtos.
Que ele avalie o ouro por seus admiráveis ornamentos exóticos.
Que ele avalie o solo por seus trabalhos de onde o povo pode pretender frutos.
Que ele avalie os carneiros por sua lanugem que é escolhida para as vestes do povo.
Que ele avalie os porcos pela gordura de seus lombos, pois é libertadora da desonra de cada face.

Que ele avalie os pelotões de guerreiros que acompanham um verdadeiro senhor, pois o governo de seu séquito pertence a cada rei; nada que ele não julgar de acordo com suas vantagens não os convocará com total proveito.
Que ele avalie pessoas que não são livres e grupos servis; que sirvam, que forneçam suprimentos, que avaliem, que o dêem em retribuição aos legítimos dons do soberano.
Que ele avalie anciãos nas posições de seus ancestrais com abundantes benefícios de consideração.
Que ele avalie pais e mães com benefícios de apoio e zelosa perseverança.
Que ele avalie a paga de cada artífice pelos fortes produtos e objetos bem feitos.
Que ele avalie o direito e a justiça, a verdade e a lei, o contrato e regulamento de cada regente legítimo em relação a todos os seus clientes.
Que ele avalie o adequado preço da honra de cada categoria de homens livres e da nobreza.
Tenho falhado, sou obrigado a corar.

Ergue-te, avança,
Ó meu Neire habituado a apregoar.
A Feradach Find Fechtnach,
Anuncia-lhe o apogeu de minhas palavras.

A escuridão leva à luz,
A aflição leva ao júbilo,
Um imbecil leva a um sábio,
Um tolo leva um douto,
Um servo leva a um homem livre,
A inospitalidade leva à hospitalidade,
A avareza leva à generosidade,
A mesquinhez leva à liberalidade,
A fúria leva à serenidade,
O motim leva à obediência,
Um usurpador leva a um verdadeiro senhor,
O conflito leva à paz,
A falsidade leva à verdade.

Dize-lhe: que ele seja clemente, justo, imparcial, escrupuloso, constante, generoso, hospitaleiro, honrado, equilibrado, benéfico, hábil, honesto, cortês, confiável, um julgador preciso.

Pois há dez coisas que aniquilam a injustiça de cada soberano. Guardai-vos de não as cometerdes, cuidado com tudo, ó governantes! Proclama as dez que indico: ordem e mérito, fama e vitória, descendência e parentes, paz e vida longa, boa sorte e muitas tribos.

Dize-lhe: ele pode morrer, ele morrerá; ele pode partir, ele partirá; como ele tem sido, como ele será, tal é o que se declarará. Ele não é um soberano a não ser que realize esses feitos.

Dize-lhe: há somente quatro soberanos. O soberano verdadeiro e o soberano astuto, o soberano de ocupação com exércitos e o soberano-touro.

O soberano verdadeiro, em primeiro lugar, inclina-se a toda boa coisa. Sorri com a verdade ao ouví-la, exalta-a quando a vê. Pois aquele cuja existência não a glorifica com bençãos não é um soberano verdadeiro.
O soberano astuto defende fronteiras e tribos, estas lhes entregam seus valores e tributos.
O soberano da ocupação com exércitos do exterior: suas forças vão embora, desconsideram suas necessidades, pois um homem próspero não se volta para fora.
O soberano-touro golpeia e é golpeado, repele e é repelido, erradica e é erradicado, persegue e é perseguido. Contra ele sempre há mugidos com chifres.
Ergue-te, avança,
Ó meu Neire habituado a apregoar.
A Feradach Find Fechtnach,
Um nobre, poderoso soberano,
A cada governante que em verdade governa.
Que ele mantenha minhas palavras,
Estas o conduzirão à vitória.
Meço-as para a proteção de minha família.

Sou obrigado. Aqui termina.

