Sobre o renascimento 3

Vamos então ver, na medida do possível, em que acreditavam os druidas antigos usando algumas fontes que estão acessíveis.

A imortalidade da alma postula uma existência pós-humana do indivíduo, mas não é em hipótese alguma a afirmação do retorno do homem ao nosso mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos serão felizes eternamente num Outro Mundo encantado. Não resta dúvida de que a única doutrina druida tradicional foi a crença absoluta na imortalidade, que prometia a vida eterna no Outro Mundo. (BARROS, Maria Nazareth Alvim de. Uma Luz sobre Avallon; celtas e druidas, Mercuryo, p. 95)

Outro rei, Mongan, que nada tinha de mítico, pois viveu na época histórica e morreu em 615, teve também três pais, dos quais dois deuses. Seu pai legal, o Rei Fiachna, partira para guerrear em Alba (Escócia), contra os Saxões. Deixou na Irlanda a esposa. Esta recebe a visita de um homem imponente que lhe revela que seu marido será morto em combate no dia seguinte, a menos que ela consinta que ele lhe dê um filho. Para salvar o marido, a esposa consente e o marido é miraculosamente salvo!

A criança veio ao mundo e, quando tinha três dias, o imponente personagem, que outro não era senão o deus Manannan, veio procurá-lo para criá-lo em seu reino, a Terra da Promessa, até que ele chegasse à juventude.

Uma outra versão pretende que, a despeito das aparências, Mongan era a reencarnação do herói Fionn Mac Cumhaill, mas que não queria que o soubessem. Advirta-se que este desenvolvimento, tão lisonjeiro para Mongan, ocorria em plena era cristã! (LAUNAY, Olivier. A Civilização dos Celtas, Otto Pierre Editores Ltda. , p. 108-109)

Em quase todas as lendas irlandesas encontramos, por exemplo, o fenômeno celta da mutação de forma, realidade que, para os irlandeses, é tão natural quanto, para nós, são as estruturas moleculares: essa era, simplesmente, a condição do mundo. Mutação de forma era a capacidade que determinado ser possuía de se transformar, algo que, em muito, transcendia a metamorfose causada pelo ‘espasmo-disforme’. Vemos um exemplo esplêndido de mutação de forma no poema do pioneiro Amhairghin: inicialmente, é um estuário, depois uma onda, depois o mar, depois um touro, depois um falcão, etc. E, embora, hoje em dia, o leitor possa entender tais gestos como metáforas, os irlandeses acreditavam que deuses, druidas, poetas e outros indivíduos em sintonia com o mundo da fantasia podiam viver experiências de mutação de forma. (O’CAHILL, Thomas. Como os Irlandeses Salvaram a Civilização, Objetiva Ltda., p. 145)

Entre as doutrinas filosóficas, ou, digamos teológicas, ensinadas pelos druidas, a que mais parece haver tocado os antigos é a da imortalidade da alma. ‘Aquilo de que os druidas querem persuadir-nos em primeiro lugar’, diz Iulius Caesar, ‘é que as almas não morrem e que de um corpo, após a morte, elas passam a um outro’. Essa segunda vida, os defuntos a encontravam em um mundo diferente daquele em que haviam vivido. Segundo vós, ó Druidas, diz Lucanus, os mortos não vão às moradas silenciosas do Érebo, aos reinos profundos e descoloridos de Plutão; é em outro mundo que a alma do morto reina sobre novos membros e, se sabeis o que ensinam os versos que cantais, a morte é o caminho para uma longa vida.

