O conhecimento é um dom dos Deuses

Guerreiros, artesão, bardos, todos faziam parte de suas “corporações” específicas e não iriam iniciar suas atividades sem rogar inspiração, auxílio e proteção das divindades regentes do seu ofício particular. O conhecimento é um dom dos Deuses, que são a sua fonte, e o seu uso se faz com a permissão e a ajuda prestadas pelas deidades. Desse modo, o exercício de qualquer profissão tradicional, de qualquer técnica, teria um componente religioso subjacente básico. Invocar as deidades exigiria um rito específico. O conjunto dos ritos é o domínio dos druidas. É nessa necessidade da intervenção divina que o druidismo encontrava seu caminho para projetar-se sobre qualquer atividade.

Quanto aos celtas serem todos adeptos do druidismo… Toda generalização é sempre inexata. Os druidas não eram unanimidade (“toda unanimidade é burra”). Sem dúvida, era o druidismo que fazia os reis e representava o stablishment céltico. Mas existiam também, à margem do druidismo e tolerados por este, outros cultos independentes. Cito como exemplo a veneração de Crom Cruach na Irlanda, à época da evangelização, e o grupo de mulheres (citado pelo grego Strabon) que habitava a ilha na desembocadura do rio Loire, adeptas de um culto dionisíaco. Esses eram cultos célticos, mas não druídicos. Vale também lembrar que os celtas dominaram regiões como a Península Ibérica e a Galácia, na Ásia Menor, onde não há o menor registro da existência de druidas (o que não significa que não existissem). Nem por isso deixaram de ter algum tipo de religião, pois o nome de um dos reis gálatas era Deiotaurus, ou seja, Touro Divino, indicando a sacralidade desse animal.

Mesmo entre os celtas que estavam na região onde se praticava o druidismo e ouviam os ensinamentos dos druidas, não eram estes os intermediários exclusivos entre homens e deuses. Os deuses poderiam se mostrar a qualquer um no momento que quisessem e sob o aspecto que desejassem: um raio, um animal, uma árvore, uma fonte, um objeto qualquer; sua principal característica era a capacidade para a metamorfose. Qualquer um poderia entrar em contato com os deuses através da oração, qualquer um que tivesse conhecimento suficiente poderia realizar encantamentos e o responsável pela maioria dos ritos tribais era o rei, personagem semidivino unido em matrimônio com a deusa da terra, estando os druidas presentes apenas nos grandes ritos comunais (como festas das estações).

Na verdade, o papel dos druidas junto aos reis era o mesmo dos especialistas que são chamados pelos governos de hoje para opinarem sobre questões de direito, economia, ciência ou qualquer outra. Os druidas eram os conselheiros dos reis e prestavam esse serviço usando seu conhecimento pessoal, a vidência e a divinação. Suas habilidades mágicas seriam utilizadas na aplicação da justiça, na cura de doenças e na guerra. Devemos sempre lembrar que os druidas não eram como padres, eles não pregavam para uma congregação de fiéis. Suas lições se limitavam a seus aprendizes. Ao povo, eles prestariam os mesmos serviços que à realeza (aconselhamento, justiça e magia) mediante uma remuneração. Sim, os druidas eram pagos, ainda que não necessariamente em dinheiro, afinal de contas tinham famílias que precisavam ser sustentadas. E ser druida, ao que parece, era uma profissão bem rendosa.

Bellouesus /|\

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