Anotações Druídicas I

048Anotações Druídicas I

A posição social dos druidas comparada à dos ἱερῆες homéricos ou onde estão os bardos e vates?

Bellou̯esus Īsarnos

Existia, no mundo céltico e no mundo homérico, uma espécie de “burguesia”, uma categoria de homens que ocupavam um lugar intermediário entre os proprietários ricos – na Gália, os cavaleiros, *epates (latim equites) – e os proletários, simples trabalhadores. Essa burguesia compreendia os adivinhos, μάντεις, mánteis (gaulês *u̯ātīs, *u̯elētes), os ἀοιδόι, aóidoi, ou bardos (*bardoi), os médicos, os operários cujo ofício exigisse um aprendizado, tais como os carpinteiros, os ferreiros, os esmaltadores. Na Irlanda e na Gália, incluía-se nessa burguesia o soldado profissional, que era desconhecido de Homero; entretanto, o comerciante não integrava a burguesia nem na Gália independente nem na Irlanda épica nem entre os helenos da “Ilíada” e da “Odisseia”.

O druida, proveniente da Grã-Bretanha em época mais recente (dando-se crédito a César [1]), não se posicionou nessa burguesia; elevou-se acima dela e, novamente segundo o general romano, atingiu quase o mesmo nível dos cavaleiros. A informação trazida por César está de acordo com a literatura épica da Irlanda.

Os druidas eram homens de posição muito superior à dos sacerdotes, ἱερῆες (hierēes), da “Ilíada”. Estes formavam um grupo à parte, distinto simultaneamente da burguesia e da aristocracia, porém sem grande influência; encontramos o equivalente na Gália Cisalpina no relato sobre o ano 216 aEC, na menção aos templi antistites que, entre os boios, bebiam no cálice feito do crânio do cônsul romano Lucius Posthumius (2); eram simplesmente os ministros de um templo, como o ἱερεύς (hieréus) homérico.

Abaixo dos druidas, os u̯ātīs e os bardoi ocupavam lugar análogo ao dos adivinhos, μάντεις, mánteis e ἀοιδόι, aoidói, na literatura homérica, onde a posição dos μάντεις era intermediária entre a aristocracia e a plebe, isto é, entre os ἄριστοι, áristoi, e os homens do povo, δῆμος, dēmos. Em Homero, formavam duas classes do importante grupo dos operários possuidores de um ofício que necessitasse de longo aprendizado e que, não possuindo fortuna própria, viviam de oferecer os seus serviços ao público, δημιοεργοί, dēmioergói. Tais operários, nos poemas homéricos, dividiam-se em cinco classes: 1a., os adivinhos; 2a. os homens que trabalham a madeira, os metais, a pedra, τέκτονες, téktones; 3a. os médicos; 4a. os aedos e 5a. os arautos (3).

César lançou na plebe gaulesa todo esse grupo de profissionais; não lhe era possível integrá-los às duas classes superiores: 1a. cavaleiros, equites; 2a. sacerdotes ou druidas, que, passado o período romano, reaparecem ambas na Idade Média (como nobreza guerreira e “príncipes” da Igreja Católica). César não concebia uma categoria intermediária entre a plebe e essa aristocracia meio militar, meio religiosa. Sendo ele próprio membro da aristocracia romana e pontífice, podia entender a posição do cavaleiro e do druida gauleses; para a “burguesia” gaulesa, entretanto, não tinha senão desprezo.

Há uma passagem de um dos livros perdidos de Posidônio de Apameia (c. 135 aEC – c. 51 EC) que justifica, de certo modo, a atitude de César ao menos em relação aos bardos: Louernius, pai do rei Bituitos, ofereceu ouro e um banquete público que durou vários dias a fim de ganhar o favor do povo. Certo bardo, chegando tarde para aproveitar a generosidade de Louernius, cantou um poema em que louvava a grandeza deste e se lamentava por seu atraso. Encantado, enquanto partia em sua carruagem, Louernius jogou ao bardo uma bolsa cheia de ouro. O poeta seguiu correndo ao lado do veículo a entoar louvores às marcas deixadas pelas rodas que “traziam áureos benefícios aos homens” (4).

Mais tarde, Bituitos, então rei dos alóbroges, enviou uma embaixada aos salúvios . Um bardo fazia parte do cortejo que acompanhou o embaixador, tendo como função cantar louvores ao rei Bituitos, aos alóbroges e ao embaixador, cujo nobre nascimento, bravura e riqueza elogiava ao acompanhamento da lira (6). Posidônio também descreveu os bardos como “companheiros de mesa e parasitas (isto é, aduladores) dos reis” (7). Assim, é compreensível que um “grande senhor” como César tenha relegado os bardos à plebe comum e não se tenha dignado a falar deles.

A respeito dos adivinhos, silêncio. Ficamos reduzidos às informações que nos foram prestadas pelos autores gregos, isto é, Diodoro Sículo, Timagenes e Estrabão. De acordo com Diodoros, todo o povo obedecia aos adivinhos (8). Para Estrabão, todas as tribos gaulesas reconheciam a honravam excepcionalmente três grupos de homens: os bardos, os vates e os druidas. Os bardos, cantores de hinos e poetas; os vates, que fazem sacrifícios e interpretam a natureza para adivinhar o futuro, e os druidas, que se ocupam da interpretação da natureza com idêntica finalidade e também com a filosofia moral (9). Dessa filosofia moral pouco se sabe. Diógenes Laércio, contudo, preservou um dos aforismos druídicos: “Quanto aos Gimnosofistas e aos Druidas, dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, abster-se de fazer o mal e praticar a bravura” (10). Os druidas, graças a sua reputação de “os mais justos dos homens” (Estrabão), chegaram a inspirar nas tribos uma tal confiança na equidade dos seus pareceres que o julgamento de todos os processos públicos e privados, sobretudo os casos de homicídio, era frequentemente entregue ao seu julgamento.

Se o testemunho de César fosse aceito literalmente, os druidas teriam julgado todos os processos (11). Existe nesse ponto, contudo, um exagero que fica evidente à simples leitura dos “Comentários”. Certas disputas entre os gauleses mencionadas em “Sobre a Guerra da Gália” não são julgadas pelos druidas, mas pelas assembleias tribais ou por magistrados eleitos. A verdade a esse respeito encontra-se em Diodoro, que reproduz com mais fidelidade o texto de Posidônio: “Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens [os druidas] e a seus poetas cantores [os bardos] e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; frequentemente, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas” (12). Observe-se a presença do advérbio “frequentemente” (πολλάκις, pollákis, no original) indicando que a arbitragem druídica não se dava em todos os casos, mas de forma recorrente. Desse modo, percebemos que os druidas gauleses possuíam uma grande influência política, embora não fossem homens de guerra, como os cavaleiros. Essa é a principal causa para a proeminência que César lhes atribuiu no Livro VI dos “Comentários”, totalmente desconsiderando bardos e vates.

Outrossim, já vimos que havia certa sobreposição entre as funções dos vates e as dos druidas. Na verdade, a ascendência moral dos druidas tornou-os indispensáveis à comunicação com os deuses por meio dos ritos sacrificiais, como ensinou Diodoro (13). A influência política e o poder religioso dos druidas permitiram a César (e a seus leitores) equipará-los aos pontífices, funcionários da mais alta importância para o estado romano e entre os quais o próprio César tinha lugar (14). É compreensível que tenham chamado especialmente a atenção do general romano.

Havia na Gália uma regra que teria contribuído muito para dar aos druidas a influência poderosa de que desfrutavam em detrimento dos u̯ātīs ou u̯elētes. Admitiu-se o princípio de que era impossível a realização de um sacrifício sem o concurso dos druidas. Essa parece ter sido uma lei absoluta, ainda que César nos fale somente da parte que ligava os druidas aos sacrifícios humanos (15). A consequência dessa lei era a impossibilidade, para os u̯ātīs, de proceder à divinação pelo sacrifício sem a cooperação dos druidas, o que os colocaria em posição de dependência destes quando se recorresse ao modo de divinação que parece ter sido o mais importante na Gália, a divinação pelo sacrifício humano. Eis, novamente, a razão pela qual César considerou os adivinhos gauleses como algo sem importância e deles não se ocupou.

A necessidade da intervenção dos druidas para a validade dos sacrifícios parece indicar que eram sobretudo sacerdotes. Apesar disso, seria grave equívoco igualar o druida gaulês ao ἱερεύς homérico.

O ἱερεύς homérico adivinha o futuro como o μάντις. Visto desse modo, assemelha-se ao druida, que adivinha o futuro como o u̯elēđ. Mas o ἱερεύς não está associado a uma corporação, como estavam os druidas. Ele liga-se a um templo, consagrado a uma divindade especial, e o ἱερεύς tem por única função o cuidado desse templo e o culto que nele recebe o deus. Assim aparece no Canto I da “Ilíada” o sacerdote de Apolo, Crises, cuja filha Agamênon captura e que vem a ser restituída graças à proteção do deus de que o sacerdote é servidor. No Canto V do mesmo poema, surge Dares, sacerdote de Hefesto, que tem dois filhos. Um destes é morto pelo heroi grego Diômedes; o outro escapa, evitando, pela proteção de Hefesto, a morte que Diômedes lhe daria. Hefesto desejava poupar ao velho pai o pesar doloroso que lhe causaria a perda dos dois filhos.