Tradução: Bellouesus /|\

 

Os Espólios de Annwfn

Livro de Taliesin, 30

Louvarei o soberano, supremo rei do país,
Que ampliou seus domínios até os confins do mundo.
Completo estava o cativeiro de Gweir em Caer Sidi
Graças à malícia de Pwyll e Pryderi.
Ninguém antes dele chegara até lá.
A pesada corrente azul prendia o jovem fiel
E ante os espólios de Annwn dolorosamente ele canta
E até o julgamento continuará um bardo de intercessão.
Três vezes o bastante para encher Prydwen, até lá fomos.
Exceto sete, ninguém voltou de Caer Sidi.

Não sou eu um candidato à fama se uma canção for ouvida?
Em Caer Pedryfan, quatro os seus giros.
Na primeira palavra do caldeirão, quando pronunciada,
Pelo alento de nove donzelas foi ele gentilmente aquecido.
Não é o caldeirão do senhor de Annwn? Qual sua intenção?
Uma saliência sobre sua borda de pérolas.
Não cozinhará a comida de um covarde que não tenha sido jurado,
Cintilando, uma espada brilhante para ele foi erguida
E na mão de Lleminawg foi ela deixada.
E diante da entrada do portal de Uffern a lâmpada queimava.
E quando chegamos com Arthur, um trabalho esplêndido,
Exceto sete, ninguém retornou de Caer Fedwyd.

Não sou um candidato à fama com a canção ouvida
Em Caer Pedryfan, na ilha da forte porta?
O crepúsculo e a escuridão de breu foram misturados juntos.
Brilhante vinho sua bebida ante o seu séquito.
Três vezes o bastante para encher Prydwen viemos pelo mar.
Exceto sete, ninguém voltou de Caer Rigor.

Não merecerei muito do soberano da literatura.
Além de Caer Wydyr não viram a bravura de Arthur.
Três vintenas de centúrias pararam no muralha,
Difícil era a conversa com seu sentinela.
Três vezes o bastante para encher Prydwen lá fomos com Arthur.
Exceto sete, ninguém voltou de Caer Golud.

Não merecerei muito daqueles com longos escudos.
Eles não sabem qual o dia, qual o causador,
Em que hora no dia sereno Cwy nasceu.
Quem fez com que ele não fosse aos vales de Defwy.
Não conhecem o boi malhado, larga a faixa de sua cabeça.
Sete vintenas de saliências em sua coleira.
E, quando viemos com Arthur de aflita memória,
Exceto sete ninguém retornou de Caer Fandwy.

Não merecerei muito daqueles com propensões relaxadas.
Eles não sabem em que dia o chefe foi originado,
Em que hora no dia sereno o proprietário nasceu,
Qual animal eles mantêm, prateada sua cabeça.
Quando fomos com Arthur do aflito combate,
Exceto sete, ninguém voltou de Caer Ochren.

Monges congregam-se como cães num canil,
Pelo contato com seus superiores adquirem conhecimento.
É um o curso do vento, é uma a água do mar?
É uma a centelha do fogo, do tumulto irrestringível?
Monges congregam-se como lobos,
Pelo contato com seus superiores adquirem conhecimento.
Eles não sabem quando a noite profunda e a aurora se dividem,
Nem qual é o curso do vento, ou quem o agita,
Em que lugar ele morre, sobre qual terra ruge.
A tumba do santo está sumindo do túmulo-altar.
Orarei ao Senhor, o grande supremo,
Que eu não seja desventurado. Cristo seja minha parte.

Tradução: Bellovesos /|\

O Nascimento de Cúchulainn

Segunda versão. Fonte: Manuscrito Egerton 1782 (c. 1517), texto do séc. XV editado pela Irish Texts Society

Dechtire, a irmã do Rei Conchobur de Ulaid, juntamente com cinquenta outras donzelas, deu uma escapada sem o conhecimentos dos Ultu e de Conchobur. Nenhum rastro ou traço foi deixado e os Ultu estiveram procurando-as pelo espaço de três anos.

