Arquivo mensal: janeiro 2013

As Quatro Joias das Tuatha Dé Danann I

CelticSymbolsTuathaDeDananndo Leabhar Buidhe Lecain

Havia quatro cidades em que as Tuatha Dé Danann aprenderam a sabedoria e a magia, pois sabedoria e magia e artes malignas eram-lhes úteis. Estes são os nomes das cidades: Failias e Findias, Goirias e Murias. De Failias foi trazida a Lia Fail, que está em Tara e que costumava gritar sob cada rei que assumia a soberania da Irlanda. De Gorias foi trazida a espada que pertencia a Nuada. De Findias foi trazida a lança de Lug. E de Murias foi trazido o caldeirão do Dagda.

Quatro magos estavam nessas cidades. Fessus estava em Failias, Esrus estava em Gorias, Uscias estava em Findias e Semias estava em Murias. Deles as Tuatha Dé Danann aprenderam sabedoria e ciência. Batalha alguma era sustentada contra a lança de Lug ou contra aquele que a tivesse em sua mão. Ninguém escapava da espada de Nuada depois de ser ferido por ela e, quando ela era retirada de sua bainha guerreira, ninguém podia resistir contra aquele que a tivesse em sua mão. Jamais uma reunião de convidados partiu insatisfeita do caldeirão do Dagda. E a Lia Fail, que está em Tara, jamais falou senão sob um rei da Irlanda.

Alguns dos historiadores, não há dúvida, dizem que as Tuatha Dé Danann chegaram a  Ériu numa nuvem de bruma. Mas isso não foi assim, pois eles chegaram numa grande frota de navios e, depois de chegar a Ériu, queimaram todas as suas naus. E, pela nuvem de fumaça que deles subiu, disseram alguns que eles chegaram numa nuvem de bruma. Isso, no entanto, não é verdadeiro, pois estas são as razões pelas quais queimaram seus barcos: para que a raça dos Fomoirí não as pudesse encontrar com o fito de saqueá-las e para que Lug não pudesse vir a fim de lutar contra Nuada pela soberania. A respeito deles os antiquários compuseram esta canção:

“As Tuatha Dé Danann das joias preciosas,
Onde encontraram elas a ciência?
Chegaram na perfeita sabedoria
Em druidismo, artes malignas.

“Brilhante Iardanel, um profeta de excelência,
De Nemed filho, filho de Agnoman,
Teve como tolo descendente o ativo Beothach,
Que um herói foi na destruição, pleno de maravilhas.

“Os filhos de Beothach – longa a vida de sua fama -,
A multidão chegou dos valentes guerreiros
Depois do pesar e após grande tristeza
A Lochlann com seus rebentos todos.

“Quatro cidades – justo seu renome –
Em agitação contemplaram com grande força.
Por esse motivo apaixonadamente competiram
Para aprender sua genuína sabedoria.

“Failias e Gorias brilhante
Findias, Muirias de grande bravura,
Fora da qual batalhas foram vencidas,
Das principais cidades os nomes.

“Morfis e o nobre Erus,
Uscias e Semiath, sempre aterrador,
Nomeá-los – um discurso necessário –
Os nomes dos sábios de nobre sabedoria.

“Morfis, o poeta da própria Failias,
Em Gorias Esrus dos desejos intensos,
Semiath em Murias, dos pináculos a fortaleza,
Uscias, o justo vidente de Findias.

“Quatro presentes de lá com eles
Pelos nobres das Tuatha Dé Danann:
Uma espada, uma pedra, um caldeirão de qualidade,
Uma lança para a morte dos grandes campeões.

“De Failias para cá a Lia Fail
Que gritava sob os reis da Irlanda.
A espada na mão do ágil Lug
De Gorias – uma escolha de riquezas vastas.

“De Findias distante sobre o mar
Trazida foi a lança mortal de Nuada.
Um grande e poderoso tesouro de Murias,
O caldeirão do Dagda de feitos elevados.

“O Rei do Céu, o Rei dos frágeis homens,
Que ele me proteja, o Rei das regiões reais,
O Ser em quem está a permanência dos espectros
E da raça gentil a força.”

Tuatha Dé Danann.

O Fim. Amén.

Tuath De Danand na set soim

Tradução: Bellouesus /|\

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Um conselho: pergunte

clip6_10Três coisas que não são vergonhosas: a dúvida, o desconhecimento, o erro de boa-fé. E uma coisa que é vergonhosa: a falta de curiosidade.