Na Grécia homérica, os ἱερῆες podiam auferir vantagens econômicas do seu ofício (16), o mesmo aplicando-se aos druidas da Gália, que, para começar, estavam isentos do serviço militar e do pagamento de quaisquer obrigações tributárias (17). Todavia, o ἱερεύς não ocupava a mesma posição de importância que o druida. A sua intervenção não era necessária à regularidade dos sacrifícios. Nenhum sacerdote intervém nos sacrifícios oferecidos pelos gregos. O exército grego não contava com capelães. É o rei supremo, Agamênon, que, antes da primeira batalha, oferece em sacrifício ao todo-poderoso filho de Cronos um boi gordo de cinco anos; é ele que, acompanhado de outros sete reis, dirige uma prece solene em nome das tropas ao grande Zeus. Nessa época, cada guerreiro em particular fazia, por seu interesse pessoal, um sacrifício ao deus pelo qual tivesse especial devoção. Quando se celebrou entre troianos e gregos um tratado que previa a solução do conflito entre as duas nações a um combate singular entre Páris e Menelau, foi mais uma vez Agamênon que, cercado por outros reis, invocou Zeus e cortou as gargantas dos cordeiros sacrificiais.

Da mesma forma, em Roma, sob a realeza, o soberano era o primeiro-ministro da religião e, ao mesmo tempo, o primeiro magistrado do estado. Ainda depois da queda da monarquia, o respeito ao rito primitivo conservou o título de rex sacrorum ou rex sacrificiorum (“rei dos sacrifícios”).

Vemos assim que, entre os gregos homéricos bem como entre os romanos do período mais antigo, a autoridade política do soberano misturava-se à autoridade religiosa. Para os gregos, à figura e atuação do ofício sacerdotal exclusivo faltava o peso da força política, ao passo que, para os gauleses, com a autoridade política e religiosa separadas, o ato sacrificial não poderia ser realizado senão pelo u̯ātīs com a participação do druida, ficando vedada a sua prática válida pelo magistrado supremo, fosse este hereditário ou eleito.

Cabia ao druida decidir quem poderia se comunicar com os deuses, sendo essa uma das principais fontes do seu poder.

Notas

1) Caio Júlio César (100 aEC – 44 aEC), Commentarii de Bello Gallico, VI, 13.

2) Tito Lívio (c. 59 aEC — 17 EC), Ab Vrbe Condita Libri, XXIII, 24: Ibi Postumius omni ui ne caperetur dimicans occubuit. Spolia corporis caputque praecisum ducis Boii ouantes templo quod sanctissimum est apud eos intulere. Purgato inde capite, ut mos iis est, caluam auro caelauere, idque sacrum uas iis erat quo sollemnibus libarent poculumque idem sacerdoti esset ac templi antistitibus (ali Posthumius caiu, lutando com toda a sua força para não ser capturado. Os boios cortaram a sua cabeça, e carregaram-na e aos espólios que roubaram de seu corpo em triunfo ao mais sagrado templo que possuíam. Depois disso, limparam a cabeça de acordo com seu costume e, tendo coberto o crânio com ouro batido, usaram-no como cálice para libações em seus festivais solenes e taça de beber para seus altos sacerdotes e outros ministros do templo).

3) Homero, Odisseia, XVII, 383-385: […] ἄλλον γ᾽, εἰ μὴ τῶν οἳ δημιοεργοὶ ἔασι, / μάντιν ἢ ἰητῆρα κακῶν ἢ τέκτονα δούρων, / ἢ καὶ θέσπιν ἀοιδόν, ὅ κεν τέρπῃσιν ἀείδων; ([…] a menos que seja um daqueles que são mestres de algum ofício público, / um profeta, ou um curador de enfermidades, ou um construtor, / sim, ou um sublime intérprete, que oferece deleite com o seu cantar?).

4) Citado por Ateneu de Náucratis, Deipnosophistaí, L. IV, 152e.

5) No ano 121 aEC.

6) Apiano de Alexandria (c. 95 – c. 165 EC), Fragmenta de Rebus Gallicis, XII.

7) Diodoro Sículo (séc. I a EC), Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes.

8) Estrabão (64/63 aEC – 24 EC), Geōgraphiká, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objeto de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas; Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza; Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas.

9) Diógenes Laércio (séc. III d. C.), Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton, I, 6.

10) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 13: Sem dúvida, os Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer homicídio foi feito, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições.

11) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 13: Sem dúvida, os Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer homicídio foi feito, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições.

12) Diodoro Sículo, Bibliotheca Historica, V, 31.

13) Diodoro Sículo, Bibliotheca Historica, V, 31: […] e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um “filósofo” [isto é, um druida], pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens que, pensam eles, do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas […]

14) César deteve a posição de Pontífice Máximo de Roma de 63 aEC até a sua morte, 19 anos mais tarde.

15) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 16: Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então lhes põem fogo, perecendo todos nas chamas. Acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses, mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

16) V. Odisseia, IX, 193-205; 346-396, onde se mencionam as riquezas de Marão, sacerdote de Apolo.

17) César, Comentarii de Bello Gallico, VI, 14.

 

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Então você acha que os deuses não mudam?

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Então você acha que os deuses não mudam?

Bellou̯esus Īsarnos

Aos 19 anos eu tinha muitas certezas. Acreditava que qualquer descontrole era desprezível, que não sorrir e não chorar eram sinais de força interior. Que todas as coisas eram totalmente brancas ou unicamente pretas, sem nenhum matiz possível. Se Amy Winehouse tivesse morrido quando eu estava com 19 anos, sem dúvida nenhuma isto passaria pela minha cabeça: “Bêbada e viciada, esse fim foi o que ela buscou… e encontrou”.

Aos 19 anos eu acreditava em coisas imutáveis. O supra-sumo da imutabilidade, claro, eram os deuses. Impassíveis, inalteráveis, imunes a qualquer inquietação, desconhecedores de toda ansiedade ou preocupação, a existência dos deuses, pensava eu, era paralela à transitoriedade humana, paralela e sem possibilidade de convergência. Isso eu disse durante anos para mim mesmo e para quem mais quisesse ouvir.

Pois bem, descobri que as coisas não se passam desse modo. Os deuses não são imutáveis. Como cheguei a esse conhecimento? As duas senhoras que estão ali em cima deram-se ao trabalho de me informar. Sem grandes explicações, porém de forma a não deixar dúvidas quanto à essência da mensagem: os deuses não são imutáveis. Elas vieram num sonho do qual me lembro em detalhes, embora quase duas décadas tenham se passado desde então.

Nesse sonho, entrei em uma loja. Era um lugar altamente tecnológico e automatizado, com atendentes robôs em forma de pequenas esferas com braços. Havia uma multidão de fregueses ensandecidos, todos falando ao mesmo tempo – talvez fosse dia de liquidação – e era muito óbvio que os robozinhos não estavam conseguindo suprir a demanda. A confusão era uma coisa lamentável. Naquele momento, pensei algo como: “Que lástima, tanto tecnologia e os velhos problemas de sempre”.

Atravessei a loja até o fundo e encontrei ali, meio escondida entre prateleiras e mostradores, uma porta de madeira que abri. Era totalmente outro mundo o que essa passagem escondia. Em muitos sentidos, um mundo bem mais familiar.

Uma cidade meio arruinada, com ruas calçadas de pedra, colunas quebradas, deserta exceto pelas sombras do próprio passado. Andei durante algum tempo, reconheci dos livros a paisagem e, com a lógica própria dos sonhos, somente achei um pouco estranho que Pompeia, a cidade sepultada pelo Vesúvio no ano 79 E. C., estivesse no quintal de um shopping center.

Havia um banco de pedra junto a uma parede com um larário bem conservado e uma fonte. Pela posição do sol, já era o meio da tarde de um dia bastante quente. Sentei para descansar e pensei em procurar uma taberna. “Será que eles têm uma Coca bem gelada? Claro que sim. Isso tem em toda parte. Como se pede Coca-Cola em latim? Cocam habesne?” A lógica dos sonhos.

Enquanto devaneava sobre a possibilidade de encontrar o máximo símbolo do capitalismo em uma cidade romana de 2.000 anos, escutei o som de pessoas se aproximando. Vinham pela rua duas mulheres fazendo cooper. Uma delas, a mais velha, loira e robusta, com uma coroa de espigas de trigo na cabeça, uma camiseta branca com uma serpente estampada, calça de moleton e tênis. A outra, uma moça de cabelo escuro, bonita mas de rosto fino e pálido, a cabeça enfeitada com papoulas, uma romã aberta na camiseta preta e uma bermuda de lycra da mesma cor. Reconheci ambas intuitivamente: Deméter e Perséfone. Decepcionado com a situação e com o figurino (acho que mais com o figurino), virei o rosto para o lado e afetei não ter visto nada. Um jornal apareceu nas minhas mãos e fingi que estava lendo.