Dechtire e suas donzelas de companhia foram, na forma de um bando de pássaros, à planície perto de Emain Macha e destruíram a vegetação, de forma que no chão não deixaram nem mesmo a raiz da grama. Isso foi causa de grande exasperação para os Ultu. Eles, por esse motivo, equiparam nove carruagens para caçar os pássaros, pois a caça às aves era um costume seu. Entre os caçadores estavam Conchobur e Fergus mac Roig e Amergin e Blai Briuga e Bricriu.

Os pássaros iam à frente deles para o sul, atravessando Sliab Fuait, sobre o vau do Lethan e o vau do Garach e sobre a planície de Gossa, entre os homens de Ross e os homens de Arda. Então a noite caiu sobre eles e o bando de pássaros escapou, de modo que eles tiraram os arreios de suas carruagens. Fergus foi procurar um alojamento e chegou a uma casinha nova, onde ele encontrou um casal. Este lhe deu as boas-vindas e ofereceu-lhe comida, mas ele não lhe aceitaria a hospitalidade porque seus companheiros ainda estavam ao relento, sem abrigo.

“Vem tu com teus companheiros para a casa e boas-vindas a todos vós”, disseram eles. Em seguida, Fergus foi a seus companheiros e trouxe-os a todos para dentro, homens e cavalos, de forma que estavam todos eles dentro da casa (que subitamente se havia tornado grande e esplêndida).

Então Bricriu saiu e ouviu o Cnú Deroíl. Ele ouviu o som da melancólica música encantada, mas não sabia o que isso significava. Ele prosseguiu em direção ao som até chegar a uma grande e bela casa enfeitada. Aproximou-se da porta e, ao olhar para dentro, viu o senhor da casa.

“Entra, ó Bricriu”, disse ele, “porque ficas aí fora?”

“Bem-vindo com certeza”, disse uma mulher que estava em pé ao lado do senhor da casa.

Bricriu contemplou o belo guerreiro de aparência nobre e perguntou: “Porque a mulher também nos dá as boas-vindas?”

“É por causa dela que te dou as boas-vindas”, disse o homem. “Falta- te alguém em Emain?”

“Falta-me, sem dúvida”, respondeu Bricriu. “Cinquenta donzelas perderam-se para nós pelo espaço de três anos.”

“Tu as reconhecerias se as visses?”, perguntou o homem.

“Poderia não as reconhecer”, disse Bricriu. “O lapso de três anos ou a enfermidade por três anos poderiam talvez provocar ignorância ou falta de reconhecimento da minha parte.”

“Mesmo assim, tenta reconhecê-las”, disse o homem. “Estão aqui na casa as cinquenta donzelas que procuras e a principal dentre elas é esta que está ao meu lado. Dechtire é seu nome e foram elas que, na forma de um bando de pássaros, foram a Emain Macha com o fito de induzir os homens do Ulaid a virem até aqui.”

A mulher deu um manto púrpura bordado a Bricriu e, depois disso, ele voltou a seus companheiros. Enquanto fazia o caminho de volta, Bricriu pensava consigo mesmo o seguinte: “Essas cinquenta donzelas que estão faltando a Conchobur, encontrá-las seria como lisonjeá-lo. Dele ocultarei, por isso, que encontrei sua irmã com as acompanhantes. Direi apenas que encontrei uma casa e dentro um grupo de adoráveis mulheres.”

Quando Bricriu chegou, Conchobur perguntou-lhe quais eram as novidades.

“Que há para ti?”, perguntou Bricriu. “Cheguei a uma casa magnífica. Lá dentro, vi uma rainha nobre e radiante, gentil e adorável, um grupo de belas e puras mulheres, uma família generosa e brilhante.”

“Volta a essa casa”, ordenou Conchobur. “O mestre dessa casa é um súdito meu, pois é na minha terra que ele mora. Que a sua mulher venha e durma comigo esta noite.”