No Caldeirão da Sabedoria, o druida Amhairghin Glúingeal diz:

Fó topar tomseo,
fó atrab n-insce,
fó comair coimseo
con-utaing firse.

Boa é a nascente do ritmo,
boa é a morada da fala,
boa é a confluência do poder
que edifica a força.

Is mó cach ferunn,
is ferr cach orbu,
berid co h-ecnae,
echtraid fri borbu.

É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância.

Bellouesus /|\

Gauleses pelo Mundo

A invasão céltica da Ásia menor se deu em 278 a. E. C., quando Antiochus I governava o Império Selêucida. Foi sua vitória sobre os celtas que lhe deu o título Sóter (em grego, “Salvador”). A guerra com o Egito ptolomaico começou em seu reinado e foi herdada pelo filho, Antiochus II Théos (“Deus”), contra o qual Ptolomeu II do Egito empregou 4.000 mercenários célticos.

Há um registro muito interessante do qual não se conservou nenhuma notícia no Ocidente, mas está preservado nos editos do imperador indiano Ashoka, grande propagador da doutrina budista: esse imperador patrocinou o desenvovimento da medicina herbal para humanos e animais nos territórios dos reis helenísticos, além de ter enviado missionários budistas para as cortes dos reis Antiochus da Síria, Ptolomeu do Egito, Magas de Cirene (atual Líbia) e Alexandre II do Epiro (reino entre a Grécia e a Albânia atuais).

Vale a pena saber alguma coisa sobre Ptolomeu II. Ptolomeu (em grego, Ptolemaios) II (309–246 a. E. C.), filho mais velho do general de Alexandre Magno, Ptolomeu, que se tornou o primeiro soberano helenístico do Egito, tinha um irmão, Ptolemaios Keraunós (“Trovão”), que morreu em 279 a. E. C., precisamente combatendo os gauleses de Bolgios e Brennios, que tentaram invadir a Grécia e, não obtendo êxito, passaram para a Ásia. Ptolomeu II casou-se com a irmã, Arsínoe, seguindo o costume egípcio e provocando horror no mundo grego, onde o incesto era um tabu absoluto. O apelido pelo qual Ptolomeu II ficou conhecido na história – Philadélphos (“o que ama o irmão”) – na verdade pertencia a Arsínoe. A união teve motivação política, visava a reforçar a imagem de Ptolomeu II como soberano legítimo do Egito. Aparentemente pelo mesmo motivo, adotou muitos conceitos religiosos nativos.

Ptolomeu II foi um grande patrono da cultura. A magnificência e os costumes dissolutos de sua corte foram comparados à Versalhes de Luís XIV. O rei foi um entusiasta da cultura grega, cercado de poetas como Kallímakhos, então diretor da famosa Biblioteca de Alexandria, e Theókritos, criador da poesia bucólica que teve inúmeros seguidores. Foi em sua época que a Bíblia judaica foi pela primeira vez traduzida para o grego (o texto conhecido como Septuaginta).

A mencionada guerra com Antiochus II (chamada II Guerra Síria, em que Ptolomeu empregou mercenários célticos) durou de 260 a 255 a. E. C.

Na sua Introdução ao Auraicept, George Calder analisa a influência do gramático Virgilius Maro (que no séc. X pensavam fosse de Toulouse, na Gália). Citando Kuno Meyer, Calder apresenta uma lista de duas vintenas de nomes extraídos da obra de Virgilius, todos de relações do gramático, e que Meyer considera de origem irlandesa, concluindo que, se Virgilius não era ele próprio irlandês, ao menos encontrava-se, por algum motivo, em estreito e freqüente contato com irlandeses:

Aemerius
Andrianus
Arearex
Asporius
Assianus
Bientius
Bregandus
Don
Fassica
Gabritius
Galbarius
Galbungus
Galirius
Gallienus
Gelbidius
Gergesus
Glengus
Gurgilius
Luuanus
Lapidus
Lassius
Latomius
Lugenicus
Martulis
Mitterius
Ninus
Ossius
Perrichius
Plastus
Prassius
Regulus
Rigas filius Rigadis
Rithea Nini regis uxor
Sagillius Germanus
Samminius, tio de Virgílio
Sarbon
Sarricius
Saurinus
Sedulus
Senenus
Sulpita
Ursinus

Esses apontamentos pretendem indicar que os celtas da Antiguidade não viviam encerrados em um mundo próprio, sem contato com outras culturas e imunes à influência exterior.