Mais tarde:

Condla era um dos dois filhos do rei supremo Conn, apelidado Cetchathaig, ou seja, capaz de enfrentar sozinho cem guerreiros, o que não o impede de ser morto pelo rei de Ulster. Anteriormente a esse desastre, a deusa da morte vem roubar Condla da afeição paterna. Ela se apresenta sob a forma de uma jovem e linda mulher. ‘O país de onde venho’, diz ela, ‘é a terra dos vivos, ninguém morre e passamos a vida em festins contínuos que não temos trabalho para preparar. Lá reina um rei vitorioso, Téthra, em cujos estados não há jamais queixa nem dor. Ver-te-emos todos os dias em meio à assembléia de teus pais, no meio daqueles que conheces e que te amam’. Levado pela sedutora deusa, Condla, que estava às margens do Oceano, saltou com ela em uma barca de vidro que ela trouxera; viu-se pouco a pouco se afastarem, até que estavam tão longe que não se podia mais percebê-los: jamais foram vistos de novo. Condla fora ao outro mundo, orbis alius, como diz Lucanus, ad Manes para empregar a expressão de Mela.

Depois:

Segundo a doutrina egípcia, a admissão definitiva nesse país maravilhoso não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto. Esta doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos Celtas, tendo sido introduzido na Irlanda pelo cristianismo e o esforço necessário para obter sua aceitação explica a praga de São Patrício: ‘Meu Deus de julgamento!’, em galês do século V: mo dê brôt!

No capítulo seguinte:

Os Celtas acreditavam na imortalidade da alma, mas não admitiam, como os pitagóricos, que, como regra geral, as almas dos mortos, deixando o corpo que habitaram, ficavam nesse mundo para animar um novo corpo. (JUBAINVILLE, D’Arbois de. Os Druidas, Madras, p. 94-95, 103)

Jubainville cita como exceções a essa regra geral (op. cit., p. 103-106):

1) o nascimento de Mongan (que já vimos): a reencarnação do herói Finn como Mongan, por intermédio do deus Mánannan;

2) o nascimento de Etain, filha de Etar: antes de ser a filha de Etar, Etain já tinha sido a fillha de Aillil (mil e doze anos antes) e, depois disso, numa outra vida, tinha sido a esposa do deus Midir. Quando renasceu como filha de Etar, Etain se tornou esposa de Eochaid Airem, rei supremo da Irlanda, mas Midir, lembrando-se de sua antiga companheira, reclamou-a para si e levou-a consigo para o Outro Mundo.

Assim, de acordo com os autores citados (e tive o cuidado de mencionar apenas autores publicados no Brasil, embora pudesse trazer o testemunho de muitos outros estudiosos), as possibilidades de “mudança de estado” para o ser humano, de acordo com o ensinamento druídico, são:

1) metamorfose (o que não é uma reencarnação);

2) renascimento num outro mundo mais perfeito do que este e onde já habitam os Ancestrais do defunto e também os Deuses, sem a ocorrência de nenhum tipo de julgamento divino;

3) renascimento numa forma humana, para certos indivíduos em casos excepcionais.

Em uma obra ainda não publicada no Brasil, o mesmo autor cita novamente o nascimento de Mongan (JUBAINVILLE, H. d’Arbois de. Le Cycle Mythologique Irlandais et La Mythologie Celtique. Ernest Thorin, Éditeur, Paris, 1884):

Chapitre XIV

(Capítulo XIV)

La merveilleuse naissance de Mongân et le rôle que joue dans sa légende le dieu Manannân mac Lir ne sont pas les seuls points sur lesquels ce récit mythique nous fait connâitre les croyances fondamentales de la religion celtique. Il y a dans cette légende deux points que méritent également un étude attentive. L’un est que Find, tué à la fin du troisième siècle, n’avait cependant pas cessé de vivre, qu’il avait conservé sa personalité et qu’il revint en ce monde plus de deus siècles aprés sa mort, ayant, par une seconde naissance, pris um corps nouveau.

(O maravilhoso nascimento de Mongan e o papel que desempenha em sua lenda o deus Manannan mac Lir não são os únicos pontos sobre os quais esse relato mítico nos faz conhecer as crenças fundamentais da religião céltica. Há nessa lenda dois pontos que merecem igualmente um estudo atento. Um é que Find, morto no fim do terceiro século, não tinha, nesse entremeio, deixado de viver, tinha conservado sua personalidade e que ele retorna a este mundo dois séculos após sua morte, tendo obtido, por meio de seu segundo nascimento, um novo corpo.)