“Não se encontrou ninguém para ir nessa missão, senão Fergus. Ele foi e falou sua mensagem e recebeu as boas-vindas e a mulher veio com ele. Ela se queixou a Fergus que estava sentindo as dores do parto. Então Fergus disse a Conchobur que um adiamento lhe deveria ser concedido. Em seguida os companheiros deitaram-se um ao lado do outro e dormiram. Pela manhã, quando se levantaram, viram um menininho nas dobras do manto de Conchobur.

“Pega a criança para ti”, disse Conchobur a Finnchoem, sua irmã. Quando Finnchoem olhou o menininho ao lado de Conchobar, ela disse: “Meu coração ama tanto esse menino que é como se ele fosse o meu próprio filho, Conall.”

“Sem dúvida, há pouca diferença entre eles”, disse Bricriu. “Essa criança é o filho de tua própria irmã, Dechtire. Foi ela que, com suas cinqüenta acompanhantes, esteve ausente de Emain por três anos e agora está aqui.”

O misterioso estranho que estava com Dechtire era Lugh Lamhfhada, das Túatha Dé Dánann. A criancinha foi chamada Setanta até matar o galgo de Culann, o ferreiro, depois do que ficou conhecido como Cúchulainn.

Tradução: Bellouesus /|\

A Aparição da Grande Rainha a Cúchulainn

também chamado Táin Bó Regamna

do Leabhar Buidhe Lecain (séc. XIV)

Quando Cúchulainn jazia em seu sono em Dun Imrid, ali escutou um grito proveniente do norte, que veio diretamente até ele. O grito era medonho e, para ele, muito apavorante. E despertou no meio de seu sono, de modo que caiu, como a queda de uma pesada carga, ao chão para fora de seu leito no lado leste de sua casa. Logo após, saiu sem armas, de forma que estava no gramado diante de casa, mas sua mulher trouxe, pois seguira atrás dele, suas armas e sua roupa. Ele então viu Laeg em sua carruagem ajaezada, vindo de Ferta Laig, do norte. E: “Que te traz aqui?”, disse Cúchulainn. “Um grito”, disse Laeg,”que eu ouvi soar nas planícies”. “De que lado vinha?”, disse Cúchulainn. “Pareceu-me que do noroeste”, disse Laeg, “isto é, pela grande estrada de Caill Cuan.” “Vamos atrás para descobrir o que é”, disse Cúchulain.

Logo após, eles saíram e foram a Ath Da Ferta. Ao chegarem ali, imediatamente ouviram o ruído de uma carruagem vindo da região da barrenta área de Culgaire. Viram então uma carruagem diante de si e puxando-a um cavalo castanho. O cavalo tinha só uma pata e o mastro da carruagem atravessava o corpo do cavalo até que uma cunha dele saía para fixá-lo em sua testa. Uma mulher ruiva estava na carruagem e um manto vermelho a cobria e suas pálpebras eram rubras e o manto caía entre os dois ferta [nota: não se sabe exatamente o significado dessa palavra; uma tradução é “rodas”. Eram elementos que ficavam na parte traseira do veículo e poderiam ser removidos para se descobrir a profundidade do vau de um rio. Talvez fossem mastros projetando-se na parte de trás da carruagem para equilibrá-la, sendo possível ajustá-los para ficarem mais ou menos estendidos.] de sua carruagem até o chão atrás dela. Um homem grande estava a seu lado, envolto numa capa escarlate e uma vara aforquilhada de aveleira em suas costas. Ele conduzia uma vaca a sua frente.

“A vaca não está satisfeita em ser levada por ti!”, disse Cúchulainn. “A vaca não te pertence”, disse a mulher, “não é a vaca de nenhum amigo ou conhecido teu.” “As vacas de Ulaidh”, disse Cúchulainn, “são todas do meu interesse.” “Estás dando uma sentença a respeito da vaca?”, disse a mulher. “Estás metendo a mão numa coisa muito grande, ó Cuchulain.” “Porque é a mulher quem me responde?”, disse Cúchulainn. “Porque não é o homem?” “Não foi ao homem que te dirigiste”, disse a mulher. “Oh!”, disse Cúchulain, “Eu falei com ele sim, embora tu mesma tenhas respondido por ele.” “h-Uar-gaeth-sceo-luachair-sceo [vento-frio-e-muitas-correrias] é o seu nome”, disse ela.