Bellouesus /|\

Tempestarii

Plerosque autem vidimus et audivimus tanta dementia obrutos, tanta stultitia alienatos, ut credant et dicant, quandam esse regionem quae dicatur Magonia, ex qua naves veniant in nubibus, in quibus fruges quae grandinibus decidunt et tempestatibus pereunt, vehantur in eandem regionem, ipsis videlicet nautis aëreis dantibus pretia tempestariis, et accipientibus frumenta vel ceteras fruges. Ex his item tam profunda stultitia excoecatis, ut hoc posse fieri credant, vidimus plures in quodam conventu hominum exhibere vinctos quatuor homines, tres viros et unam feminam, quasi qui de ipsis navibus ceciderint: quos scilicet, per aliquot dies in vinculis detentos, tandem collecto conventu hominum exhibuerunt, ut dixi, in nostra praesentia, tanquam lapidandos. Sed tamen vincente veritate post multam ratiocinationem, ipsi qui eos exhibuerant secundum propheticum illud confusi sunt, sicut confunditur fur quando deprehenditur.

“Temos visto e ouvido muitos homens mergulhados em tamanha estupidez, afundados em tais profundezas de loucura a ponto de acreditarem que há uma certa região chamada Magonia, de onde naus singram as nuvens a fim de restituir àquela região aqueles frutos da terra que são destruídos por granizo e tempestades, os marinheiros oferecendo retribuições aos magos das tempestades (tempestarii) e recebendo eles próprios grãos e outros produtos. Em razão do número daqueles cujo cego destino era profundo o bastante para permitir-lhes acreditarem fossem possíveis tais coisas, vi diversas exibições, num certo ajuntamento de pessoas, de quatro pessoas algemadas, três homens e uma mulher, que disseram terem caído desses mesmos navios; depois de os manterem em cativeiro por alguns dias, trouxeram-nos diante da multidão reunida em nossa presença, como dissemos, para serem apedrejados. Porém, a verdade prevaleceu.”

Esse é um trecho de um livro chamado De Grandine et Tonitrua (“Sobre o Granizo e as Trovoadas”), escrito por São Agobardo (c. 779-840), um espanhol que foi arcebispo de Lyon (a antiga Lugdunum). É um parágrafo interessante por várias razões.

Primeiramente, o nome Magonia, que pode ser decomposto nos seguintes elementos:

a) mag – magos, “planície” em gaulês, o gaélico antigo mag;
b ) – on – sufixo que se encontra comumente nos nomes das divindades célticas, como Map-on-os, Ep-on-a, Corn-on-os, Tigern-on-os, Rigant-on-a;
c) – ia – sufixo que forma nomes de lugares, existe em céltico antigo, bem como em latim: Hispan-ia, Britann-ia, Graec-ia, Ital-ia.

Assim, Mag-on-ia, “Lugar da Grande Planície Divina”, um impressionante fóssil da velha língua gaulesa, desaparecida desde o séc. VI, em uso no séc. IX. E também uma importante analogia com a Irlanda. Um dos nomes gaélicos para o Outro Mundo é justamente Mag Mór, “Grande Planície”.

Os navios dos magos das tempestades, navegando entre as nuvens, também fazem lembrar a mitologia irlandesa:

Ad-beraid, imorro, aroile do seanchaidib conid a n-dluim ciach tistais Tuatha De Danann i n-Erind. Ocus ni h-ead on, acht a longaib na morloinges tangadar, ocus ro loiscsed a longa uili iar tuidecht i n-Erind. Ocus is don dluim ciach bai dib side, at-dubradar aroile conid a n-dluim chiach tangadar. Ocus ni h-ead iar fir . Ar is iad so da fhochaind ara r’ loiscsead a longa na r’ fhagbaidis fine Fomra iad do fodail forro, ocus na ro thisad Lug do cosnum rigi fri Nuagaid.

“Entretanto, alguns dos historiadores dizem que as Tuatha Dé Danann chegaram a Ériu em uma nuvem de névoa. Mas isso não foi assim, pois elas vieram numa grande frota de navios e, depois de chegarem a Ériu, queimaram todas as suas naus. E, pela nuvem de fumaça que delas subiu, disseram alguns que elas chegaram em uma nuvem de névoa. Isso, porém, não é verdade, pois houve duas razões para que queimassem seus barcos: para que a raça dos Fomoráig não pudesse encontrá-las para fazer pilhagem e para que Lugh não pudesse vir combater Nuada pela soberania.” (Tuath De Danand na set soim, “As Quatro Jóias dos Tuatha Dé Danann”)

Aparentemente, Agobardo esbarrou em uma sobrevivência popular da antiga religião céltica. Os conhecedores das lendas irlandesas não terão dificuldade em descobrir outros pontos de semelhança entre essa peculiar crença dos gauleses medievais e as opiniões dos gaélicos sobre seus deuses ancestrais.