Quem já passou por um terremoto sabe o quanto é surpreendente a sensação do tremor. Estamos acostumados a ter a terra sob nossos pés, sempre quieta e estável. Quando a terra se mexe e se abre, é como se a ordem da natureza se rompesse da forma mais absurda. A voz das deusas era assim, como um terremoto. Um tremor desde a primeira sílaba, um cataclisma no meio da frase, a conflagração total dos elementos no ponto final. “Ge:s paî kaì ouránou aste:roentos” (“ó filho da terra e do céu estrelado”), ela chamou. No final da primeira palavra, eu já estava encolhido no chão com o jornal na cabeça. Tive a ousadia de olhar e vi que as duas fundiam-se em uma só, dando razão aos antigos que afirmavam serem Deméter e Perséfone a mesma divindade. Dizer como era esse rosto está além da minha capacidade.

“Então você acha que os deuses não mudam?”, ela me perguntou diretamente. Tomado de pavor e quase engolindo minha língua, eu não conseguia fazer nada além de tentar enterrar a cabeça no chão. “VOCÊ ACHA?”, ela insistiu. “Não, senhora”, eu disse, já imaginando qual seria meu lugar no Hades. Ela riu um riso de tsunami, uma risada de vento e onda, pegou a serpente da camiseta e lançou contra mim.

Apenas duas vezes em minha vida acordei gritando. Essa foi a primeira. Deméter/Perséfone não me deu nenhuma grande explicação teórica, nenhum arrazoado que possa ser colocado em palavras e transformado em tese. Ela me proporcionou uma epifania e deu a entender que os deuses mudam e por algum motivo é importante não pensar o contrário.

É um erro fazer afirmações categóricas sobre os deuses e pretender que se encaixem em nossas teorias. É um erro colocar a vida dentro de um modelo pré-concebido. Se a vida for maior do que o modelo, o que você vai fazer? Cortar partes dela para que o resto caiba na caixa?

Quando Amy Winehouse morreu, eu pensei: “Que pena. Era talentosa, mesmo com tantos problemas. Vai ficar pra outra vez.”

O Politeísmo Naturalista na Religião Gaulesa

naturalista

O Politeísmo Naturalista na Religião Gaulesa

G. Roth e F. Guirand
Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

p. 203

Politeístas como todos os primitivos (1), os gauleses veneravam principalmente divindades tópicas (isto é, ligadas a um local determinado) ou regionais.

O Culto das Águas

Os lugares elevados, os picos dos montes, eram por eles divinizados. O pico do Ger (Garrus deus), nos Baixos Pirineus, permaneceu nessa condição até o fim da dominação romana, enquanto os outros picos desceram pouco a pouco da posição de deuses para a de moradas de deuses. Por exemplo, Dumias, nome do deus tutelar de Puy de Dôme, acabou por tornar-se um simples epíteto ligado a Mercurius, cujo templo e estátua localizavam-se nesse cume.

Contudo, a religião naturalista dos gauleses aparece mais destacadamente no culto das águas (rios, poços, fontes). Diva, Deva, Divona, “a Divina” era uma designação frequente dos rios gauleses, o que ainda testemunham seus nomes atuais: Dive, Divone, Deheune. Nemausus, deus tutelar da cidade de Nîmes, era o gênio de sua fonte; Icaunus, o de Yonne, etc. Numerosos eram os gauleses da Bélgica que se orgulhavam do nome Rhenogenus, “filho do Reno”. Borvo, Bormo ou Bormanus (“o Borbulhante”), deus das fontes termais, deu seu nome a muitas de nossas estações onde jorram águas quentes: La Bourboule, Bourbonne, Bourbon-Lancy ou L’Archambault.

naturalista2A mais característica dessas divindades era a deusa Epona. vista sempre acompanhada de um cavalo, com o qual forma um grupo inseparável. Na maioria das vezes, ela está sentada de lado em sua montaria. Envolta em um manto drapeado e adornada com um diadema, seus atributos são um corno da abundância, uma pátera e frutos. É, portanto, a deusa da abundância agrícola. Contudo, não é a água que traz fertilidade ao solo? Com efeito, Epona é uma divindade das águas, exata correspondente da fonte Hipocrene. Seus dois nomes equivalem [ao grego] (epos, ona = hippos, krêne) e significam “fonte equina” (2). Quanto à presença do cavalo ao lado dessa deusa, é suficiente recordar o lugar que esse animal possui na lenda de Posêidon.

Muito popular na Gália, como o atestam as numerosas representações de Epona que foram conservadas, seu culto foi posteriormente importado pela Itália e pela própria Roma. Seu significado primitivo, no entanto, foi esquecido. Epona tornou-se a deusa protetora dos cavalos; é por isso que se colocavam suas imagens nos estábulos.

Culto das Árvores

As águas fecundam as florestas. Também os gauleses não esqueceram de adorar as árvores e bosques. Vosegus foi o deus tutelar dos “Vosges” silvestres; Arduina, a ninfa das “Ardennes”; Ardnoba, a da Floresta Negra.

Na região dos Pirineus, muitas inscrições latinas dão-nos a conhecer os deuses-árvores: Robur (o carvalho-branco), Fagus (a faia), Tres Arbores (Trois-Arbres [três árvores]), Sex Arbores (Six-Arbres [seis árvores]), Abellio (a macieira; cf. apple, apfel nos idiomas germânicos), Buxenus (o buxo).

naturalista3Respeitado em toda a Gália, o carvalho pôde ser considerado por certos cronistas como o deus supremo dos gauleses. “É nos bosques de carvalhos que que os druidas têm seus santuários”, assegura-nos Plínio, o Antigo (História Natural, XVI, 249), “e não realizam qualquer rito sagrado sem as folhas do carvalho. Acreditam que a presença do visco revela a presença do deus sobre a árvore que o porta… Colhem-no com grande cerimônia. Depois de ter sacrificado dois touros brancos, um sacerdote, vestido com uma túnica branca, sobe na árvore e corta com uma foice áurea o visco, que será recolhido em um manto branco.”

A veneração dessa planta deixou traços em nossos costumes (2). Muitas pessoas consideram-na, sincera ou jocosamente, como um amuleto de boa sorte. E a força dessa tradição é ainda mais ativa no outro lado da Mancha (4).

Culto dos Animais

Os gauleses igualmente adoravam

p. 204

diversos animais. Cavalo, corvo, touro e javali eram animais sagrados que deram seus nomes a certas cidades (Tarvisium, Lugudunum [de lugus, “corvo”]) ou tribos (Taurisci, Brannovices, Eburones) e dos quais encontramos muitas representações em moedas e baixos-relevos. Nas Ardennes venerava-se o javali; os helvécios das proximidades de Berne adoravam a deusa Artio (= “a ursa”), na qual seria talvez ousado enxergar a equivalente da Ártemis grega.

naturalista4Vê-se no museu de Avignon, sob a denominação de “monstro de Noves”, um urso sentado sobre as patas traseiras; com suas mandíbulas esmaga um braço humano e cada uma de suas patas dianteiras repousa sobre uma cabeça humana. Concorda-se em reconhecer nesse monstro devorador algum ídolo primitivo.

No número dos deuses zoomórficos podem-se classificar também as serpentes com cabeça de carneiro que aparecem em diversos monumentos. Estão geralmente ligadas a um deus que as agarra pelo pescoço ou as mantém nos joelhos. Essa última postura parece afastar a ideia de uma luta entre o deus e as serpentes. Deve-se, portanto, vê-las como divindades ctônicas. O mesmo aplica-se à serpente chifruda que aparece ao lado do Mercúrio gaulês.

Entre os animais divinizados, o que parece ter sido objeto de um culto bastante difundido é o touro. O fato nada possui de surpreendente, sendo esse animal o símbolo da força e do poder gerador e tendo sido divinizado de forma semelhante em outras mitologias. Pensemos, por exemplo, no touro cretense. O touro gaulês, porém, apresenta-se com certas peculiaridades assaz curiosas.

nocoes4Em um altar galo-romano exumado do solo de Paris está esculpido um touro em pé próximo de uma árvore; ele traz duas garças no dorso e uma na cabeça; é o Tarvos Trigaranus (“Touro com as Três Garças”). Questiona-se qual poderia ser o significado das três garças associadas ao touro. É verdade que esses mesmos pássaros encontram-se nos relevos do arco do triunfo de Orange e surgem repetidamente nos relatos da epopeia irlandesa. Não obstante, ao nos recordarmos de que há na mitologia gaulesa um deus tricéfalo – a que posteriormente nos referiremos – e que, por outro lado, possuímos figuras de touros com três chifres, pensou-se que o epíteto trigaranus não seria mais que uma deformação de trikaranos, com três cabeças, e que o touro primitivamente adorado seria um touro tricéfalo, relacionado ao deus tricéfalo Cernunnos.

naturalista5

Fonte: Guirand, Félix (direction). Mythologie Générale. Librairie Larousse. Paris (VIe.). 13 a 21, Rue Montparnasse, et Boulevard Raspail, 14. 1935. pp. 203-204.