“Ai de mim! Seu nome é extraordinário”, dissse Cúchulainn. “Que sejas tu mesma a responder, uma vez que o homem não o faz. Qual teu próprio nome?”, disse Cúchulainn. “A mulher a quem falas”, disse o homem, ” é Faebor-begbeoil-cuimdiuir-folt-scenbgairit-sceo-uath [gume-de-boca-pequena-cabelo-diminuto-lasca-curta-muito-alarido].” “Estais zombando de mim?”, gritou Cúchulainn e, nesse momento, saltou para a carruagem. Imediatamente, plantou seus pés nos ombros dela e a lança no alto de sua cabeça. “Não me toques com armas afiadas!” “Dize-me então teu verdadeiro nome!”, disse Cúchulainn. “Afasta-te de mim então!”, disse ela. “Na verdade, sou uma satirista”, ela disse, “e ele é Daire Mac Fiachna de Cuailnge. Ganhei a vaca como pagamento de um poema magistral.” “Então, que eu ouça o poema”, disse Cúchulainn. “Apenas afasta-te de mim”, disse a mulher. “Não é o melhor para ti balançares essa coisa em minha cabeça.” Com isso, ele a deixou e postou-se entre os dois ferta de sua carruagem e ela cantou-lhe …[omitido o texto do poema]. Cúchulainn deu um salto na carruagem e não viu o cavalo, nem a mulher, nem a carruagem, nem o homem, nem a vaca.

Ele viu então que ela se tornara uma ave negra num ramo próximo de si. “Uma mulher perigosa [ou mágica] és tu”, disse Cúchulainn. “Doravante”, disse a mulher, “esta terra argilosa chamar-se-á dolluid [do mal]” e assim tem sido Grellach Dolluid desde então. “Se eu apenas soubesse que eras tu”, disse Cúchulainn, “não nos teríamos separado assim”. “O que fizeste”, disse ela, “será por isso ruim para ti.” “Não tens poder contra mim”, disse Cúchulainn. “Sem dúvida, tenho poder”, disse a mulher. “É para vigiar tua morte que aqui estou e ficarei” disse ela. “Eu trouxe esta vaca do monte encantado de Cruachan para que cruzasse com o Touro Negro de Cuailnge, isto é, o Touro de Daire Mac Fiachna. Chegou a altura do tempo que estás na vida, enquanto o bezerro que está no corpo desta vaca for um animal de um ano de idade, e é isso que levará ao Táin Bó Cúailnge.” “Ficarei muito mais cheio de glórias por causa desse Táin“, disse Cuchulain. “Matarei seus guerreiros, despedaçarei seus grandes exércitos. Serei o sobrevivente do Táin.”

“De que modo podes fazer isso?”, disse a mulher. “Pois, quando estiveres em combate contra um homem que seja teu igual em força, igualmente rico em vitórias, teu igual em proezas, igualmente impetuoso, igualmente incansável, igualmente nobre, igualmente bravo, igualmente poderoso, serei uma enguia e farei um laço ao redor do teu pé no baixio do rio, de modo que será um formidável combate desigual para ti.” “Juro pelo deus pelo qual juram o homens de Ulaidh”, disse Cúchulainn, “despedaçar-te-ei contra uma pedra verde no vau e não terás remédio de mim se não me deixares.” “Na verdade, serei um lobo cinzento contra ti”, disse ela, “e arrancar-te-ei um naco de tua mão direita que se estenda até a esquerda”, disse ela.

