Tempestarii

Plerosque autem vidimus et audivimus tanta dementia obrutos, tanta stultitia alienatos, ut credant et dicant, quandam esse regionem quae dicatur Magonia, ex qua naves veniant in nubibus, in quibus fruges quae grandinibus decidunt et tempestatibus pereunt, vehantur in eandem regionem, ipsis videlicet nautis aëreis dantibus pretia tempestariis, et accipientibus frumenta vel ceteras fruges. Ex his item tam profunda stultitia excoecatis, ut hoc posse fieri credant, vidimus plures in quodam conventu hominum exhibere vinctos quatuor homines, tres viros et unam feminam, quasi qui de ipsis navibus ceciderint: quos scilicet, per aliquot dies in vinculis detentos, tandem collecto conventu hominum exhibuerunt, ut dixi, in nostra praesentia, tanquam lapidandos. Sed tamen vincente veritate post multam ratiocinationem, ipsi qui eos exhibuerant secundum propheticum illud confusi sunt, sicut confunditur fur quando deprehenditur.

“Temos visto e ouvido muitos homens mergulhados em tamanha estupidez, afundados em tais profundezas de loucura a ponto de acreditarem que há uma certa região chamada Magonia, de onde naus singram as nuvens a fim de restituir àquela região aqueles frutos da terra que são destruídos por granizo e tempestades, os marinheiros oferecendo retribuições aos magos das tempestades (tempestarii) e recebendo eles próprios grãos e outros produtos. Em razão do número daqueles cujo cego destino era profundo o bastante para permitir-lhes acreditarem fossem possíveis tais coisas, vi diversas exibições, num certo ajuntamento de pessoas, de quatro pessoas algemadas, três homens e uma mulher, que disseram terem caído desses mesmos navios; depois de os manterem em cativeiro por alguns dias, trouxeram-nos diante da multidão reunida em nossa presença, como dissemos, para serem apedrejados. Porém, a verdade prevaleceu.”

Esse é um trecho de um livro chamado De Grandine et Tonitrua (“Sobre o Granizo e as Trovoadas”), escrito por São Agobardo (c. 779-840), um espanhol que foi arcebispo de Lyon (a antiga Lugdunum). É um parágrafo interessante por várias razões.

Primeiramente, o nome Magonia, que pode ser decomposto nos seguintes elementos:

a) mag – magos, “planície” em gaulês, o gaélico antigo mag;
b ) – on – sufixo que se encontra comumente nos nomes das divindades célticas, como Map-on-os, Ep-on-a, Corn-on-os, Tigern-on-os, Rigant-on-a;
c) – ia – sufixo que forma nomes de lugares, existe em céltico antigo, bem como em latim: Hispan-ia, Britann-ia, Graec-ia, Ital-ia.

Assim, Mag-on-ia, “Lugar da Grande Planície Divina”, um impressionante fóssil da velha língua gaulesa, desaparecida desde o séc. VI, em uso no séc. IX. E também uma importante analogia com a Irlanda. Um dos nomes gaélicos para o Outro Mundo é justamente Mag Mór, “Grande Planície”.

Os navios dos magos das tempestades, navegando entre as nuvens, também fazem lembrar a mitologia irlandesa:

Ad-beraid, imorro, aroile do seanchaidib conid a n-dluim ciach tistais Tuatha De Danann i n-Erind. Ocus ni h-ead on, acht a longaib na morloinges tangadar, ocus ro loiscsed a longa uili iar tuidecht i n-Erind. Ocus is don dluim ciach bai dib side, at-dubradar aroile conid a n-dluim chiach tangadar. Ocus ni h-ead iar fir . Ar is iad so da fhochaind ara r’ loiscsead a longa na r’ fhagbaidis fine Fomra iad do fodail forro, ocus na ro thisad Lug do cosnum rigi fri Nuagaid.

“Entretanto, alguns dos historiadores dizem que as Tuatha Dé Danann chegaram a Ériu em uma nuvem de névoa. Mas isso não foi assim, pois elas vieram numa grande frota de navios e, depois de chegarem a Ériu, queimaram todas as suas naus. E, pela nuvem de fumaça que delas subiu, disseram alguns que elas chegaram em uma nuvem de névoa. Isso, porém, não é verdade, pois houve duas razões para que queimassem seus barcos: para que a raça dos Fomoráig não pudesse encontrá-las para fazer pilhagem e para que Lugh não pudesse vir combater Nuada pela soberania.” (Tuath De Danand na set soim, “As Quatro Jóias dos Tuatha Dé Danann”)

Aparentemente, Agobardo esbarrou em uma sobrevivência popular da antiga religião céltica. Os conhecedores das lendas irlandesas não terão dificuldade em descobrir outros pontos de semelhança entre essa peculiar crença dos gauleses medievais e as opiniões dos gaélicos sobre seus deuses ancestrais.

Bellouesus /|\

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