Notas:

(1) O texto, embora útil, é sob alguns aspectos bastante datado. Igualar “politeísmo” a “primitivismo” é somente um deles (Nota do Tradutor).

(2) Quando esse texto foi escrito, era bem menor do que hoje o conhecimento da antiga língua gaulesa. Sabe-se agora que o sufixo -(o)n- (também encontrado nos nomes de outros deuses, como Map-o-n-os, Vind-o-n-os, Rigant-o-n-a) é um aumentativo que significa “grande e divino”. Assim, Epona significa não “fonte [ona] do cavalo [epos]” (a tradução da Hippokrene grega), mas “a grande égua divina”. Talvez o entendimento do autor deva-se à lembrança da palavra “onno” do Glossário de Endlicher, que o escriba medieval traduz pelo latim flumen, i. e., “rio” (Nota do Tradutor).

(3) Entenda-se: dos franceses (Nota do Tradutor).

(4) Isto é, nas Ilhas Britânicas (Nota do Tradutor).

Ecos do Paganismo Popular na Alta Idade Média

 

ecos

Ecos do Paganismo Popular na Alta Idade Média

Bellou̯esus Īsarnos

Texto 1

Algumas observâncias da religião popular na Galícia do séc. VI d. C.

Martinus Dumiensis (ca. 515 – 579/80), De Correctione Rusticorum (“Sobre a Correção dos Campônios”).

I. Determinadas árvores eram objeto de especial veneração, pois se acreditava fossem habitadas por espíritos benignos.
II. Jogar pão nas fontes (para aliviar doenças, aumentar a fertilidade?).
III. Reverenciar certas pedras como sagradas, nelas acendendo velas, bem como em encruzilhadas e em determinadas fontes e árvores.
IV. Murmurar encantamentos e nomes de deuses sobre ervas e fazer amarrações.
V. Oferecer frutas e vinho a um tronco de árvore (em uma lareira?).
VI. Cerimônias domésticas de purificação realizadas por especialistas.
VII. Borrifar as paredes de uma casa recém-construída com o sangue de uma ave sacrificada.
VIII. Colocar um ramo de loureiro na entrada da casa.
IX. Invocar a deusa dos ofícios durante a realização destes.
X. Encantamentos para prejudicar uma pessoa por meio de dano a algo que com ela tivesse estado em contato.
XI. Observar com que pé uma pessoa adentra um recinto e disso retirar um presságio.
XII. Retirar presságios do voo dos pássaros e de espirros.
XIII. Celebrar o primeiro dia de cada mês como sagrado para Juno.
XIV. Mulheres esperarem até a quinta-feira para casar.
XV. Recorrer à astrologia para determinar os melhores dias para iniciar a construção de uma casa, uma plantação e casar.
XVI. Começar o ano no 1º. de janeiro, venerando ratos e traças nessa ocasião e honrando os deuses com alimentos dispostos em uma mesa, para que retribuíssem com abundância no resto do ano.
XVII. Mascarar-se de animais em 1º. de janeiro.
XVIII. Venerar Mercúrio na quarta-feira e fazer pilhas de pedras nas encruzilhadas, lançando uma pedra a cada vez que se passa pelo local, e dedicando-as a Mercúrio.
XIX. Adorar os espíritos do mar, fontes e florestas.
XX. Não trabalhar na quinta-feira em honra a Júpiter.

Texto 2

Indiculum Superstitionum et Paganiarum (“Pequeno Índice das Superstições e Práticas Pagãs”)

É uma coleção de capitulares (atos administrativos e legislativos emanados da corte dos francos nas dinastias merovíngia e carolíngia, especialmente na época de Carlos Magno, 742/747/748 – 814; eram formalmente divididas em capitula, plural de capitulum) que identificavam e condenavam crenças pagãs no norte da Gália e entre os saxões à época de sua subjugação e conversão por Carlos Magno durante as Guerras Saxônicas (772-804).

I. Dos sacrilégios junto aos túmulos dos mortos.
II. Dos sacrilégios com relação aos mortos, isto é dadsisas (valgaldr?).
III. Dos ritos pagãos (spurcalia, “profanações”) celebrados em fevereiro.
IV. Das cabanas ou pequenos templos.
V. Dos sacrilégios nas igrejas.
VI. Dos santuários nos bosques a que chamam nimidas.
VII. Do que está sendo feito nas pedras.
VIII. Dos sacrifícios a Mercurius (Woden) ou Iuppiter (Donar).
IX. Dos serviços sacrificiais para certos entes tidos como sagrados.
X. Do uso de amuletos e ligaduras.
XI. Dos sacrifícios nas fontes.
XII. Sobre os encantamentos (galdr).
XIII. Dos augúrios ou predições pelo esterco ou espirros das aves, dos cavalos e do gado (völva ou spákona).
XIV. Dos videntes e adivinhos.
XV. Do fogo da madeira friccionada, isto é, nodfyr (need-fire).
XVI. Dos cérebros de animais.
XVII. Sobre a observação pagã do fogo ou no início de cada coisa.
XVIII. Sobre lugares duvidosos que consideram como sagrados (nemeta).
XIX. Das invocações que os bem intencionados dizem ser de Santa Maria.
XX. Das celebrações que fazem para Iuppiter (Donar) ou Mercurius (Woden).
XXI. Do eclipse da lua, que chamam uinceluna.
XXII. Das tempestades e chifres de touros e lesmas.
XXIII. Dos sulcos ao redor das herdades.
XXIV. Do costume pagão a que chamam frias (ou yrias), roupas rasgadas ou calçados.
XXV. Daqueles que consideram ser santos todos os mortos.
XXVI. Da imagem feita com farinha espalhada.
XXVII. Da imagem feita com pano.
XXVIII. Da imagem que carregam pelos campos.
XXIX. Da oferenda de mãos e pés de madeira conforme o rito pagão.
XXX. Daqueles que acreditam que as mulheres que podem encantar a lua possam tomar os corações dos homens conforme os pagãos.

Texto 3

Regínão de Prüm (morto em 915 EC), Sobre as Disciplinas aos Eclesiásticos e a Religião Cristã, II, 5. Sobre as Disciplinas é uma coleção de cânones, isto é, uma coletânea de leis e princípios jurídicos voltados à regulamentação da organização externa e do governo da Igreja Romana.

42. Deve-se inquirir se [existem na região] magos, feiticeiros, adivinhos, encantadores.

43. Se alguém fizer promessas perto de árvores, fontes, pedras como se fossem altares, se depositar uma vela ou quaisquer presentes como se fosse esse um lugar sagrado onde se pudesse determinar o bem ou o mal. Se qualquer pastor, pastor ou o caçador disser encantamentos diabólicos sobre o pão e as ervas e ligaduras ímpias, se os esconder em uma árvore ou jogá-los nas encruzilhadas, a fim de livrar os animais da doença ou destruir os do seu vizinho.

46. Se alguém bebeu sangue ou comeu algo morto e dilacerado por uma fera.

48. Se alguém tiver bebido o líquido em que uma doninha, rato ou qualquer animal impuro tenha se afogado.

51. Se alguém seguir o costume das calendas de janeiro, que é uma invenção pagã; se observar os dias, a lua, os meses, as horas e se acreditar que isso lhes trará o bem ou o mal.

52. Se alguém, começando a trabalhar, pronunciar palavras ou fizer gestos mágicos, e não, como o Apóstolo determina, fizer tudo em nome do Senhor. Não devemos invocar os demônios em nosso auxílio, mas Deus. Ao colher as ervas medicinais, deve-se dizer o Credo e a oração do Senhor, nada mais.

55. Se alguém entoar à noite canções diabólicas sobre os túmulos e parecer alegrar-se com a morte e se alguém fizer vigílias fúnebres fora da igreja.

86. É preciso conhecer as ações das irmandades e confrarias que existem na paróquia.

87. Se alguém se atrever a cantar e dançar nas proximidades das igrejas.

88. Se alguém, ao entrar na igreja, tiver o hábito de tagarelar, não ouvir atentamente as palavras divinas e deixar a igreja antes do fim da missa.

Comentário

Temos três textos:

1) o Sobre a Correção dos Campônios (práticas pagãs no noroeste da Ibéria, séc. VI);
2) o Pequeno Índice (práticas pagãs no norte da Gália e Saxônia, fim do séc. VIII);
3) o Sobre as Disciplinas (práticas pagãs e/ou tidas como desviantes na Lotaríngia, fim do séc. IX).