“Irei surrar-te”, disse ele, “com a lança até que teu olho esquerdo ou o direito salte de tua cabeça e jamais terás remédio de mim se não me deixares.” “Na verdade”, disse ela, “serei para ti uma novilha branca de orelhas vermelhas e irei para um lago perto do baixio do rio onde estiveres combatendo contra um homem que seja teu igual em proezas e uma centena de vacas brancas de orelhas vermelhas estarão atrás de mim e a ‘verdade dos homens na luta’ nesse dia será testada e tomarão de ti tua cabeça.” “Irei atingir-te com um arremesso de minha funda”, disse Cúchulainn, “de forma a quebrar seja tua perna esquerda ou a direita e não terás remédio de mim se não me deixares.”

Eles se separaram e Cúchulainn voltou outra vez a Dun Imrid e a Morrígu, com sua vaca, ao monte encantado de Cruachan, de modo que este conto é uma introdução ao Táin Bó Cúailnge.

Tradução: Bellouesus /|\

Quando os Celtas se tornaram Celtas?

Hecateu de Mileto (c. 550 – c. 476 a. E. C.), historiador grego, foi o primeiro a usar a palavra “Celtas” (Κελτοί) como designação de um grupo que vivia próximo à colônia grega de Massalia (hoje Marseille, no sul da França). C. Iulius Caesar usa os nomes Celta/Celtus (pl. Celtae/Celti), enquanto nos escritos de Strabo aparecem Κέλτης (pl. Κέλται) ou Κελτός (pl. Κελτοί), com referência às nações que falavam línguas célticas e ocupavam territórios no norte da Itália, na Europa centro-ocidental e, posteriormente, na Anatólia (atual Turquia). Não há concordância entre os linguistas quanto à etimologia da palavra. Alguns acreditam que sua origem seria a raiz indo-europeia *k’el (ocultar); para outros, seria proveniente de *kel- (impulsionar, constranger). Para Galatae (grego Γαλατάι), propõem *gelh2- (poder, coragem) como origem e daí teria derivado também o latim Gallia, Gallus (Gália, gaulês).

Embora não seja possível precisar exatamente o sentido, o nome “Celta” era usado pelos nativos, pois ao menos uma tribo da Espanha (Celtici Supertamarici) aparece assim designada em uma inscição celtibérica (Celtiberi, os Celtibéros) romanizada. Trata-se dos Celtici (Plinius, “Naturalis Historia”, III, §13; Κελτικοι em Strabo, “Geographiká”, III, 1, §6). A própria antroponímia testemunha que kelt- era um palavra nativa: Celtiatus, Celtiatis (gen.), Arcelti (gen.), Concelti (gen.), Celtius, Celtus, Celtilla (fem.), Celta (fem.), e Celtillus (pai do conhecido Vercingetorix).

O temo “Celtas” ficou durante séculos sepultado nos textos dos autores greco-romanos. Porém, Edward Lhuyd, botânico, linguista, geógrafo e naturalista galês (1660 – 1709), depois de viajar por todos os condados de Gales a seviço do Museu Ashmoleano por vota de 1697, observando as semelhanças entre as línguas hoje chamadas célticas: as britânicas (galês, córnico e bretão) e as goidélicas (gaélico irlandês, gaélico escocês e manês), propôs no primeiro volume de sua obra Archaeologia Britannica: an Account of the Languages, Histories and Customs of Great Britain, from Travels through Wales, Cornwall, Bas-Bretagne, Ireland and Scotland que as línguas britânicas seriam descendentes do gaulês e as goidélicas, da língua das inscrições celtibéricas. Lhuyd considerou que essas seriam todas “línguas célticas” e “celtas”, a designação coletiva dos povos que as falavam.

Desde então, os irlandeses, escoceses, galeses, bretões e os demais passaram a ser cada vez mais chamados “celtas”, coisa que a eles próprios nunca havia ocorrido e que hoje poucos se dão ao trabalho de questionar.

Em resumo: os que hoje consideramos Celtas começaram a ser Celtas a partir do finzinho do séc. XVII, começo do séc. XVIII, conforme critério linguístico.

Bellouesus /|\