Bellouesus /|\

Sobre Traduções

A maioria das traduções de textos mitológicos e religiosos antigos infelizmente não é feita por pessoas qualificadas a compreender o seu sentido esotérico.

Por exemplo, uma palavra que o budismo frequentemente emprega para meditação é bhavana e muitos que traduzem os textos do cânon páli interpretam-na simplesmente como meditação, sem maiores comentários. Mas bhavana tem um sentido mais abrangente, ela se refere a cultivar. O processo da meditação não se encerra quando o praticante levanta da almofada ou da esteira, ele prossegue em todos os momentos, devendo a mente receber a mesma atenção constante que recebe a terra do camponês que a cultiva. É isso que indica o termo bhavana.

Essa inépcia é particularmente verdadeira no caso dos textos célticos. Na época em que os mitos foram registrados, muitas das tradições descritas já eram lembradas apenas pela metade ou conhecidas somente através de fontes literárias mais antigas que não chegaram à presente época. Uma grande parte dos manuscritos está incompleta, muitos dos que estão completos foram obra de escribas que não davam muita importância à ortografia ou à clareza do texto ou que talvez nem compreendessem o que estavam copiando, caso não fossem eles mesmos os autores. É uma situação bem difícil para nós, que estamos na outra ponta da linha…

Por isso, na minha opinião, uma das principais áreas de estudo dos interessados numa cultura antiga deve ser o estudo da língua em que essa cultura se desenvolveu. Isso evita que você tenha de depositar sua confiança em traduções malfeitas e/ou tendenciosas. É um estudo nem sempre fácil, mas vale a pena sem dúvida.

Como diz o ditado gaélico, tír gan teanga, tír gan anam (terra sem língua, terra sem alma).

Bellouesus /|\

belo-, bello-, ‘forte, poderoso’

belo-, bello-, ‘forte, poderoso’

Termos e tema frequente em NP [‘noms de personne’, nomes pessoais, teo-/antropônimos]: Belinos, Belinicos, Belisama, Bellus, Bellona, Bello-gnati, Bello-rix, Bello-uacus, Bello-uaedius, Bello-uesus, H1 384-95, KGP 147, RDG 28. Os NR [noms de rivière, nomes de rio, hidrônimos] Bienne e Biel (Suiça) remontam a *Belenâ. A forma Belisama mostra que se relaciona a um superlativo de um tema belo- ou beli-, do qual bello- seria a forma hipocorística. O fato de que Belenos seria, segundo a interpretação romana, o Apolo gaulês, divindade ‘solar’, levou a que essa designação fosse compreendida como ‘o luminoso, o brilhante’, cf., p. ex., de Vries 45: “O Apolo gaulês, possui, igualmente, estreitas ligações com o sol; seu epíteto Belenus seria o bastante para indicá-lo”. Faz-se a seguinte interpretação etimológica pelas raízes i.-e. [indo-europeias] imaginárias *gwel- ‘brilhar’ (há um ^gwelH- ‘queimar’, “nicht ganz sicher” [não muito seguro] no LIV 151, sânscrito jválati) ou o incerto *bhal: grego phálos ‘branco’, armênio bal ‘palidez’, sânscrito balâkâ ‘guindaste’, gótico bala ‘ cinzento’, letão báltas, ‘branco, eslavo antigo belo ‘id.’, que pressupõem, em todo caso, uma raiz *bhêl- / “bhel- [*bheh1l- * bhh1l-] ou, graças à magia das “laringeais” com metátese *bhelH- (Stübr 120), mas não *bhel-; portanto, a raiz significa de modo constante ‘branco, cinzento, pálido, porém não ‘brilhante’; veja-se o apanhado de Pokorny IEW 118-19. O provençal belé, belet ‘relâmpago’, FEW 1, 322, não é o bastante para criar-se uma palavra gaulesa. Sem dúvida por causa da geminação, K. H. Schmidt, KGP 147, terá visto em bello- uma forma curta de belatu-, o que me parece muito improvável.