Comparando-os, certos elementos recorrentes podem ser pinçados:

a) veneração a certas árvores (1.1, 1.19, 2.6, 3.43);
b) veneração a certas pedras (1.3, 2.7, 3.43);
c) realização de oferendas (1.2, 1.6,3.43; pão 1.2,3.43, velas 1.3, 3.43, frutas e vinho 1.5);
d) veneração às fontes (1.2, 2.11, 3,43);
e) existência de especialistas nos ritos mágicos (1.6, 2.14, 3.42);
f) o poder dos encantamentos (1.4, magia de contato 1.10, 2.12, 3.43, 3.52);
g) observação de presságios (1.11,1.12, 2.13);
h) crença na influência dos astros (1.15, 1.18, 1.20, 3.51);
i) sacralidade do fogo (velas, letra “c”; 2.15, 2.17);
j) uso de amuletos e amarrações (1.4, 2.10);
k) relação diferenciada com os mortos (2.1, 2.2, 2.3, 2.25, 3.55). Quanto a este ponto, é interessante recordar o que Tertuliano, citando Nicandro de Cólofon, escreveu no “Sobre a Alma” (57.10): “Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones [uma tribo gaulesa] recebem oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem. Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma Nicandro”;
l) lugares de adoração fora dos padrões cristãos (1.3, 2.4, 2.6, onde nimidas é uma forma tardia do gaulês antigo nemeton; 2.18, 3.43);
m) atos sacrificiais (1.7, 2.9, 2.11; cérebros de animais 2.16, seria referência a um tipo de extispício?);
n) invocação a deidades do passado pagão (1.13, 1.18, 1.20, 2.8, 2.20, 3.52).

Esse mosaico possui razoável extensão cronológica (meados do séc. VI ao fim do séc. IX) e amplitude geográfica (do noroeste ibérico à Europa setentrional). Apesar disso, oferece de modo razoável os contornos da velha religião popular que o cristianismo lutava para substituir, ocasionalmente mantendo práticas consagradas pela tradição sob uma maquiagem cristã. Um exemplo desse expediente pode ser percebido em 3.52 (“Ao colher as ervas medicinais, deve-se dizer o Credo e a oração do Senhor”). Anteriormente, em lugar do Pater Noster, talvez o procedimento envolvesse uma prece semelhante à Precatio Omnium Herbarum (“Oração a Todas as Ervas”), ainda que menos elaborada.

Os Deuses dos Celtas Continentais

deuses1

Os Deuses dos Celtas Continentais

Marie-Louise Sjoestedt
Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

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CAPÍTULO II

OS DEUSES DOS CELTAS CONTINENTAIS

Marie-Louise Sjoestedt

Enquanto dependemos do testemunho dos celtas insulares para os mitos, para as imagens temos alguns documentos no tocante aos celtas do continente. Esses documentos são de dois tipos: textos de escritores antigos e inscrições e monumentos gauleses e galo-romanos. Os textos latinos e gregos são breves, enfáticos e sugerem concepções análogas às que são familiares em outras mitologias, sendo, portanto, tranquilizadores. As inscrições (meros nomes ou epítetos de divindades) e os monumentos (na medida em que são puramente célticos, pois devemos considerar a possibilidade de influência romana) nos dão somente alusões que não são fáceis de interpretar e lançam apenas um pouco de luz sobre um mundo de noções obscuras. Fica-se tentado a usar os textos como pontos de partida com o fito de explicar os monumentos e isso para ajustar os fragmentos do quebra-cabeça na moldura pronta que algum parágrafo de Caesar fornece. Porém, essa tentação deve ser evitada, pois é mais seguro perambular sem guia num país não mapeado do que confiar totalmente em um mapa traçado por homens que vieram só como turistas e muitas vezes com julgamento tendencioso. Desse modo, avançaremos como se jamais grego ou romano houvessem visitado um território céltico e examinaremos primeiro os documentos nativos. Estaremos então prontos para comparar nossas descobertas com o que outros escritores relataram.

O primeiro fato que nos atinge é a multiplicidade de teônimos e a escassez dos exemplos da ocorrência de cada um deles. De acordo com uma estimativa antiga, que provavelmente não está sujeita e nenhuma correção de monta, de 374

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nomes atestados nas inscrições, 305 ocorrem uma única vez (1). Os nomes mais frequentemente mencionados são os dos deuses Grannos (19 vezes) e Belenos (31 vezes) e das deusas Rosmerta (21 vezes) e Epona (26 vezes). Os nomes dos deuses gauleses são uma legião e o número não ficou explicado por esses processos paralelos de sincretismo e expansão que noutros lugares resultou na definição e fixação das características dos deuses. No período galo-romano, quando os cultos nativos tornaram-se integrados ao sistema religioso imperial, uma única deidade romana representava uma multiplicidade de deuses locais cuja lembrança ficava preservada no epíteto do estrangeiro importado. Assim, cinquenta e nove epítetos diferentes são ligados ao nome de Marte (2): Marte Teutates é o Teutates que conhecemos de Lucanus; Marte Segomo é o Segomo cujo culto aparece em Munster e cujo nome ocorre no do herói irlandês Nia Segamon (“Campeão de Segomo”) (3); Marte Camulus é o disfarce do deus Camulus, sem dúvida idêntico a Cumhall, pai do herói Finn (v. cap. VIII); Marte Rudianos (“o Vermelho”) lembra o nome do deus-cavalo Rudiobos (4), pois o cavalo e a cor vermelha estão associados à terra dos mortos e à guerra em todo o território céltico. Isso fica evidente pelos jaezes vermelhos da Morrígan e pelos três cavaleiros vermelhos do reino de Donn, senhor dos mortos, cujo surgimento em A Destruição da Hospedaria de Da Derga anuncia o destino iminente do rei Conaire 5. Desse modo, uma multiplicidade de deuses tribais que ele suplantou aparece sob a unidade do culto imperial de Marte.

A pluralidade de nomes em toda a extensão do território sugere

1 Anwyl, Trans. Gael. Soc. Inverness, 26, 411.
2 Dottin, Manuel por servir a l’étude de l’antiquité celtique, 226.
3 MacNeill, Phases of Irish History, 127.
4 J. Loth, Rev. Arch. 22, 5e Sér. 210; Eva Wunderlich, Rel.-Geschicht. Versuche, 20,46.
5 RC 22, 36.

p. 16

que esses eram deuses tribais, os deuses de comunidades ou grupos de comunidades, pois sua distribuição parece ser política ou geográfica, em lugar de funcional. E essa sugestão é confirmada por uma útil observação feita por Vendryes (1). É fato bem conhecido que um dos deuses representados com mais frequência nos monumentos gauleses é o Tricephalus, um deus com três cabeças ou três faces. Temos dele trinta e duas efígies, a maioria delas da Gália setentrional. Quinze dos exemplos mais arcaicos foram encontrados no território dos Remi. Portanto, podemos considerar o Tricephalus como um deus dos Remi, ao menos quanto a sua origem. Novamente, o culto das Matres é difundido na Renânia e, especialmente, entre os Treveri. Encontramos, porém, um exemplo do Tricephalus representado numa estela em Trier e ele aparece sobrepujado pelas três Matres dos Treveri, que parecem calcá-lo aos pés. Esse momumento pode ser comparado a uma estela descoberta em Malmaison, na qual o Tricephalus está associado a um outro grupo, o par formado por Mercúrio e sua companheira, Rosmerta. No entanto, as posições estão nesse caso invertidas e o Tricephalus parece dominar o par divino. Assim, cada um dos dois povos simbolizou o triunfo de seu próprio deus sobre deuses estrangeiros ou hostis. Vendryes sem dúvida está correto ao considerar tal evidência como indicação do caráter nacional que os Remi atribuíam ao seu Tricephalus e os Treveri, a suas Matres.

Esse caráter tribal do deus fica claramente explícito no nome do deus gaulês Teutates mencionado por Lucanus: “e aqueles que com sangue maldito pacificam o selvagem Teutates, de Esus os santuários hórridos, e os altares de Taranis, cruéis como aqueles amados pela Diana dos Citas” (2). Supôs-se que Teutates fosse um dos grandes deuses gauleses, mas essa hipótese fica invalidada

1 Comptes Rendus de l’Acad. des Inscriptions, 1935. 324.
2 Pharsalia, i, 445-46 (tr. Bellouesus).

p. 17

pelo fato de que ele é mencionado alhures em uma única inscrição e era, provavelmente, adorado apenas por alguma tribo obscura. Deveras, o nome significa simplesmente “(o deus) da tribo” (gaulês touto-, teuta-, irlandês túath, “tribo”) (1), título que corresponde a uma fórmula familiar das sagas irlandesas: “Juro pelo deus (ou deuses) pelo qual meu povo jura!” (2) Cada povo gaulês possuía, então, seu Teutates e cada um adorava-o com um nome diferente ou com um dos títulos: Albiorix, “Rei do Mundo”; Rigisamus, “Muito Majestoso”; Maponos, “o Grande Jovem”; Toutiorix, “Rei da Tribo”; Caturix, “Rei da Batalha”; Loucetius, “o Brilhante”, que talvez não sejam mais do que formas de invocar o deus sem profanar seu nome, por meio de uma precaução correspondente à sugerida pela fórmula irlandesa. Como esses deuses de povos ou tribos surgem à imaginação dos gauleses? Sem discutir detalhadamente as imagens, observaremos algumas características gerais (3).