Le second point est l’apparition de Cailté. Celui-ci n’est pas né une seconde fois. On ne s’explique pas de prime abord comment, ayant à son décès laisse son corps dans la tombe en Irlande, il revient du pays des morts avec une forme physique que rien ne distingue de celle du reste des humains. Ce qu’il y a de certain, c’est que suivant la légende irlandaise, il en est revenu visible à tous les yeux, parlant une langue que tous ont comprise. Or cette légende n’a pas pour base une croyance spéciale aux Irlandais, puisqu’en France, encore aujourd’hui, dans le peuple, persist na crainte de revenants. La croyance aux revenants est donc une doctrine celtique, et un peu plus loin nous donnerons là-dessus quelques développements.

(O segundo ponto é a aparição de Cailte. Este não nasceu uma segunda vez. Não fica inicialmente claro como, tendo com a morte deixado seu corpo na tumba na Irlanda, ele volta do país dos mortos com uma forma física que ninguém diferencia daquela do restante dos humanos. O que há de certo é que, de acordo com a lenda irlandesa, ele voltou para cá visível a todos os olhos, falando uma língua que todos entenderam. Ou essa lenda não tem por base uma crença peculiar dos irlandeses, pois na França, ainda hoje, entre o povo, persiste o temor dos espectros. A crença nos fantasmas é então uma doutrina céltica e um pouco mais adiante indicaremos alguns desenvolvimentos.)

Em seu livro bem conhecido, O’Donohue diz (O’DONOHUE, John. Anam Chara; um livro de sabedoria celta, Rocco, p. 205):

Meu pai costumava contar-nos uma história acerca de um vizinho que era muito amigo do padre da região. Na Irlanda, há toda uma mitologia sobre druidas e padres possuírem poder especial. Esse homem e o padre costumavam dar longos passeios. Um dia, o homem perguntou ao padre: ‘Onde estão os mortos?’ O padre disse-lhe para não lhe fazer perguntas como essa. Mas o homem insistiu, e, por fim, o padre disse: ‘Vou mostrar-te, mas não deves nunca contar a ninguém.’ É escusado dizer que o homem não cumpriu a palavra. O padre ergueu a mão direita. O homem olhou sob a mão erguida e avistou as almas dos falecidos em toda parte, tão cerradamente quanto o orvalho nas folhas de grama. Com frequência, a nossa solidão e segregação são o resultado de uma deficiência de imaginação espiritual. Esquecemos que não existe algo semelhante a espaço vazio. Todo espaço está repleto de presença, particularmente da presença daqueles que estão agora sob a invisível forma eterna.

As manifestações dos Deuses como animais são apenas demonstrações do seu polimorfismo, isto é, de que não possuem formas fixas, podendo assumir a aparência que desejarem de acordo com o momento.

Talvez eu esteja me repetindo aqui, mas isso serve para mostrar que essas não são crenças pessoais minhas. Na verdade, sou menos restritivo do que os autores cujas conclusões podem ser lidas acima.

Se não contemplei a possibilidade de uma alma humana reencarnar num corpo animal ou vice-versa, é porque esse ensinamento pode ser nativo americano, hinduísta, budista ou qualquer outra coisa, mas – ainda que pareça muito adequado – não é céltico (é ABSOLUTAMENTE necessário saber separar as coisas). Não conheço estudioso sério que o subscreva nesse contexto. Fecho os ouvidos a hipóteses esotéricas infundadas e aos argumentos espúrios de outros que, por interesse comercial ou conhecimento insuficiente, apresentam as coisas celtas de forma diluída e/ou bastarda.

Os celtas não são criaturas de um passado distante. Eles estão conosco, lutando no extremo ocidental da Europa para manter vivos seus idiomas e tradições nativos – ou, em alguns casos, até recuperá-los.

Bellouesus /|\

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