Como se deve partir de uma base belo- ou beli-, segundo implicam os derivados Belinos, Belisama, parece-me preferível, por razões estritamente linguísticas, aproximá-la da raiz belo-, ‘força, forte’: sânscrito bálîyân, ‘mais forte’, bálisthah ‘o mais forte’ (=balisamo- com a divisão dialetal regular do dufixo do superlativo, Porzig 99), grego beltíôn, béltistos ‘melhor, mais’ (por *belíôn, bélistos), latim dê-bilis ‘baixo’, eslavo antigo boljiji ‘maior’, IEW 96, palavra que em geral serve para assegurar a existência do fonema b- em indo-europeu, Mayrhofer Idg. Gramm. I/2, 99. Assim, a designação Belisama deve ser compreendida como ‘A Muito Poderosa’ e não como ‘A Muito Brilhante’, Belinos ‘O Senhor do Poder’ (Bellona é, entre os Insubrii e os Scordisci, uma deusa da guerra, A. Reinach RC 34 [1913], 255, teônimo latino?) e Bello-uesus seria um composto dvandva + ou – ‘Forte e Bom’.

Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. 2 ed., Errance, Paris, 2003, p. 72.

Tradução: Bellouesus /|\

Belenos e Beltane

Dois textos que contribuem para a compreensão de Belenos e do Beltane.

1 – Belenuntia, “meimendro, apolinária”

Registrada pelo pseudo-Dioscórides (4.68): “hyosky´amos … Gálloi belenoúntian” e pelo pseudo-Apuleio. Deriva provavelmente de Belenos, o Apolo gaulês que é um deus curador, exatamente como em latim “apollinaris” designa o meimendro (en francês “herbe de Sainte Apolline” [“erva de Santa Apolônia”]). O pseudo-Aristóteles (“De plantis”, 7.821) cita a palavra “belenion” como uma planta venenosa, que poderia ser uma palavra gaulesa e que parece ainda existir no espanhol “beleño”, “meimendro”, ML no. 1022. Trata-se de uma planta tóxica com efeitos alucinógenos utilizada desde a mais alta Antiguidade, bem como na Idade Média, quando era considerada a planta da feitiçaria por excelência. Encontra-se a mesma raiz para designar o meimendro em germânico e eslavo: alto alemão antigo “bilisa” (alemão moderno “Bilsenkraut”), baixo alemão antigo “bilina”, anglo-saxão “beolone”, russo “belená”, polonês “bielun´, etc. Edgar Plomé, JIES, vol. 18, 3-4 (1990), 334-35, vê nessa palavra um termo do substrato pré-indo-europeu do norte da Europa. LEW I 99, J. André, “Noms de plantes gaulois”, P. Schijver ZcPh 51 (1999), 17-45.

Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. Errance, Paris, 2003, p. 71 (minha tradução).

Meimendro negro: Hyosciamus niger, black henbane, beleño negro, hierba loca, jusquiame noire, herba Apollinaris (erva de Apolo), belenuntia, belenion.

Quem quiser pesquisar o uso do meimendro negro nas culturas antigas, do Egito à China, passando por Babilônia e Grécia, não encontrará grandes dificuldades.

Apolo é o patrono divino da medicina, assim como da profecia, portanto um “iluminador”. A mesma posição ocupava Belenos entre os gauleses: iluminador, não necessariamente solar (entender iluminador como igual a solar é simplificação), e também curador. Novamente como Apolo, talvez por meio sonhos, visões e peregrinações espirituais. Que papel poderia desempenhar a erva belenuntia nesse processo?

2 – Belltaine .i. beil-tine .i. tene bil .i. da tene soinmech dognitis na draithe co tincetlaib moraib foraib 7 doberdis na cetra etarro ar tedmanduib cecha bliadna.

Belltaine, isto é, beil-tine, isto é, fogo [tene] afortunado [bil], isto é, dois fogos que os druidas costumavam fazer com grandes encantamentos e costumavam trazer o gado, [como proteção] contra as doenças de cada ano, a esses fogos.

Sanais Cormaic, “Glossário de Cormac” (versão do Leabhar Buidhe Lecain, “Livro Amarelo de Lecan”) (idem)

Os fogos de Beltane não eram fogos de fertilidade. Eram fogos de purificação (dos miasmas da estação escura, período em que o gado esteve aprisionado) e de proteção (contra quaisquer enfermidades que a estação luminosa pudesse trazer).

Bellouesus /|\