Em primeiro lugar, figuras triplas são importantes, deuses com três cabeças ou três faces e grupos de três deusas. O número três desempenha um grande papel na tradição céltica; a “tríade”, uma fórmula que combina três fatos ou rês preceitos, é um gênero que domina a literatura gnômica de Gales e da Irlanda e personagens triplos ou trios são proeminentes nas tradições épicas dos dois povos. Outro fato notável é o distintivo caráter mais ou menos zoomórfico das efígies, algumas vezes expresso em forma mais evoluída do mesmo tipo mitológico pela associação de um animal com o deus. Um exemplo é oferecido por Cernunnos (“o Chifrudo”), o deus cujo culto é mais amplamente atestado. Ele é representado com os chifres de um carneiro ou gamo, acocorado no chão. A postura lembra a do Buda, mas isso deve ter sido habitual aos gauleses, cujo mobiliário não incluía nenhum

1 Vendryes, Teutomatos, Comptes rendus de l’Acad. des Inscriptions, 1939, 466.
2 Tongu do día toinges mo thúath!, em irlandês antigo (nota do tradutor).
3 Para as imagens, veja W. Krause, Religion der Kelten (Bilderatlas zur Religions-geschichte, 17); S. Reinach, Description raisonné du museé de Saint-Germains-en-Laye, Bronze figurés de la Gaule Romaine, 137.

p. 18

tipo de cadeira. Ele está frequentemente acompanhado de uma ou duas serpentes com chifres e o deus chifrudo com uma serpente aparece no famoso caldeirão de Gundestrup. Certas variações mostram uma deidade feminina, ou uma figura de três cabeças, do mesmo tipo.

Esse elemento zoomórfico aparece com mais clareza nas figuras femininas que nas masculinas; uma das deusas mais familiares é Epona, cujo nome significa “a Grande Égua” e que surge motada em lombo de cavalo, acompanhada por uma égua com seu potro; a galesa Rhiannon, “a Grande Rainha”, tem sido reconhecida como uma deusa-égua comparável a Epona (1). Encontramos também uma deusa-ursa, Artio, e não pode haver dúvida que o nome de Damona, formado como Epona, significa “a Grande Vaca” (cf. irlandês dam, “boi”).

Essas deidades femininas ocupam um grande espaço no mundo religioso dos gauleses. Elas podem ser divididas em duas classes. A primeira é a das deusas tutelares (2), que são ligadas à própria terra e a características locais, fontes ou florestas, ou, novamente, aos animais que os frequentam, e que controlam a fertilidade da terra, como demonstrado pelo corno da abundância que é um de seus atributos. Tais são as Matres e Epona e as deusas da água (Sirona na Gália oriental e Brixia, a companheira de Luxovius, o deus aquático de Luxeuil) ou das florestas (Dea Arduina das Ardennes). A segunda classe, que é menor, é a das deusas da guerra: por exemplo, Andarta, dos Vocontii, ou Andrasta, que era invocada por Boudicca antes de entrar em batalha, ou Nemetona, cujo nome assemelha-se ao de Nemain, uma das três Morrígna da tradição irlandesa (v. p. 32). Os dois tipos, dos quais um representa os poderes de fertilidade, o outro, os poderes de destruição, aparecem separadamente no território continental. Encontramo-los fundidos nas pessoas das mesmas divindades na tradição insular, que representa, nesse aspecto como em outros, uma

1 H. Hubert, “Le Mythe d’Epona”, Mélanges Vendryes, 187.
2 Daremberg-Saglio, Dict. des Ant., s. V. Matres.

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concepção menos analítica e mais arcaica que a gaulesa.

Muitas das deusas usualmente aparecem como companheiras de um deus. Brixia e Luxovius já foram citados e Sirona é comumente associada a Grannos ou, algumas vezes, a Apolo; Nemetona aparece nos monumentos ao lado de Marte, que, sem dúvida, substitui nesses casos algum deus guerreiro céltico; do mesmo modo, Rosmerta é a companheira de Mercúrio. Contudo, o par que se vê com mais frequência é Sucellos e Nantosuelta.

Sucellos, “o Deus do Malho”, cujo nome significa “Bom Golpeador” tem sido identificado a Dispater, ancestral dos gauleses, de quem Caesar nos fala. A aparência desse deus barbudo, vestido com a túnica curta que era o traje nacional dos gauleses, expressando força e autoridade e, ao mesmo tempo, uma certa benevolência, combina bastante com a ideia de um deus-pai e lembra, em muitos aspectos, o deus principal dos irlandeses, o Dagda (v. Cap. III). Seus atributos são o malho, arma do “Bom Golpeador”, e o cálice ou prato, símbolo da abundância, e há um contundente paralelo com os dois atributos do Dagda, a maça que derruba seu inimigo e o inexaurível caldeirão que assegura a abundância a seu povo. Portanto, essas divindades possuem as duas características que definem a função do deus-pai, que é, a um só tempo, guerreiro e, assim, protetor e nutridor. O nome de sua companheira, Nantosuelta, é obscuro, mas o primeiro elemento pode ser reconhecido como significando “rio” (cf. galês nant, “correnteza”). Dessa forma, encontramos em solo gaulês uma associação de um deus-pai como uma deusa fluvial local, que é confirmada por um episódio da mitologia irlandesa em que o Dagda é associado ao Boyne, o rio sagrado da Irlanda (v. p. 41). Outros pares podem ser acrescentados a essa classe. Na região de Salzbach, um “deus do malho” está associado à deusa Aeracura, que aparece com

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um corno da abundância e um cesto de frutos, atributos das Matres. Na mitologia dos celtas insulares, encontraremos novamente esses pares, compostos por um deus principal e uma das Matres e não há dúvida de que representam uma das noções fundamentais da religião céltica.

Deuses tribais e deusas-mães: é possível ir além dessa caracterização geral das divindades gaulesas? É possível encontrar um traço de separação de suas funções e atividades? A tentativa tem sido feita por força do parágrafo de Caesar que é citado com frequência e que deve ser novamente mencionado aqui. Recusamo-nos a começar com seu testemunho, mas este deve agora ser considerado. Caesar usa estas palavras:

O principal deus dos gauleses é Mercúrio e há imagens dele em toda parte. Diz-se que é o inventor de todas as artes, o guia de cada viagem e jornada e o deus mais influente nos negócios e questões financeiras. Depois dele, adoram Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Esses deuses têm as mesmas áreas de influência que entre os outros povos. Apolo afasta as doenças, Minerva é a mais influente nos ofícios, Júpiter governa o céu e Marte é o deus da guerra (1).

Assim, os grandes deuses dos celtas parecem corresponder mais ou menos exatamente aos grandes deuses dos romanos e teriam compartilhado entre si, como fazem estes, os vários domínios da atividade humana. Tal coincidência é a priori surpreendente. Em vista da divergência profunda na mentalidade e estrutura social que observamos entre romanos e celtas, devemos espantar-nos com essa semelhança em suas ideias religiosas; e uma comparação desse texto com os documentos gauleses confirma a suspeita.

Se considerarmos as deusas, observamos entre as deusas-mães divindades da água e da floresta, deusas da fertilidade que protegem certos animais e

1 Commentarii de Bello Gallico, vi, 17 (trad. Bellouesus).

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deusas da guerra, mas em parte alguma uma Minerva, padroeira das artes. Isso não significa que alguma deusa-mãe não desempenhava esse papel. E com efeito encontraremos na Brigit tripla uma padroeira das artes entre os celtas insulares. Caesar pode ter observado essa qualidade em alguma deusa gaulesa desconhecida para nós, ou mesmo em alguma que conhecemos, porém não com essa conexão. A qualidade que lhe era familiar e, portanto, imediatamente compreensível, sugeriu uma identificação apressada calculada para satisfazê-lo e confundir-nos. O testemunho de Caesar é importante na medida em que lança luz sobre um aspecto das deusas-mães que é confirmado pela tradição irlandesa e sobre o qual a tradição gaulesa é silenciosa. Contudo, ao aceitá-lo tal como colocado, formaremos uma noção equivocada das complexas deusas dos celtas.

No caso dos deuses, estamos na mesma situação. Podemos acreditar que os deuses gauleses eram guerreiros, artesãos, curadores e governavam certos fenômenos celestes. Isso fica exemplificado pelas contradições dos comentaristas que tentaram acomodar a evidência independente de Lucanus com o sistema delineado por Caesar. Na passagem acima citada, Lucanus enumera três deuses adorados pelas tribos gaulesas: Teutates, Esus e Taranis. Nada há que sugira serem estes os três grandes deuses gauleses, menos ainda que fossem os três principais deuses dos gauleses, uma concepção que, como vimos, não corresponde a qualquer realidade. Porém, à luz do testemunho de Caesar, somos conduzidos a achar uma equivalência entre estes deuses e aqueles que ele definiu; e os comentaristas de Lucanus fizeram essa tentativa1. O nome Taranis, que significa “Trovejante” (cf. irlandês torann, “trovão”) indica uma identificação com Júpiter. No entanto, entre Esus e

1 Commenta Bernensia, 445.

p. 22

Teutates, qual corresponde a Marte e qual a Mercúrio? Há tão pouca concordância que os dois comentaristas responderam a questão em termos contraditórios, de modo que encontramos tanto Esus quanto Teutates identificados a cada um dos dois deuses romanos. Já vimos que Teutates é de fato “o deus da tribo” e ele deve ter sido visto em alguns momentos como deus da guerra, em outros momentos como deus da indústria, conforme fosse invocado em tempo de guerra ou de paz. Indubitavelmente, o mesmo ocorria no caso de Esus, cujo nome pode significar “mestre”, se estiver correta a comparação com o latim “erus”. Lucanus o descreve como o senhor sanguinário de tribos belicosas, mas, nos altares de Trier e Paris, ele surge como o benigno padroeiro de uma corporação pacífica de construtores. De forma semelhante, o irlandês Lug é um artesão de muitos talentos, inclusive um curador, mas também um guerreiro cuja lança nunca erra o alvo. Universal e completa eficiência é o caráter de todos os deuses célticos e os vemos combater ou dar ajuda e conselho, de acordo com as necessidades de seu povo.

