Sobre o renascimento 2

Leio com frequência que os antigos celtas ensinavam que a alma de uma pessoa reencarnaria dentro do seu próprio clã. Ou então que seria possível renascer como um elemento da paisagem, uma pedra, uma árvore, ou um animal qualquer. Não compro nenhuma dessa ideias e acho que tenho motivos para duvidar delas.

Primeiramente, lembro-me no momento de apenas duas passagens que corroborariam a crença num “renascimento” dentro do próprio clã a que uma pessoa pertence. A primeira está num poema chamado Coirí Filidechta, atribuído ao druida Amhairghin, e diz que o conhecimento se transmite pelas linhas de sangue, embora não se manifeste igualmente em todos os descendentes. Mas é uma passagem de difícil interpretação:

Onde está a raiz da poesia numa pessoa, no corpo ou na alma? Dizem que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Outros dizem que está no corpo, onde as artes são aprendidas, passadas através dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a sede do que permanece na raiz da poesia e o bom conhecimento na ancestralidade de cada pessoa não passa para todos, mas passa a cada outra pessoa.

A outra passagem relevante vem, se me não falha a memória, do Táin. É um trecho em que os Ultu discutem a respeito de Cúchulainn não ter ainda uma esposa. Declaram explicitamente que, se ele não tiver um filho, não haverá possibilidade de que volte para eles depois da morte, ou seja, reencarnado em um dos seus descendentes. Mas a interpretação também pode ser de que suas habilidades guerreiras passariam geneticamente ao filho. Parece-me que as duas passagens se referem à transferência das habilidades e não da individualidade de alguém.

De qualquer modo, estamos falando em termos humanos. Talvez eu faça uma interpretação muito literal dos termos da questão, mas como se supõe, por exemplo, que uma pessoa possa “renascer” como uma pedra? Qual fenômeno geológico determinaria o surgimento de uma pedra para abrigar um espírito errante? Ou não é necessário que seja um nova pedra e o espírito poderia simplesmente passar a habitar um mineral já existente? Como se daria isso? Voluntariamente? Pelo concurso de uma vontade alheia?

Se voluntariamente, eu, por exemplo, ao perceber que a vitalidade de meu corpo está se esgotando, determino que meu espírito se dirija à pedra, onde passará a habitar. Mas também pode ser que eu tome essa decisão já no estado de erraticidade. Se eu fosse dirigido por uma vontade alheia, essa vontade possuiria recursos que lhe permitiriam ligar-me à pedra, o que eu não faria de forma espontânea.

E quanto tempo deve durar esse estado? Para sempre ou por um número determinado de anos? Ou eu devo permanecer na pedra até que se verifique um dado evento? Até que a erosão a destrua, até que vire pó?

Seja qual for o caso, é perceptível que não se trata da simples continuidade da existência. Na passagem da alma humana a um objeto inanimado (voluntária ou não) interferem as ações de uma ciência obscura.

Renascer como animal é ainda mais difícil. Simplesmente por um motivo: o espírito humano é diferente da alma animal. Por maior que seja o conhecimento de um animal, esse é o saber possuído pela sua espécie e, quando cessar sua vida, essa experiência vai enriquecer o todo do seu grupo, não permanecer como um patrimônio individual. Os animais não são criaturas individualizadas. O ser humano é, pois adquiriu um corpo causal que lhe permite reconhecer-se como distinto daquilo que o cerca. Essa característica não é compatível com a vida simplesmente animal. O contrário também é verdade: não é possível que a essência vital de um touro anime uma forma humana. Por um simples motivo: a Natureza não dá saltos, não passa de um a outro estágio sem uma fase intermediária. Todo o processo evolutivo mostra esse princípio.

Antes que alguém me acuse (não há de faltar quem o faça) de estar afirmando a superioridade humana, devo dizer que o pé não é menos importante do que a mão, mas a função do pé não é igual à função da mão. Pelos olhos do ser humano, todos os elementos do mundo contemplam e refletem sobre si mesmos usando instrumentos que outras formas de vida não desenvolveram, ainda que partilhem da mesma origem que a humana e estejam sujeitas a ciclos existenciais semelhantes.

Levando em conta que a religião céltica não continha a noção de pecado e conseqüente julgamento, cabe questionar qual seria, do seu ponto de vista, a necessidade de renascer neste mundo.

Bellouesus /|\

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