Não obstante, há um ponto do testemunho de Caesar que deve ser lembrado e exige interpretação. É a proeminência que ele atribui ao Mercúrio gaulês sobre os outros deuses, incluindo o senhor do céu. Isso conflita tão fortemente com as noções a que somos familiares que somos levados a aceitá-la; e, além disso, ela é confirmada pela tradição irlandesa. Não devemos, entretanto, atirar-nos à conclusão de que os gauleses distinguiam um deus das artes e ofícios em oposição a um deus da guerra e preferiam um ao outro. O culto de Marte, que é adorado sob cinquenta e nove títulos distintos, não é menos difundido na Gália galo-romana que o de Mercúrio, que possui apenas dezenove títulos. Devemos ao contrário supor que os gauleses davam precedência em seu mundo divino ao artesão

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sobre o guerreiro e que ambas as qualidades podiam ser combinadas (e normalmente o eram) em uma só divina pessoa. Essa é, ao menos, a forma como poderíamos explicar, em termos de mitologia céltica, o fato que impressionou Caesar e que este explicou em termos romanos.

Algumas características gerais emergiram deste breve apanhado: a multiplicidade das pessoas divinas, algumas vezes em forma tríplice; o caráter tribal, marcante no caso dos deuses; o caráter local, especialmente no caso das deusas; a importância das deidades femininas, deusas da guerra ou deusas-mães; a associação frequente dessas divindades femininas aos deuses tribais; a ausência de diferenciação de funções entre os deuses e a importância do artesão na hierarquia celestial. Essas características surgem apenas como sombras em nossa imagem do mundo religioso dos gauleses, pois nosso conhecimento imperfeito permite meramente um esboço; iremos vê-las novamente, no entanto, desenhadas com mais clareza e realçadas pelo rico colorido de uma mitologia viva na tradição épica dos celtas insulares.

Fonte: Sjoestedt, Marie-Louise. Celtic Gods and Heroes. Courier Dover Publications, Chemsford, MA, 2000, p. 14-23. ISBN 0-486-41441-8.

Noções de Mitologia Gaulesa

Noções de Mitologia Gaulesa

Bellou̯esus Īsarnos

Os mitos dos celtas da Gália, suas lendas pseudo-históricas, suas epopeias nacionais e genealogias deveriam servir como fundamento a todas as formas de saber, ao elementar, dispensado à plebe, bem como ao ensino erudito reservado aos discípulos e aos futuros mestres. Conservada em longos poemas versificados a fim de facilitar sua aprendizagem, a mitologia gaulesa, porque os historiadores e geógrafos gregos não a puderam ou não souberam registrar, caiu quase totalmente no esquecimento. Entretanto, o filósofo Lucius Annaeus Cornutus (na obra Theologiae Graecae Compendium), no começo da era cristã, considerava-a tão rica e variada que não hesitava em colocá-la em nível igual ao da mitologia grega.

nocoes1A mitologia gaulesa deixou alguns traços tangíveis, embora enigmáticos, em obras de arte figurativa de que a maior parte, infelizmene, é bastante tardia. Uma das mais antigas encontra-se numa bainha de espada do período halstattiano que representa uma expedição guerreira e em cuja extremidade dois personagens fazem girar uma roda tão alta quanto eles. Outras bainhas com relevos, provenientes de Cernon-sur-Coole (departamento de Marne, no nordeste da França), por exemplo, ou joias, como as de Erstfeld, na Suíça, mostram animais fantásticos ou seres semi-humanos com rostos ameaçadores, comumente devorando uns aos outros e aparentemente surgindo ou afundando em meio a um entrelaçado vegetal. As obras tardias, sendo mais realistas, demonstram mais sua relação com os relatos míticos cujas cenas principais talvez representem. O mais célebre de tais objetos é, evidentemente, o caldeirão de Gundestrup, composto de treze placas com relevos. As cinco placas que formam a borda interior representam verdadeiras cenas que, apesar de enigmáticas, permitem discernir elementos recorrentes da mitologia céltica: o personagem agachado, as galhadas de cervo, o torque, a serpente. Diversas situações parecem reportar-se diretamente a histórias ou lendas: um homem combate uma espécie de grifo ereto, um personagem agachado e coroado com uma galhada de cervo segura uma serpente em uma mão, outro indivíduo cavalga um golfinho, um gigante parece mergulhar um homem de cabeça para baixo no que parece ser uma banheira ou caldeirão.

nocoes2O pilar chamado “dos Marinheiros” (Pilier des Nautes), cujos blocos foram descobertos no coro da catedral de Notre-Dame de Paris, ainda que datados do começo da era cristã, mostram ao menos duas cenas da mitologia gaulesa onde a relação com as divindades é, nesse caso, claramente estabelecida, uma vez que, na face de cada um dos blocos, indica-se o nome da divindade representada. Sobre o primeiro, que traz o nome Esus, vê-se um homem de perfil no ato de podar uma árvore. Essa cena pode ter sido um tema comum, pois reaparece de forma muito semelhante, numa estela descoberta em Trèves. A segunda cena traz a inscrição gaulesa TARVOS TRIGARANVS, ou seja, “touro com as três garças”, e mostra uma árvore diante da qual se vê um touro de perfil em cujo dorso pousam três garças que se misturam à folhagem da árvore, como se a imagem esculpida tentasse explicar o nome da divindade.

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Outros vestígios da mitologia gaulesa foram descobertos onde não se esperaria: na própria mitologia romana. Graças a George Dumézil, sabe-se que o historiador Titus Liuius enriqueceu a história obscura dos primeiros séculos de Roma com a ajuda de relatos lendários que eram, na verdade, verdadeiros mitos. Encontram-se entre eles temas tipicamente gauleses que foram reintepretados. Assim é que, na batalha de Sentinum (295 a. C., Terceira Guerra Samnita), exatamente antes do confronto, Titus Liuius narra o aparecimento de uma corça perseguida por um lobo (Ab Vrbe Condita Libri, X, 27):

Tertio die descensum in campum omnibus copiis est. Cum instructae acies starent, cerua fugiens lupum e montibus exacta per campos inter duas acies decurrit; inde diuersae ferae, cerua ad Gallos, lupus ad Romanos cursum deflexit. Lupo data inter ordines uia; ceruam Galli confixere. Tum ex antesignanis Romanus miles “illac fuga” inquit “et caedes uertit, ubi sacram Dianae feram iacentem uidetis; hinc uictor Martius lupus, integer et intactus, gentis nos Martiae et conditoris nostri admonuit.”

“No terceiro dia, todas as tropas desceram à planície. Enquanto os exércitos esperavam imóveis em ordem de batalha, uma corça, caçada por um lobo das montanhas, correu atravessando a planície por entre os dois exércitos; os animais, então, tomando diferentes direções, a corça em direção ao gauleses, o lobo rumo aos romanos virou seu curso, que para ele abriram caminho; os gauleses mataram a corça, ante o que um dos soldados romanos disse: ‘Para aquele lado, onde vedes um animal sagrado a Diana jazer abatido, fuga e matança caberão; neste lado, o lobo vitorioso de Marte, seguro e incólume, lembra-nos de nosso fundador e de nossa descendência daquela divindade.’”

É fácil reconhecer a loba, animal totêmico de Roma, e concluir, por analogia, que a corça era sagrada aos gauleses.

Outro episódio ainda mais famoso mostra não apenas o influxo do mito sobre a história, mas também o desvio da figura mitológica gaulesa ao serviço da causa romana. O corvo que vem salvar o jovem tribuno Valerius ao atacar com o bico o gigante gaulês que o enfrenta é a própria personificação da vitória (Titus Liuis, Periochae, VII, 10; o relato situa-se no ano no ano 403 a. C., que corresponde a 350 da fundação de Roma):

M. Valerius tribunus militum Gallum, a quo provocatus erat, insidente galeae corvo et unguibus rostroque hostem infestante occidit et ex eo Corvi nomen accepit, consulque proximo anno, cum annos XXIII haberet, ob virtutem creatus est.

“O tribuno militar Marcus Valerius matou um gaulês por quem fora desafiado no momento em que um corvo empoleirou-se na crista [do seu elmo] e atacou o seu oponente com o bico e as patas; por essa razão, Marcus Valerius aceitou o sobrenome Coruus [‘corvo’]. Por causa de sua coragem, ele foi feito cônsul no ano seguinte, quando tinha vinte e três anos.”

Como último exemplo, cito o enfrentamento fantástico entre o general Lucius Posthumius Albinus e a tribo dos Boii, ocorrido na floresta chamada Litana (216 a. C., Gallia Cisalpina, norte da Itália), igualmente narado por Titus Liuis (Ab Vrbe Condita Libri, XXIII, 24):

Cum eae res maxime agerentur, noua clades nuntiata aliam super aliam cumulante in eum annum fortuna, L. Postumium consulem designatum in Gallia ipsum atque exercitum deletos. Silua erat uasta- Litanam Galli uocabant— qua exercitum traducturus erat. Eius siluae dextra laeuaque circa uiam Galli arbores ita inciderunt ut immotae starent, momento leui impulsae occiderent. Legiones duas Romanas habebat Postumius, sociumque ab supero mari tantum conscripserat ut uiginti quinque milia armatorum in agros hostium induxerit. Galli oram extremae siluae cum circumsedissent, ubi intrauit agmen saltum, tum extremas arborum succisarum impellunt; quae alia in aliam, instabilem per se ac male haerentem, incidentes ancipiti strage arma, uiros, equos obruerunt, ut uix decem homines effugerent. Nam cum exanimati plerique essent arborum truncis fragmentisque ramorum, ceteram multitudinem inopinato malo trepidam Galli saltum omnem armati circumsedentes interfecerunt paucis e tanto numero captis, qui pontem fluminis petentes obsesso ante ab hostibus ponte interclusi sunt. Ibi Postumius omni ui ne caperetur dimicans occubuit. Spolia corporis caputque praecisum ducis Boii ouantes templo quod sanctissimum est apud eos intulere. Purgato inde capite, ut mos iis est, caluam auro caelauere, idque sacrum uas iis erat quo sollemnibus libarent poculumque idem sacerdoti esset ac templi antistitibus. Praeda quoque haud minor Gallis quam uictoria fuit; nam etsi magna pars animalium strage siluae oppressa erat, tamen ceterae res, quia nihil dissipatum fuga est, stratae per omnem iacentis agminis ordinem inuentae sunt.

“Enquanto ativamente ocupado com tais questões, chegou-lhe conhecimento de um novo desastre – a sorte nesse ano amontoando uma calamidade sobre a outra -, a saber, que Lucius Posthumius, cônsul eleito, fora destruído com todo o seu exército na Gália. Ele teria que atravessar suas tropas por uma grande floresta que os gauleses chamavam Litana. À direita e à esquerda de seu caminho, os nativos tinham serrado as árvores de tal modo que estas continuassem em pé, mas caíssem quando empurradas pela menor força. Posthumius tinha consigo duas legiões romanas e recrutara, além disso, um tão grande número de aliados ao longo do Mar Adriático, que conduziu ao país do inimigo vinte e cinco mil homens. Assim que seu exército entrou na floresta, os gauleses, que se haviam posicionado em suas orlas mais externas, empurraram as árvores serradas mais externas que, caindo sobre as mais próximas e estas sobre as outras que permaneciam vacilando e quase não conseguiam ficar em pé, esmagaram armas, homens e cavalos de forma indiscriminada, de forma que quase nem dez homens conseguiram escapar. Muito deles, sendo, pois, mortos pelos troncos e pelos ramos quebrados das árvores, os gauleses que cercaram a floresta por todos os lados mataram todo o restante com armas, tomado de pânico por um desastre tão inesperado. Um número muito pequeno, que tentava escapar por uma ponte, foi aprisionado, sendo interceptado pelo inimigo que antes deles apossara-se dela. Ali Posthumius caiu, lutando com toda a sua força para não ser capturado. Os Boii cortaram sua cabeça, e carregaram-na e aos espólios que roubaram de seu corpo em triunfo ao mais sagrado templo que possuíam. Depois disso, limparam a cabeça de acordo com seu costume e, tendo coberto o crânio com ouro batido, usaram-no como cálice para libações em seus festivais solenes e taça de beber para seus altos sacerdotes e outros ministros do templo. Os espólios obtidos pelos gauleses não foram menores do que a vitória. Pois, embora um grande número de animais tenha sido esmagado pelas árvores que caíam e outras coisas se tenham dissipado na fuga, tudo o mais foi encontrado espalhado por toda a linha da tropa caída.”

Os detalhes mais ou menos realistas desse combate incomum lembram um tema mítico muito apreciado nas lendas célticas insulares, o da floresta guerreira.

O inverso igualmente é verdadeiro: a mitologia gaulesa toma de empréstimo ou divide com seus vizinhos os herois que considera ter viajado pela Gália. Diodoro Sículo relata que Hércules fundou a cidade de Alésia. De modo geral, atribuem-se a esse heroi grego todos os melhoramentos trazidos aos costumes bárbaros, a abolição dos sacrifícios humanos, a criação de estradas, o respeito aos estrangeiros, etc. O mesmo Diodoro também indica que os Argonautas teriam visitado as margens do Oceano, instalando nessa região o culto dos Dióscuros.

Esses exemplos um tanto heterogêneos confirmam a afirmação de Cornutus sobre a mitologia gaulesa. No entanto, a melhor prova da riqueza desta pode ainda hoje ser encontrada nas lendas irlandesas, que são descendentes distantes, separados por mil anos, dos mitos célticos que se difundiram extensamente nos últimos séculos anteriores à era cristã. Esses relatos, de uma variedade surpreendente, lembram não somente as epopeias de herois de tipo grego, tais como Cúchulainn, mas também todos os aspectos da vida quotidiana, das crenças, da história dos povos e dos reinos, o alcance imenso do saber confiado pelos celtas à mitologia.

Referências:

Vendryes, J. La Religion des Celtes.
Hatt, J.-J. Mythes e Dieux de la Gaule.
Brunaux, J.-L. Les Religions Gauloises.
Duval, P. M. Les Dieux de la Gaule.
Titus Liuius Patauinus. Ab Vrbe Condita Libri.

 

 

Santuários Gauleses

sanctuaire de Gournay-sur-Aronde

Reconstituição hipotética do santuário gaulês de Gournay-sur-Aronde (Oise).

Aquarela de Jean-Claude Blanchet.

Santuários Gauleses

Bellou̯esus Īsarnos

Jamais a pá de um arqueólogo escavou uma sepultura que pudesse, sem sombra de dúvida, ser atribuída a um druida. Contudo, as descobertas realizadas nos antigos santuários da Gália céltica nos últimos 30 anos permitiram conhecer os locais onde se desenrolava uma parte significativa de suas atividades e mudaram sensivelmente as concepções sobre a religião dos celtas gauleses.

Antes desses achados, ignorava-se que os gauleses possuíssem locais de culto construídos por mão humana. Consoante um mito persistente, imaginava-se o gaulês como o “bom selvagem”, que sacrificava no coração da floresta e contentava-se com locais de culto naturais análogos aos utilizados na pré-história, tais como as alturas e as cavernas.

Muitos de seus santuários, na verdade, eram construções elaboradas e geralmente obedeciam a orientação astronômica. Conforme a região, poderiam variar as manifestações do culto; sabe-se, porém, que os gauleses praticavam uma religião materialmente rica que nada devia em complexidade à de seus contemporâneos do Mediterrâneo, embora não tivesse o viés filosófico ou o impulso escatológico dos gregos.

A religião céltica permanecia muito próxima da natureza, de onde retirava seus fundamentos. Sua origem (provavelmente mais oriental do que grega) refletia-se nas divindades, comumente sem forma humana. O panteão gaulês não estava hierarquizado, tendo cada tribo divindades tutelares próprias. A divisão em tribos, algumas mais, outras menos importantes, e todas nômades em certo grau, foi uma característica da Gália céltica que influiu na variação geográfica do culto.

Os vestígios arquiteturais mais impressionantes são exatamente os dos grandes santuários célticos, como o de Ribemont-sur-Ancre (Somme), escavado a partir de 1985. Mas esses santuários, sempre cercados por uma paliçada ou vala, não existem em todos os lugares na Gália. As práticas que neles se realizavam também se desenvolveram ao longo do tempo. Entre os gauleses da Bélgica, que possuíam fortes ligações com os germanos, o culto apresentava traços arcaicos, com importantes sacrifícios animais e oferendas de armas. Mais ao sul, na Borgonha e na Gália Lugdunense, a influência romana se fez sentir desde o séc. II a. E. C.: os depósitos, em lugar de armas, constituíam-se de ânforas e cerâmicas.

Esse enfraquecimento dos sinais guerreiros testemunha a substituição da sociedade guerreira gaulesa pela sociedade mercantilista galo-romana e também se reflete no elenco das deidades gaulesas feito por Caesar (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, VI, 17, a famosa interpretatio romana), em que Mercúrio ocupa a primeira posição e Marte, a última.